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A jornada do café: Etiópia, Iêmen e o mundo

Ao longo dos séculos, o café deixou de ser um fruto silvestre pouco conhecido e se transformou em uma das bebidas mais consumidas do...

Giro 10

Giro 10|Do R7

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Ao longo dos séculos, o café deixou de ser um fruto silvestre pouco conhecido e se transformou em uma das bebidas mais consumidas do planeta. Sua trajetória envolve lendas, práticas religiosas, comércio internacional e transformações culturais em diferentes continentes. A palavra-chave central dessa história é café, porém, por trás dela existe um percurso que começa nas montanhas da Etiópia e se espalha por rotas que ligam o Chifre da África ao Iêmen, ao Oriente Médio e, mais tarde, à Europa e ao restante do mundo.

Pesquisadores apontam a região de Kaffa, no atual sudoeste da Etiópia, como origem do cafeeiro. Ali, as pessoas utilizavam o fruto muito antes de prepará-lo como bebida quente. Nesses primeiros tempos, os habitantes consumiam os grãos de maneiras variadas. Eles misturavam os grãos com gordura animal ou simplesmente mascavam os frutos crus, sem o processo de torra que hoje acompanha o café. Nesse cenário, surgiu uma das histórias mais conhecidas sobre a descoberta da planta. A tradição a associa ao pastor Kaldi e ao comportamento inusitado de suas cabras, que se mostravam mais ativas após comer os frutos.


A lenda de Kaldi e o despertar do café na Etiópia

De acordo com uma tradição amplamente relatada, por volta do século IX, um pastor etíope chamado Kaldi observou que suas cabras ficavam mais ativas após mastigarem frutos vermelhos de um arbusto desconhecido. Intrigado, o pastor levou os frutos a um líder religioso da região. No entanto, esse líder rejeitou as sementes e as lançou ao fogo. Enquanto queimavam, os grãos liberaram um aroma marcante e chamaram a atenção dos presentes. Em seguida, as pessoas esmagaram as sementes torradas e as misturaram em água, criando assim uma bebida energética. Os registros não confirmam documentalmente essa narrativa, entretanto, a lenda de Kaldi entrou de forma definitiva no imaginário em torno do café etíope.


A partir do uso local, o fruto começou a ganhar novas formas de preparo e consumo. As rotas de pastores, mercadores e religiosos espalharam o café entre diferentes comunidades. A Etiópia mantinha contato constante com regiões próximas ao Mar Vermelho, o que facilitou o trânsito de pessoas, costumes e produtos. Nesse contexto, o café cruzou o mar em direção à Península Arábica, especialmente ao Iêmen, onde a bebida assumiu um papel religioso e social decisivo para sua expansão.

cafe Giro 10

Como o café chegou ao Iêmen e aos monges sufis?


Entre os séculos XV e XVI, o porto iemenita de Moca (ou Mokha) se tornou um dos principais centros de comércio de café do mundo islâmico. Fontes históricas indicam que os monges sufis atuaram de forma essencial para transformar o fruto em bebida ritual. Eles preparavam o café como infusão quente para se manterem despertos durante longos períodos de oração noturna e meditação. Nessa fase, praticantes e comerciantes consolidaram a torra e a moagem dos grãos, o que permitiu um sabor mais complexo e um efeito estimulante mais intenso.

Com o tempo, o preparo do café no Iêmen passou a seguir etapas que soam familiares para os consumidores atuais. Agricultores, artesãos e famílias reproduziam esse processo em pequena escala e também em mercados locais:


  • Colheita dos frutos maduros nas encostas montanhosas;
  • Secagem e retirada da casca, o que expõe os grãos;
  • Torra em fogo direto, em pequenas quantidades;
  • Moagem manual, geralmente em pilões ou moinhos rudimentares;
  • Infusão em água quente, servida em pequenas xícaras.

Esse modo de preparo consolidou o café como bebida, e não apenas como fruto mastigado ou componente de alimentos sólidos. A partir do Iêmen, a bebida se espalhou rapidamente pelo mundo islâmico, acompanhando caravanas comerciais e peregrinações religiosas. Além disso, estudiosos e viajantes passaram a registrar observações sobre os efeitos estimulantes da bebida em estudos médicos e relatos de viagem.

Do Oriente Médio às primeiras cafeterias do mundo

Nos séculos XVI e XVII, o café alcançou cidades importantes do Oriente Médio e do Mediterrâneo, como Cairo, Damasco, Istambul e outras capitais regionais. Nesses centros urbanos, surgiram as primeiras casas de café, espaços em que as pessoas se reuniam para conversar, jogar, negociar e ouvir notícias. Em Istambul, por exemplo, registros apontam estabelecimentos de café a partir da década de 1550. Esses locais funcionavam como espaços de sociabilidade e debate contínuo.

