Luas de planetas sem estrela podem manter oceanos líquidos por bilhões de anos
Exoluas podem permanecer habitáveis mesmo sem estrela graças a atmosferas de hidrogênio
Fala Ciência|Do R7

A busca por vida fora da Terra normalmente se concentra em planetas que orbitam estrelas semelhantes ao Sol. No entanto, novas pesquisas indicam que ambientes potencialmente habitáveis podem existir mesmo nas regiões mais frias e escuras da galáxia. Um estudo recente mostra que luas orbitando planetas errantes, mundos que vagam pelo espaço sem estrela, podem manter oceanos de água líquida por bilhões de anos.
A investigação foi conduzida por cientistas do Cluster ORIGINS da Ludwig Maximilian University (LMU) e do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre, com resultados publicados no periódico Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. O trabalho sugere que certas exoluas podem permanecer estáveis e potencialmente habitáveis por até 4,3 bilhões de anos, um período comparável à idade da própria Terra. Entre os fatores que poderiam permitir essa estabilidade estão:
Esses elementos ampliam significativamente o número de ambientes onde a vida poderia surgir no universo.
Calor gravitacional mantém oceanos líquidos
Planetas errantes surgem quando sistemas planetários jovens passam por interações gravitacionais instáveis. Durante esse processo, alguns planetas são expulsos de suas órbitas e passam a viajar pela galáxia sem uma estrela central.
Curiosamente, muitos desses planetas podem manter suas luas após a ejeção. Porém, esse evento altera as órbitas desses satélites, tornando-as mais alongadas. Como resultado, a distância entre a lua e o planeta varia continuamente.
Essa variação gera forças de maré intensas, que deformam periodicamente o interior da lua. O atrito produzido por essa deformação libera calor interno, um fenômeno conhecido como aquecimento de maré. Esse processo pode fornecer energia suficiente para manter água líquida na superfície ou abaixo dela, mesmo em ambientes extremamente frios.
Hidrogênio atua como escudo térmico
Além do aquecimento interno, a atmosfera da lua desempenha papel fundamental na manutenção de condições habitáveis. Em planetas como a Terra, o dióxido de carbono atua como gás de efeito estufa, ajudando a reter calor.
No entanto, em ambientes extremamente frios, o dióxido de carbono tende a condensar e congelar, reduzindo sua eficácia. Por isso, os pesquisadores investigaram o papel de atmosferas dominadas por hidrogênio.
Sob pressões elevadas, moléculas de hidrogênio podem absorver radiação térmica por meio de um fenômeno chamado absorção induzida por colisão. Nesse processo, colisões entre moléculas criam estruturas temporárias capazes de capturar calor, impedindo sua fuga para o espaço.
Como o hidrogênio permanece estável mesmo em temperaturas muito baixas, ele pode funcionar como uma espécie de manta térmica natural para essas exoluas.
Novos cenários para o surgimento da vida
Além de fornecer calor, as forças de maré também podem estimular processos químicos importantes para a origem da vida. A deformação periódica da lua pode gerar ciclos de evaporação e condensação da água, criando ambientes químicos dinâmicos.
Esses ciclos são considerados favoráveis para a formação de moléculas orgânicas complexas, um passo essencial no caminho para sistemas biológicos.Como estimativas indicam que planetas errantes podem ser tão comuns quanto estrelas na Via Láctea, suas luas representam um enorme conjunto de possíveis habitats. Assim, a descoberta sugere que a vida pode surgir e persistir mesmo longe da luz das estrelas, ampliando profundamente as fronteiras da astrobiologia.
*Texto produzido pelo Fala Ciência com autoria e revisão técnica de Leandro C. Sinis, Biólogo (UFRJ).














