Medicamento altera a forma como o cérebro processa autocríticas negativas
Novo estudo mostra como o escitalopram corrige falhas cerebrais sociais
Fala Ciência|Do R7

O transtorno de ansiedade social ultrapassa os limites da timidez cotidiana. Ele altera profundamente a forma como o cérebro interpreta julgamentos, críticas e até pensamentos sobre si mesmo.
Um estudo conduzido na Finlândia revela que o escitalopram, um dos medicamentos mais prescritos para ansiedade, pode normalizar padrões específicos de atividade cerebral associados à autocrítica negativa, trazendo novas pistas sobre como o tratamento atua no cérebro.
A pesquisa foi publicada na revista científica Psychiatry Research: Neuroimaging, com o título Escitalopram normaliza a diminuição da ativação do giro frontal inferior esquerdo no transtorno de ansiedade social durante o processamento autorreferencial, assinada por Rasmus Rinne, Roope Heikkilä, Tuukka T. Raij, Emma Komulainen, Jesper Ekelund e Erkki Isometsä.
O que acontece no cérebro de quem tem ansiedade social?
Indivíduos com ansiedade social apresentam dificuldades específicas no processamento autorreferencial, ou seja, na forma como avaliam informações relacionadas a si mesmos. No estudo, isso ficou evidente na atividade reduzida do giro frontal inferior esquerdo, uma região cerebral envolvida em fala interna, reflexão e reavaliação cognitiva.
Durante tarefas que exigiam a avaliação de adjetivos negativos aplicados à própria pessoa, participantes com ansiedade social mostraram uma resposta cerebral mais fraca quando comparados a indivíduos saudáveis. Isso sugere uma menor capacidade de reinterpretar críticas internas de forma racional.
Como o escitalopram modifica esse padrão

Após sete dias de uso de escitalopram, os participantes com ansiedade social apresentaram um aumento significativo da ativação do giro frontal inferior esquerdo ao processar adjetivos negativos. Esse efeito não foi observado no grupo que recebeu placebo.
Esse achado indica que o medicamento pode restaurar circuitos cerebrais ligados à reavaliação de pensamentos sociais negativos, ajudando o cérebro a lidar melhor com autocríticas e julgamentos percebidos.
Além disso, diferenças anormais observadas no giro pré-central, outra área relacionada à resposta emocional e motora, também foram parcialmente normalizadas com o uso do fármaco.
Por que esse estudo é relevante?
Diferente de estudos que avaliam apenas sintomas clínicos, esta pesquisa demonstra mudanças mensuráveis na atividade cerebral, reforçando que o escitalopram não atua apenas no humor, mas também na estrutura funcional do processamento cognitivo social.
Entre os principais pontos observados estão:
Esses mecanismos ajudam a explicar por que o escitalopram é eficaz em reduzir o sofrimento associado à ansiedade social.
Limitações e próximos passos
Apesar dos resultados promissores, o estudo envolveu um número relativamente pequeno de participantes, o que indica a necessidade de pesquisas maiores para confirmar os achados. Ainda assim, os dados oferecem uma base sólida para compreender como medicamentos ansiolíticos atuam diretamente nos circuitos cerebrais da autocrítica.
O estudo amplia a compreensão científica sobre o funcionamento cerebral na ansiedade social e mostra que o escitalopram pode reorganizar padrões neurais associados à percepção negativa de si mesmo. Esses achados reforçam o papel da psicofarmacologia não apenas no alívio dos sintomas, mas na reestruturação funcional do cérebro ansioso.














