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Como o corpo humano se adapta ao calor e ao frio: os mecanismos da aclimatação e por que os primeiros dias são os mais difíceis

Em poucos dias vivendo em um lugar muito quente ou muito frio, muitas pessoas percebem que o corpo passa a reagir de forma diferente...

Giro 10

Giro 10|Do R7

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Em poucos dias vivendo em um lugar muito quente ou muito frio, muitas pessoas percebem que o corpo passa a reagir de forma diferente. O suor muda, a sensação de exaustão diminui e a tolerância às temperaturas extremas aumenta. Esse processo recebe o nome de aclimatação humana e envolve uma série de ajustes biológicos coordenados. Pesquisadores da fisiologia ambiental estudam esse fenômeno há décadas em laboratórios e campos de pesquisa ao redor do mundo.

A aclimatação não ocorre de forma imediata. Nos primeiros dias, o organismo ainda permanece “despreparado” para a nova condição. Isso explica a fadiga acentuada, a sensação de mal-estar e o desempenho físico reduzido. Com a exposição repetida, porém, o sistema cardiovascular, o controle da sudorese, o equilíbrio de eletrólitos e até o metabolismo basal sofrem ajustes progressivos. Dessa forma, o corpo se torna mais eficiente para enfrentar tanto o calor intenso quanto o frio prolongado.


Como o corpo se aclimata ao calor e ajusta o suor?

Quando uma pessoa passa a viver em um ambiente muito quente, o organismo precisa aprimorar a capacidade de dissipar calor sem perder o equilíbrio interno. Nesse contexto, a sudorese atua como principal ferramenta de resfriamento. Estudos clássicos da fisiologia do exercício, como os de Edward Nadel e colegas em laboratórios de calor, mostram três mudanças importantes após cerca de 7 a 14 dias de exposição diária ao calor:


  • Início mais precoce do suor: o limiar de temperatura para começar a suar diminui. Em outras palavras, o corpo aciona o mecanismo de resfriamento mais cedo.
  • Aumento do volume de suor: a quantidade total de suor gerada a cada minuto aumenta, o que amplia a capacidade de resfriamento.
  • Melhor distribuição do fluxo sanguíneo: o organismo direciona mais sangue à pele para facilitar a perda de calor, sem comprometer tanto o fornecimento aos músculos.

Esses ajustes mantêm a temperatura interna mais estável, mesmo durante tarefas físicas em dias muito quentes. Além disso, ensaios publicados em periódicos de fisiologia ambiental indicam que a maior parte da aclimatação ao calor ocorre entre o 5º e o 10º dia de exposição contínua. Após esse período, os ganhos continuam, mas em menor magnitude.


banho de gelo Giro 10

Por que o suor muda de composição na aclimatação ao calor?

Além do volume, a composição do suor também se transforma durante a aclimatação ao calor. Pesquisas com voluntários em câmaras climatizadas mostram que, nos primeiros dias, o suor contém quantidades relativamente altas de eletrólitos, especialmente sódio e cloro. Com a repetição diária da exposição, as glândulas sudoríparas melhoram a capacidade de reabsorver esses íons. Como resultado, o suor se torna mais “diluído”.


Estudos citados em revisões da Environmental Physiology descrevem esse fenômeno como uma forma de o corpo economizar sódio. Entre os mecanismos envolvidos, destacam-se:

  1. Aumento da atividade de bombas iônicas nas glândulas sudoríparas. Essas bombas recolhem sódio e cloro antes que o suor alcance a superfície da pele.
  2. Maior ação da aldosterona, hormônio produzido pelas glândulas suprarrenais. Esse hormônio estimula a retenção de sódio nos rins e também influencia a composição do suor.
  3. Ajustes no volume plasmático, com discreto aumento de líquido circulante. Esse ajuste favorece o equilíbrio entre perda de água, eletrólitos e pressão arterial.

Após aproximadamente duas semanas de aclimatação ao calor, a pessoa continua suando bastante, porém perde menos sal em cada gota de suor. Dessa forma, o organismo reduz o risco de queda de pressão, cãibras relacionadas à depleção de eletrólitos e outros efeitos ligados ao desequilíbrio hidroeletrolítico em ambientes quentes. Em atletas e trabalhadores que atuam sob altas temperaturas, essa adaptação exerce papel crucial para manter o desempenho e a segurança.

