Do Sul do Brasil para a saúde: Benefícios e cuidados com o chimarrão
Chimarrão: tradição gaúcha com benefícios à saúde, antioxidantes, digestão e termogênese, mas exige cuidados com temperatura e pressão...
Giro 10|Do R7
Entre rodas de conversa, encontros familiares e pausas no trabalho, o chimarrão segue presente na rotina de milhões de pessoas no Brasil e em países vizinhos. Muito além de uma simples bebida quente à base de erva-mate, ele carrega significados culturais, hábitos sociais e uma série de efeitos sobre o organismo que têm sido estudados pela ciência ao longo das últimas décadas. Entender o que está na cuia ajuda a equilibrar tradição e cuidado com a saúde.
A bebida, preparada com água quente e folhas secas e trituradas de Ilex paraguariensis, costuma ser associada imediatamente ao Rio Grande do Sul, mas sua história começa bem antes das fronteiras atuais. Povos indígenas da região do Prata já utilizavam a erva-mate em rituais, na alimentação e como forma de estimular o corpo durante longas caminhadas. Com o tempo, o chimarrão se consolidou como símbolo da identidade gaúcha e se espalhou também por Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Uruguai, Argentina e Paraguai.
Origem cultural do chimarrão e seu papel social
O chimarrão é apontado por historiadores como herança direta do uso tradicional da erva-mate pelos povos guarani e kaingang. A chegada dos colonizadores europeus não eliminou esse costume; pelo contrário, houve uma adaptação. O uso passou a incluir cuias produzidas com cabaça, bombas metálicas e diferentes formas de secagem e moagem da planta. Esse processo deu origem ao ritual hoje conhecido, com maneira própria de preparar, servir e compartilhar a bebida.
No século XX, o chimarrão se firmou como elemento de identidade regional, especialmente no Sul do Brasil. Rodas de chimarrão em praças, escritórios e encontros de trabalho ajudam a criar vínculos sociais, favorecendo conversas mais longas e um ritmo mais calmo durante o dia. Pesquisas em ciências sociais destacam que o ato de “passar a cuia” reforça a ideia de confiança, acolhimento e respeito entre quem participa daquele círculo.

Quais são os principais benefícios do chimarrão para a saúde?
Estudos realizados em universidades brasileiras, argentinas e paraguaias apontam que a infusão concentra compostos com potencial antioxidante, anti-inflamatório e termogênico. Entre as substâncias mais citadas estão polifenóis (como ácido clorogênico), saponinas, cafeína e vitaminas do complexo B, além de minerais como potássio e manganês.
As propriedades antioxidantes do chimarrão são uma das mais estudadas. Pesquisas publicadas em periódicos de nutrição e farmacologia indicam que os polifenóis presentes na bebida ajudam a neutralizar radicais livres, moléculas instáveis associadas ao envelhecimento celular e a processos inflamatórios. Isso não transforma a erva-mate em medicamento, mas sugere que o consumo moderado pode contribuir para uma alimentação com maior potencial protetor.
No campo da digestão, trabalhos clínicos apontam que a erva-mate estimula a produção de bile e a motilidade intestinal, o que pode favorecer o aproveitamento dos alimentos e reduzir a sensação de estômago pesado após refeições. Já o efeito termogênico – aumento discreto do gasto energético – é atribuído à combinação de cafeína e outros compostos bioativos. Revisões científicas publicadas até 2025 descrevem que esse efeito é modesto, mas pode auxiliar, junto com alimentação equilibrada e atividade física, na regulação do peso corporal.
Quais riscos e contraindicações o chimarrão pode apresentar?
Ao lado dos benefícios, pesquisas também chamam atenção para possíveis riscos associados ao consumo de chimarrão, principalmente quando ingerido em grandes quantidades ou em temperaturas muito elevadas. Um dos pontos mais discutidos pela comunidade científica é o impacto da bebida extremamente quente sobre o esôfago. Estudos epidemiológicos desenvolvidos no Cone Sul encontraram associação entre consumo frequente de líquidos muito quentes, incluindo o mate, e maior incidência de câncer de esôfago.
A hipótese predominante não é de que a erva-mate em si cause o problema, mas sim o calor excessivo. A água muito quente pode provocar microlesões repetidas na mucosa do esôfago, facilitando processos inflamatórios e, em longo prazo, alterações celulares. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde, destacou em relatório que bebidas ingeridas acima de 65°C representam um fator de risco relevante, independentemente do tipo de líquido.
Outro ponto observado em estudos clínicos é a relação entre o chimarrão e a qualidade do sono. Por conter cafeína, a erva-mate tem efeito estimulante sobre o sistema nervoso central. Pesquisas de cronobiologia e medicina do sono indicam que o consumo regular de bebidas ricas em cafeína no fim da tarde ou à noite pode atrasar o início do sono e reduzir seu tempo total, contribuindo para quadros de insônia em pessoas mais sensíveis ao estimulante.
Em indivíduos com hipertensão arterial ou distúrbios cardíacos, a ingestão de grandes volumes de mate forte também merece atenção. A cafeína pode provocar aumento temporário da pressão e da frequência cardíaca em determinados perfis de pacientes. Estudos de cardiologia preventiva sugerem que pessoas com pressão descontrolada ou em uso de alguns tipos de medicação devem discutir o consumo de chimarrão com o profissional de saúde que as acompanha, avaliando limites de quantidade e horário.

Como consumir chimarrão de forma segura e saudável?
Frente aos dados disponíveis até 2026, pesquisadores de nutrição e saúde pública apontam que o chimarrão pode fazer parte de um estilo de vida equilibrado, desde que sejam observados alguns cuidados simples. A primeira recomendação recorrente é controlar a temperatura da água. Em vez de utilizar água fervendo, especialistas orientam trabalhar com aquecimento até cerca de 60°C, ponto em que o líquido está bem quente, mas não a ponto de queimar a boca.
Outro aspecto é o horário de consumo. Para reduzir a chance de interferência no sono, estudos sugerem limitar bebidas com cafeína às primeiras horas do dia ou ao início da tarde. Pessoas que já apresentam dificuldade para dormir tendem a se beneficiar ao evitar chimarrão após o meio da tarde, permitindo que o organismo metabolize a cafeína antes da noite.
Também é possível ajustar a quantidade de erva-mate e o tempo de infusão. Preparos muito concentrados podem intensificar efeitos estimulantes e digestivos. Quem está começando a consumir a bebida ou quem tem sensibilidade maior à cafeína costuma reagir melhor a mates um pouco mais suaves, com menor densidade de erva na cuia ou alternando períodos com e sem a bebida ao longo da semana.
Ao considerar os dados científicos disponíveis e os cuidados práticos, o chimarrão pode seguir ocupando seu espaço nas rodas de conversa, preservando o valor cultural e social que o acompanha há séculos. Informações claras sobre benefícios e riscos permitem que cada pessoa, em conjunto com orientações de saúde individualizadas, faça escolhas mais conscientes sobre a presença da erva-mate no dia a dia.














