Superantibiótico preserva bactérias boas e combate infecção intestinal perigosa
Novo antibiótico experimental pode combater bactéria intestinal perigosa preservando o microbioma
Fala Ciência|Do R7

Pesquisadores desenvolveram um antibiótico experimental capaz de combater uma infecção intestinal potencialmente grave utilizando uma dose muito pequena, ao mesmo tempo em que preserva bactérias benéficas do intestino. A descoberta representa um possível avanço na luta contra infecções causadas pela Clostridioides difficile, uma bactéria conhecida por provocar diarreia intensa e inflamação intestinal.
Os resultados foram publicados na revista científica Nature Communications em 2025 e indicam que o novo composto, chamado EVG7, pode reduzir significativamente o risco de recorrência da infecção, um dos principais desafios no tratamento dessa doença.
Uma bactéria difícil de eliminar
A Clostridioides difficile é uma bactéria que pode colonizar o intestino e produzir toxinas capazes de causar sintomas graves, especialmente em idosos, pacientes hospitalizados ou pessoas com imunidade comprometida.
Frequentemente, o tratamento da doença é realizado com medicamentos antibióticos. No entanto, esse tipo de terapia apresenta uma limitação importante. Após o tratamento inicial, a infecção frequentemente retorna. Isso ocorre porque a bactéria produz esporos resistentes, estruturas que conseguem sobreviver mesmo após o uso de medicamentos.
Esses esporos podem permanecer no organismo e, posteriormente, voltar a se multiplicar, desencadeando novos episódios da doença.
Um antibiótico projetado para ser mais eficaz
O antibiótico EVG7 foi desenvolvido por cientistas do Instituto de Biologia de Leiden como uma versão aprimorada de antibióticos glicopeptídicos já utilizados na prática clínica.
A principal diferença está em sua potência elevada, que permite o uso de doses muito menores sem comprometer a eficácia.
Em experimentos conduzidos com camundongos infectados pela bactéria, os pesquisadores observaram que uma pequena dose do EVG7 foi suficiente para controlar a infecção e reduzir drasticamente a probabilidade de recaída.
Curiosamente, os resultados mostraram que o equilíbrio da dose foi fundamental. Uma dose menor apresentou melhor desempenho do que doses maiores do próprio medicamento ou do antibiótico tradicional vancomicina, frequentemente usado contra essa infecção.
Preservando o microbioma intestinal
Um dos aspectos mais relevantes da descoberta envolve o impacto do tratamento no microbioma intestinal, conjunto de microrganismos que vivem naturalmente no trato digestivo.
Antibióticos convencionais costumam eliminar não apenas as bactérias nocivas, mas também uma grande parte das bactérias benéficas, o que pode facilitar o retorno da infecção.
No estudo publicado na Nature Communications (2025), os pesquisadores observaram que os animais tratados com baixa dose de EVG7 mantiveram níveis mais elevados de bactérias protetoras, especialmente membros da família Lachnospiraceae.
Esses microrganismos desempenham um papel importante na proteção do intestino, pois ajudam a impedir que esporos remanescentes de C. difficile voltem a se desenvolver.
Assim, ao preservar o equilíbrio do microbioma, o medicamento pode oferecer uma estratégia mais eficiente para evitar novas infecções.
Menor risco de resistência bacteriana
Outro problema crescente na medicina moderna é a resistência a antibióticos, fenômeno que ocorre quando bactérias evoluem e passam a resistir aos medicamentos.
Normalmente, doses muito baixas podem favorecer esse processo. No entanto, os resultados iniciais indicam que o EVG7 mantém potência suficiente para eliminar a bactéria mesmo em quantidades reduzidas, o que pode diminuir o risco de resistência.
Embora os dados ainda sejam preliminares, essa característica aumenta o interesse científico no novo composto.
Próximos passos da pesquisa
Apesar dos resultados promissores, o antibiótico EVG7 ainda precisa passar por várias etapas antes de chegar aos pacientes.
Os próximos passos incluem:
Se essas etapas forem bem-sucedidas, o medicamento poderá representar uma nova estratégia terapêutica para tratar infecções recorrentes por Clostridioides difficile, um problema que afeta milhares de pacientes em todo o mundo.
A pesquisa publicada na Nature Communications sugere que preservar o equilíbrio do microbioma intestinal pode ser um caminho promissor no desenvolvimento de antibióticos mais eficazes e seguros.
*Texto produzido pelo Fala Ciência com autoria e revisão técnica de Rafaela Lucena, Farmacêutica (CRF-RJ: 13912).