Por que os primeiros dias no calor ou no frio são os mais exaustivos?

Nos primeiros dias em um clima extremo, o corpo ainda não conta com todos esses mecanismos refinados. Em ambiente quente, o suor começa mais tarde, apresenta menor eficiência e contém mais eletrólitos. Essa combinação favorece desidratação e cansaço intenso. O coração também precisa trabalhar mais para enviar sangue à pele e aos músculos ao mesmo tempo. Por isso, a frequência cardíaca aumenta em tarefas que antes pareciam simples.

No frio, a situação também exige esforço elevado. O organismo precisa manter a temperatura interna estável e, inicialmente, recorre principalmente aos calafrios. Esses calafrios resultam de contrações musculares involuntárias com alto gasto energético. Como a termogênese ainda não opera de forma otimizada, o custo energético para se aquecer permanece elevado. Assim, a pessoa sente esgotamento e percebe queda no desempenho físico. Estudos em fisiologia do frio, conduzidos em bases de pesquisa em regiões subárticas, relatam que esse período inicial de maior desconforto costuma durar cerca de 5 a 7 dias.

Como a termogênese sem calafrios ajuda na tolerância ao frio?

Em ambientes frios, o organismo ativa uma estratégia diferente daquela utilizada no calor. Em vez de focar na perda de calor, o corpo passa a produzir mais calor interno. Além dos calafrios, entra em cena a chamada termogênese sem calafrios, processo em que o corpo aumenta o gasto energético em repouso sem recorrer a tremores.

Estudos publicados em revistas como Journal of Applied Physiology e Acta Physiologica mostram que a exposição repetida ao frio leve a moderado, por períodos de 2 a 4 semanas, estimula a ativação do tecido adiposo marrom, também conhecido como gordura marrom. Diferentemente da gordura branca, que armazena energia, a gordura marrom contém grande quantidade de mitocôndrias. Essas mitocôndrias utilizam uma proteína chamada UCP1 para “desacoplar” a produção de energia, liberando calor em vez de gerar trabalho mecânico.

  • Maior atividade da gordura marrom: o corpo produz mais calor de forma contínua e reduz a necessidade de calafrios constantes.
  • Ajuste do metabolismo basal: o organismo passa a gastar mais energia em repouso, o que contribui para a manutenção da temperatura corporal.
  • Melhor vasoconstrição periférica: os vasos sanguíneos da pele se contraem de maneira mais eficiente, o que diminui a perda de calor para o ambiente.

Esses mecanismos explicam por que pessoas acostumadas com invernos rigorosos conseguem permanecer mais tempo ao ar livre com menos desconforto térmico em comparação com indivíduos recém-chegados ao mesmo ambiente. Além disso, pesquisadores investigam a termogênese sem calafrios como possível aliada no controle do peso corporal, devido ao aumento sustentado do gasto energético.

Quanto tempo o corpo leva para se adaptar a novos climas?

A duração da aclimatação ao calor e ao frio varia conforme o indivíduo, a intensidade da exposição e o nível de atividade física. Ainda assim, estudos de fisiologia ambiental convergem em alguns intervalos médios. Para o calor, a maior parte das adaptações cardiovasculares e de sudorese ocorre entre 7 e 14 dias de exposição diária, principalmente quando a pessoa realiza exercício moderado nesse período.

Já para o frio, a ativação consistente da termogênese sem calafrios e da gordura marrom costuma exigir de 2 a 4 semanas de exposição repetida. Essas janelas de tempo ajudam a explicar por que as primeiras jornadas de trabalho em ambientes quentes, as primeiras caminhadas em invernos rígidos ou as mudanças bruscas de estação geram tanto desgaste. Com a continuidade da exposição, porém, o organismo humano revela notável capacidade de ajuste. O corpo afina seus mecanismos de produção e perda de calor e demonstra uma resiliência amplamente documentada pelas pesquisas em fisiologia ambiental.

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