Esse novo hábito de consumo provocou reações diversas entre autoridades religiosas e políticas, que em alguns momentos tentaram restringir o uso da bebida. Muitos governantes temiam aglomerações e trocas de ideias contrárias ao poder constituído. Ainda assim, o costume se firmou e integrou o cotidiano de diferentes grupos sociais, do artesão ao comerciante urbano. O café turco, preparado com moagem fina e servido em pequenas xícaras, tornou-se referência do período e inspirou variações locais em várias cidades.

Nesse cenário, o café do Oriente começou a chamar a atenção de viajantes europeus, mercadores e diplomatas. Eles se interessavam tanto pelo sabor quanto pelas oportunidades comerciais ligadas ao grão. O sistema de exportação a partir do porto de Moca e de outros centros sob controle do Império Otomano transformou o café em produto estratégico, disputado por diferentes potências. Ao mesmo tempo, comerciantes europeus passaram a estudar rotas alternativas e meios de cultivar mudas em outras regiões.

Quando o café chegou à Europa e se tornou bebida global?

A entrada do café na Europa ocorreu de forma gradual entre os séculos XVII e XVIII. Em cidades como Veneza, Marselha, Londres e Amsterdã, comerciantes começaram a importar o produto em quantidades crescentes. Por volta de 1650, surgiram as primeiras cafeterias em Oxford e Londres. Poucos anos depois, estabelecimentos semelhantes já funcionavam em Paris e em outras capitais europeias.

Esses locais, muitas vezes chamados de “penny universities” na Inglaterra, se tornaram pontos de encontro para comerciantes, intelectuais e profissionais liberais. As pessoas pagavam pouco pela xícara de café e, em troca, participavam de debates intensos. Assim, o consumo de café europeu provocou mudanças na rotina urbana. Muitos habitantes passaram a substituir, ao menos em parte, bebidas alcoólicas no café da manhã ou em encontros de negócios.

Paralelamente, as potências coloniais iniciaram o cultivo de cafeeiros em territórios sob seu domínio, como colônias na Ásia, na África e nas Américas. No século XVIII, a produção se expandiu para regiões como o Caribe, a América Central e, mais tarde, o Brasil, que se transformou em um dos maiores produtores mundiais. Esse movimento trouxe, contudo, impactos sociais marcantes, como o uso de trabalho escravizado em muitas plantações de café.

Ao longo do século XIX, o café consolidou sua imagem como bebida associada à modernidade e ao trabalho nas cidades. Inventores e empreendedores desenvolveram novos equipamentos, como cafeteiras de filtro, máquinas de espresso e métodos variados de preparo. Além disso, a industrialização e o avanço das técnicas de torra e embalagem facilitaram a circulação do produto e sua presença em diferentes lares, cafés e escritórios.

Da fruta rústica à bebida apreciada mundialmente

Do ponto de vista histórico, o café percorreu um caminho que vai da mastigação de frutos na Etiópia à infusão elaborada nas cafeterias contemporâneas de quase todos os continentes. A transformação de um fruto rústico em bebida valorizada envolveu mudanças em várias etapas. Produtores, comerciantes e consumidores alteraram o cultivo, a colheita, a torra, a moagem, o preparo e, sobretudo, as formas de consumo.

Em cada região, o café se adaptou a preferências locais e ganhou estilos próprios. Surgiram preparos como o espresso italiano, o café filtrado em papel, o café árabe com especiarias e diversas outras variações, inclusive geladas. Em alguns países, o café passou a simbolizar hospitalidade; em outros, se associou a pausas de trabalho e a encontros rápidos.

Na década de 2020 e em meados da década de 2020, o interesse por cafés de origem, métodos artesanais e rastreabilidade reforçou a ligação com as regiões pioneiras, como Etiópia e Iêmen. Essa retomada histórica destaca o papel de agricultores, comerciantes e comunidades religiosas que, desde a Antiguidade tardia e a Idade Média, contribuíram para moldar o caminho percorrido pelo grão. Assim, a bebida que hoje está presente em escritórios, casas, padarias e cafeterias especializadas carrega uma trajetória que conecta montanhas etíopes, mosteiros sufis, bazares do Oriente Médio e praças europeias.

Ao acompanhar essa linha do tempo, o leitor percebe que o café não funciona apenas como bebida estimulante. Ele também ajuda a estruturar encontros, rituais e espaços de convivência ao longo de mais de mil anos. A jornada iniciada nas encostas da Etiópia e nas rotas do Iêmen continua em constante transformação. Ela acompanha mudanças econômicas, tecnológicas e culturais em diferentes partes do mundo e inspira novas formas de produzir e degustar o café.

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