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Um terço da população pode carregar esse parasita no cérebro

Pesquisa revela mecanismo imunológico que impede avanço do Toxoplasma no cérebro

Fala Ciência

Fala Ciência|Do R7

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Ilustração de Toxoplasma Gondii em estágio de taquizoíto. (Foto: Science Photo Library via Canva) Fala Ciência

Estima-se que uma em cada três pessoas no mundo esteja infectada pelo Toxoplasma gondii, um parasita capaz de se alojar no cérebro por toda a vida. Apesar disso, a maioria nunca desenvolve sintomas. Mas, o que impede que essa infecção silenciosa se torne uma ameaça grave? Uma nova pesquisa traz respostas importantes e revela um mecanismo imunológico sofisticado que atua como barreira protetora.

O Toxoplasma gondii é transmitido principalmente pelo contato com fezes de gatos, ingestão de carne mal cozida ou alimentos contaminados. Após entrar no organismo, ele pode se espalhar por diversos órgãos e, posteriormente, estabelecer-se no sistema nervoso central. Em pessoas com sistema imunológico enfraquecido, a infecção pode evoluir para toxoplasmose grave, com risco de complicações neurológicas.


Quando o inimigo invade as próprias células de defesa

O estudo publicado em 2025 na revista Science Advances, intitulado A expressão da caspase-8 em células T CD8 promove a restrição de patógenos no cérebro durante a infecção por Toxoplasma gondii, liderado por Lydia A. Sibley (DOI: 10.1126/sciadv.adz4468), investigou um aspecto surpreendente da infecção.


Os pesquisadores analisaram o comportamento das células T CD8+, fundamentais na resposta contra infecções intracelulares. Essas células têm a função de identificar e destruir células infectadas. No entanto, o T. gondii consegue invadir justamente essas células responsáveis por combatê-lo.

Essa descoberta levanta uma questão crucial: como o organismo consegue manter a infecção sob controle se o parasita ataca suas próprias células de defesa?


A enzima que decide o destino da célula

A resposta está na caspase-8, uma enzima envolvida na regulação da morte celular programada. Esse processo, conhecido como apoptose, funciona como uma estratégia de contenção. Quando uma célula T CD8+ é infectada, a ativação da caspase-8 pode levar à sua autodestruição. Como o parasita depende da célula viva para sobreviver, a morte da célula interrompe seu ciclo.


Para testar essa hipótese, os cientistas utilizaram modelos experimentais em camundongos. Os resultados foram claros:

  • Animais com células T produtoras de caspase-8 mantiveram níveis controlados do parasita no cérebro
  • Camundongos sem a enzima apresentaram carga parasitária elevada
  • A ausência da caspase-8 levou a doença grave e morte

Mesmo com respostas imunológicas aparentemente robustas, a falta dessa enzima comprometeu o controle da infecção. Isso demonstra que não basta apenas ativar o sistema imune; mecanismos específicos de regulação celular são decisivos.

Implicações para a saúde pública

Esses achados reforçam a importância da imunidade celular no controle de infecções crônicas no cérebro. Além disso, ajudam a explicar por que indivíduos imunossuprimidos, como pacientes em tratamento oncológico ou com HIV, apresentam maior risco de complicações.

Outro ponto relevante é que poucos patógenos conseguem infectar células T CD8+. O estudo sugere que a caspase-8 funciona como uma barreira natural contra esse tipo de invasão, ampliando sua relevância para além da toxoplasmose.

Portanto, compreender como o organismo equilibra defesa e autodestruição celular pode abrir caminhos para futuras estratégias terapêuticas voltadas à proteção do sistema nervoso central.

Embora a infecção por T. gondii seja comum, a ciência mostra que o corpo humano dispõe de mecanismos sofisticados para impedir que ela saia do controle. E, nesse delicado jogo biológico, a caspase-8 surge como peça central na proteção do cérebro.

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