Novo tratamento aprovado pela Anvisa pode retardar diabetes tipo 1
Novo imunomodulador age no sistema imunológico e pode atrasar o aparecimento da doença
Fala Ciência|Do R7

Uma nova estratégia médica pode mudar a forma como o diabetes tipo 1 é enfrentado nos estágios iniciais. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a comercialização no Brasil do teplizumabe, uma terapia imunológica projetada para interferir no processo que leva ao desenvolvimento da doença.
Até hoje, o tratamento do diabetes tipo 1 se baseia principalmente na administração de insulina, necessária quando o organismo perde a capacidade de produzir o hormônio. No entanto, o novo medicamento propõe uma abordagem diferente. Em vez de tratar apenas as consequências da doença, ele busca modificar a resposta do sistema imunológico antes do aparecimento dos sintomas.
Essa mudança de estratégia pode oferecer um benefício importante para pessoas que apresentam risco elevado de desenvolver a condição.
O que acontece no organismo antes do diagnóstico
O diabetes mellitus tipo 1 (DM1) é classificado como uma condição autoimune. Nesse tipo de condição, o sistema de defesa do organismo passa a reconhecer estruturas próprias como ameaças.
No caso do diabetes tipo 1, o alvo são as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina, hormônio fundamental para controlar a glicose no sangue.
Esse processo não acontece de forma imediata. Nas fases iniciais, é comum que alterações biológicas possam ser detectadas em testes laboratoriais, mesmo quando ainda não há sinais clínicos evidentes.
Entre os sinais observados nessa etapa estão:
• presença de autoanticorpos associados ao diabetes
• alterações no metabolismo da glicose
• redução gradual da função das células produtoras de insulina
Quando grande parte dessas células é destruída, a glicose no sangue começa a subir de forma persistente e o diagnóstico clínico é estabelecido.
Como o teplizumabe interfere nesse processo
O teplizumabe é um anticorpo monoclonal, ou seja, um medicamento desenvolvido em laboratório para agir sobre alvos específicos do sistema imunológico.
No diabetes tipo 1, algumas células de defesa chamadas linfócitos T participam do ataque ao pâncreas. O teplizumabe atua modulando a atividade dessas células, reduzindo a intensidade da resposta autoimune.
Como resultado, parte das células beta pode continuar funcionando por mais tempo. Essa preservação parcial da função pancreática pode retardar a evolução da doença, adiando o momento em que o organismo deixa de produzir insulina em quantidade suficiente.
Evidência científica aponta atraso no surgimento da doença
A eficácia dessa estratégia foi investigada em um estudo clínico publicado no New England Journal of Medicine em 2019.
Na pesquisa, indivíduos com alto risco de desenvolver diabetes tipo 1 receberam uma infusão de teplizumabe durante 14 dias e foram acompanhados ao longo de vários anos. Os resultados mostraram que o medicamento foi capaz de postergar significativamente o diagnóstico da doença.
De acordo com os dados do estudo, o tempo médio até o surgimento do diabetes foi de 48,4 meses entre os participantes tratados, enquanto no grupo que recebeu placebo a doença apareceu em cerca de 24,4 meses. Esses resultados indicam um atraso médio de aproximadamente dois anos no desenvolvimento do diabetes tipo 1.
O estudo foi publicado na revista científica New England Journal of Medicine em 2019 e pode ser consultado na base científica PubMed.
Como o tratamento é aplicado
O tratamento com teplizumabe é realizado por infusão intravenosa, normalmente em ambiente hospitalar ou ambulatorial.
O protocolo terapêutico envolve:
• aplicação diária do medicamento
• duração total de duas semanas consecutivas
• acompanhamento médico durante todo o processo
Por atuar diretamente no sistema imunológico, o medicamento é classificado como um imunomodulador, pois altera a forma como o organismo responde ao processo autoimune.
Um novo caminho no manejo do diabetes tipo 1
Embora o teplizumabe represente um avanço importante, ele não substitui a insulina quando o diabetes tipo 1 já está estabelecido. O principal objetivo da terapia é atrasar a progressão da doença antes da fase clínica.
Mesmo assim, esse tempo adicional pode ser extremamente relevante. O atraso no diagnóstico permite maior acompanhamento médico, planejamento terapêutico e adaptação às mudanças que acompanham o tratamento do diabetes.
Com a aprovação da Anvisa e o suporte de evidências científicas, o teplizumabe inaugura uma nova etapa na tentativa de intervir precocemente no processo que leva ao diabetes tipo 1.














