Câncer de pâncreas: descoberta brasileira revela como ele se espalha rápido pelo corpo
Periostina facilita invasão nervosa e dificulta tratamentos convencionais
Fala Ciência|Do R7

O câncer de pâncreas é conhecido por sua agressividade e dificuldade de tratamento. Apesar de não ser o mais comum, ele apresenta alta mortalidade e frequentemente é diagnosticado em estágio avançado.
Novas pesquisas mostram que o tumor não apenas cresce, mas também altera o ambiente ao seu redor, criando caminhos para se espalhar mais rapidamente pelo corpo.
Tumor e microambiente: um sistema interligado
Estudos recentes revelam que o adenocarcinoma pancreático modifica o tecido saudável próximo, preparando o caminho para sua invasão. Uma proteína chamada periostina, produzida pelas células estreladas do pâncreas, remodela a matriz extracelular e ajuda as células cancerígenas a atingir os nervos próximos.
Esse processo, conhecido como invasão perineural, é responsável por aumentar o risco de metástases e está associado à agressividade da doença.
Por que o câncer de pâncreas apresenta alta letalidade?
Embora os casos não sejam tão frequentes quanto outros tipos de câncer, o adenocarcinoma pancreático apresenta taxas de mortalidade próximas às de diagnóstico. Globalmente, são estimados 510 mil novos casos por ano, com número similar de mortes. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) aponta 11 mil novos casos e 13 mil mortes anualmente.
O tumor é perigoso porque:
Descobrindo a periostina como alvo
Pesquisadores analisaram 24 amostras de tumores pancreáticos, mapeando genes e estruturas celulares com alta precisão. Eles descobriram que o estroma, o tecido que sustenta o tumor, atua ativamente na progressão do câncer, em vez de ser apenas passivo.
A periostina facilita a remodelação do tecido, permitindo que o tumor invada os nervos e se espalhe pelo corpo, além de criar uma barreira que reduz a eficácia da quimioterapia e da imunoterapia.
Essa descoberta faz parte do estudo Células estreladas positivas para periostina associadas à invasão perineural no adenocarcinoma pancreático, publicado na Endocrinologia Molecular e Celular (2026; 611: 112678, DOI: 10.1016/j.mce.2025.112678) e desenvolvido com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O trabalho foi liderado por Carlos Alberto de Carvalho Fraga, reforçando a relevância da equipe brasileira nessa área.
Implicações para tratamentos futuros
Bloquear a periostina ou reduzir a atividade das células estreladas pode limitar a invasão precoce do tumor e diminuir o risco de metástases. Ensaios clínicos em outros tipos de câncer já testam anticorpos voltados para essa proteína, sugerindo que abordagens semelhantes podem beneficiar pacientes com câncer pancreático.
Essa pesquisa reforça a importância da medicina de precisão, permitindo que terapias sejam direcionadas às alterações moleculares do tumor, em vez de se basearem apenas no tipo de câncer.
O câncer de pâncreas manipula seu entorno para se espalhar e se proteger de tratamentos. Identificar a periostina como alvo, como mostrado no estudo de Carlos Alberto de Carvalho Fraga, abre novas perspectivas para intervenções precoces, terapias mais eficazes e, potencialmente, maior sobrevida para pacientes com esta forma agressiva de câncer.













