Temperaturas dos oceanos podem estar evitando uma mega seca global no planeta
Ciclos oceânicos como El Niño ajudam a evitar secas simultâneas em todo o planeta
Fala Ciência|Do R7

A ideia de uma seca global simultânea, capaz de comprometer a produção de alimentos em todo o planeta, sempre foi um temor recorrente em estudos climáticos. No entanto, uma nova pesquisa indica que a própria dinâmica natural da Terra pode estar ajudando a evitar esse cenário extremo.
Cientistas descobriram que variações nas temperaturas dos oceanos, especialmente no Oceano Pacífico, desempenham um papel crucial ao impedir que secas se espalhem ao mesmo tempo por vários continentes.
A análise, publicada na revista científica Communications Earth & Environment, examinou dados climáticos entre 1901 e 2020. Os resultados mostram que secas sincronizadas normalmente atingem apenas entre 1,8% e 6,5% das terras do planeta ao mesmo tempo, um número muito menor do que estimativas anteriores, que sugeriam até um sexto da superfície terrestre. Entre os principais fatores identificados pelos pesquisadores estão:
Em vez de uma seca uniforme e planetária, o clima cria uma espécie de mosaico climático, no qual diferentes regiões passam por períodos secos em momentos distintos.
O “mosaico climático” criado pelos oceanos
A pesquisa revelou que determinadas regiões funcionam como polos frequentes de seca, onde esses eventos começam ou se intensificam. Entre elas estão:
Esses focos não ocorrem todos ao mesmo tempo. Isso acontece porque os ciclos oceânicos alteram os padrões de circulação atmosférica, deslocando as áreas mais secas de um continente para outro ao longo dos anos.
Durante episódios de El Niño, por exemplo, algumas regiões enfrentam escassez de chuvas enquanto outras recebem precipitações acima da média. Já nas fases de La Niña, o padrão climático muda novamente, redistribuindo as áreas afetadas.
Como resultado, o planeta raramente entra em um estado de seca global simultânea.
Impacto direto na produção de alimentos
Embora o sistema climático reduza o risco de uma seca global única, os efeitos regionais ainda podem ser severos. O estudo também analisou dados históricos da agricultura e encontrou relações importantes entre secas moderadas e perdas de colheita.
As análises indicam que, em regiões agrícolas afetadas pela seca, as perdas podem ultrapassar 25% da produção. Em alguns casos, culturas como milho e soja podem registrar reduções ainda mais severas, chegando a 40% ou até 50%.
Ainda assim, como as secas normalmente ocorrem em regiões diferentes e em períodos distintos, o impacto global tende a ser parcialmente amortecido. Esse cenário permite que outras áreas agrícolas mantenham ou aumentem sua produção, compensando parte das perdas e contribuindo para a estabilidade do abastecimento mundial de alimentos.
Precipitação ainda é o fator dominante
Os pesquisadores também analisaram quais fatores mais influenciam a intensidade das secas. Os resultados indicam que cerca de dois terços das mudanças na severidade desses eventos estão relacionados à precipitação, enquanto o aumento das temperaturas responde por aproximadamente um terço das alterações observadas.
Ainda assim, a influência do aquecimento global tende a crescer. À medida que as temperaturas sobem, ocorre maior evaporação da água presente no solo e nas plantas, o que pode intensificar episódios de escassez hídrica em diversas regiões do planeta.
Uma vantagem natural para a segurança alimentar global
O estudo destaca que compreender os sistemas climáticos interligados do planeta pode ajudar a antecipar crises agrícolas e melhorar o planejamento global.
Como as secas não costumam atingir todos os continentes simultaneamente, políticas de comércio internacional, armazenamento de alimentos e gestão agrícola podem aproveitar essa diversidade climática natural para reduzir riscos.
Em outras palavras, os oceanos não apenas regulam o clima, mas também podem estar desempenhando um papel silencioso na proteção do abastecimento global de alimentos.
Escrito por Leandro C. Sinis, Biólogo (UFRJ) para o Fala Ciência.














