Tumores silenciosos bagunçam o relógio biológico e enfraquecem defesas do corpo
Alterações precoces no ritmo cerebral podem favorecer o avanço do câncer de mama
Fala Ciência|Do R7

O câncer não atua apenas onde o tumor cresce. Evidências recentes mostram que ele pode reprogramar silenciosamente o cérebro logo nos estágios iniciais da doença, afetando funções essenciais como sono, resposta ao estresse e imunidade. Esse efeito invisível ajuda a explicar por que ansiedade e insônia surgem tão cedo em muitos pacientes, mesmo antes do diagnóstico.
Um estudo publicado em 15 de dezembro de 2025 na revista científica Neuron, intitulado Aberrant hypothalamic neuronal activity dampens diurnal glucocorticoid rhythms in murine breast cancer, conduzido por Adrian M. Gomez et al., revelou que o câncer de mama altera o relógio biológico do cérebro quase imediatamente após o início da doença (DOI: 10.1016/j.neuron.2025.11.019).
O que o câncer altera no cérebro logo no início?
Nos experimentos com camundongos, os pesquisadores observaram que os tumores interferem nos ritmos circadianos, responsáveis por organizar processos fisiológicos ao longo do dia. O principal impacto ocorreu sobre os hormônios do estresse, que deixaram de seguir sua oscilação natural entre dia e noite. Logo após a indução do câncer, os animais passaram a apresentar:
Esse desequilíbrio foi detectado antes mesmo que os tumores fossem palpáveis, indicando que o cérebro reage muito precocemente à presença do câncer.

Quando o relógio biológico sai do controle, o corpo paga o preço
O controle do estresse depende do eixo HPA (hipotálamo, hipófise e glândulas suprarrenais). Quando esse sistema perde o ritmo, o organismo entra em um estado de alerta contínuo. Como consequência, surgem insônia persistente, ansiedade elevada e queda da eficiência do sistema imunológico.
Além disso, os níveis estáveis e não oscilantes dos hormônios do estresse foram associados a pior prognóstico e menor sobrevida nos modelos animais analisados.
Restaurar o ritmo do cérebro fortalece a imunidade
O achado mais promissor do estudo foi observar que, ao reajustar artificialmente o ritmo de neurônios específicos do hipotálamo, o organismo recuperou seu padrão hormonal normal. Esse simples reequilíbrio gerou um efeito em cascata: células imunológicas passaram a invadir os tumores, levando à redução significativa do câncer, sem uso de medicamentos oncológicos.
O resultado reforça a ideia de que organismos fisiologicamente equilibrados combatem melhor o câncer. Essas descobertas abrem caminho para estratégias complementares ao tratamento tradicional, focadas em regular sono, estresse e ritmos biológicos. Em vez de atacar apenas o tumor, a ciência começa a olhar para o corpo como um sistema integrado, onde o cérebro exerce papel central na evolução da doença.
Manter o relógio biológico sincronizado pode não apenas melhorar a qualidade de vida, mas também potencializar a resposta imunológica contra o câncer.















