Esse inseto desafia o frio congelante gerando calor com o próprio corpo
Pequeno inseto revela estratégias biológicas surpreendentes para sobreviver abaixo de zero
Fala Ciência|Do R7

A vida em temperaturas negativas sempre foi vista como um limite quase intransponível para a maioria dos organismos. No entanto, uma descoberta recente desafia essa ideia: a mosca-da-neve (Chionea alexandriana) apresenta adaptações impressionantes que permitem não apenas sobreviver, mas também se manter ativa em ambientes congelantes.
Diferente de outros insetos, que entram em estado de dormência quando o frio se intensifica, essa espécie desenvolveu mecanismos únicos para enfrentar o gelo. O estudo, publicado na revista Current Biology, revela que esses organismos combinam estratégias bioquímicas e fisiológicas altamente eficientes. Entre os principais destaques da pesquisa, estão:
Um genoma fora do padrão conhecido
Ao analisar o material genético da mosca-da-neve, os pesquisadores encontraram algo surpreendente: muitos dos genes ativos simplesmente não possuem equivalentes conhecidos em bancos de dados científicos. Isso indica uma evolução altamente especializada, possivelmente moldada por ambientes extremos ao longo de milhares de anos.
Além disso, esses genes estão diretamente ligados à produção de proteínas com função anticongelante. Esse tipo de molécula já havia sido observado em organismos marinhos de regiões polares, o que sugere um interessante caso de convergência evolutiva, quando espécies diferentes desenvolvem soluções semelhantes para o mesmo problema.
Bloquear o gelo e gerar calor: dupla estratégia de sobrevivência

A sobrevivência da mosca-da-neve depende de um equilíbrio delicado entre impedir o congelamento e manter funções metabólicas ativas. As proteínas anticongelantes atuam como barreiras microscópicas, evitando que cristais de gelo se expandam e danifiquem as células.
Paralelamente, esses insetos conseguem manter sua temperatura interna ligeiramente acima do ambiente. Embora pareça um detalhe pequeno, essa diferença térmica pode ser decisiva para evitar o congelamento completo.
Curiosamente, esse aquecimento não ocorre por tremores musculares, como em alguns insetos, mas sim por processos celulares associados à termogênese, semelhante ao que ocorre em mamíferos com gordura marrom.
Menos dor, mais resistência
Outro fator crucial é a baixa sensibilidade ao frio extremo. Em condições normais, temperaturas muito baixas desencadeiam respostas químicas que provocam dor e limitam a atividade dos organismos. No caso da mosca-da-neve, esse sistema é significativamente menos responsivo, o que permite que o inseto continue se movimentando e até se reproduzindo em ambientes que seriam intoleráveis para a maioria das espécies.
Além de ampliar o entendimento sobre adaptação a ambientes extremos, essa descoberta também abre caminho para aplicações promissoras. Entre elas, destacam-se o desenvolvimento de técnicas mais eficientes para preservação de células e tecidos, avanços em criopreservação e armazenamento biológico e até a criação de materiais mais resistentes ao frio. Dessa forma, essas evidências reforçam como a natureza ainda guarda soluções sofisticadas para desafios complexos, muitas delas com potencial direto para a ciência e a medicina.














