O segredo para humanos viverem até 200 anos pode estar escondido no DNA das baleias
A biologia extrema da baleia-da-Groenlândia abre novas perspectivas sobre envelhecimento, DNA e conservação
Fala Ciência|Do R7

A possibilidade de viver até 200 anos parece ficção científica para os humanos, mas, no oceano Ártico, essa é uma realidade biológica. A baleia-da-Groenlândia figura entre os vertebrados mais longevos do planeta e chama a atenção não apenas pela idade avançada, mas também pela combinação rara de enorme porte corporal e baixíssima incidência de câncer. Para a ciência, esse conjunto desafia conceitos clássicos da medicina sobre envelhecimento e doença.
Nos últimos anos, estudos em genética e biologia celular passaram a investigar como esse animal mantém seu organismo funcional por tanto tempo. As evidências sugerem que o segredo não está em um único gene, mas em um sistema altamente eficiente de proteção do DNA, moldado por milhões de anos de evolução em um ambiente extremo. Logo após as primeiras análises, alguns fatores se destacaram:
Reparar o DNA em vez de apenas frear doenças
Um dos elementos centrais identificados é a proteína CIRBP, cuja produção aumenta em baixas temperaturas. Na baleia-da-Groenlândia, essa molécula atua diretamente na correção de danos severos no DNA, reduzindo erros genéticos e evitando o acúmulo de mutações ao longo da vida. Como resultado, o envelhecimento celular ocorre de forma mais lenta e controlada.

Diferentemente de outras espécies longevas, essa baleia não depende apenas de mecanismos antitumorais. Pelo contrário, sua estratégia parece ser corrigir constantemente o material genético, antes que falhas se transformem em doenças. Nesse contexto, o frio deixa de ser um obstáculo e passa a integrar o próprio sistema de defesa biológica.
Do ambiente extremo às pesquisas biomédicas
Experimentos descritos em revistas como Cell Reports indicam que versões da CIRBP associadas à baleia aceleram a reparação do DNA em células humanas cultivadas em laboratório. Em organismos modelo, o aumento dessa proteína também esteve ligado a maior resistência ao estresse celular e maior longevidade.
Apesar do entusiasmo, os resultados ainda são experimentais. A transição para aplicações clínicas exige testes em mamíferos mais próximos dos humanos, além de rigorosos critérios éticos.
Longevidade, clima e preservação
Essas descobertas reforçam um ponto crucial: proteger a biodiversidade é proteger o conhecimento científico. A baleia-da-Groenlândia depende do gelo marinho, hoje ameaçado pelo aquecimento global. A perda desse habitat pode significar também a perda de soluções biológicas únicas, com potencial impacto direto na saúde humana.Assim, conservar ecossistemas não é apenas uma escolha ambiental, mas um investimento no futuro da ciência e da medicina.














