Os ‘He-Men’ de São Paulo: como para-raios viraram ícones acidentais do horizonte urbano
Em muitos prédios de São Paulo, especialmente nos bairros mais verticalizados, moradores notam uma silhueta curiosa recortada contra...
Giro 10|Do R7
Em muitos prédios de São Paulo, especialmente nos bairros mais verticalizados, moradores notam uma silhueta curiosa recortada contra o céu. No alto das lajes técnicas, um conjunto de hastes metálicas e suportes lembra, para muita gente, a postura clássica de um herói de desenho animado dos anos 1980: espada para o alto, braços erguidos, peito estufado. Esses dispositivos, porém, pertencem à engenharia elétrica e não ao universo da animação. Mesmo assim, o olhar popular os batizou de “He-Man”.
A associação não surgiu de campanhas publicitárias nem de projetos artísticos. Em vez disso, o morador comum passou a identificar nos contornos dos terminais aéreos e das estruturas de fixação o herói de Etérnia congelado no topo dos edifícios. Com o tempo, o apelido se espalhou em conversas, redes sociais e reportagens locais. Dessa forma, o termo se consolidou como um símbolo afetivo do horizonte paulistano, ao mesmo tempo técnico e lúdico.
Para-raios tipo “He-Man”: como a engenharia criou um novo símbolo?
Os chamados “para-raios de He-Man” não formam uma categoria oficial de equipamento. Na prática, técnicos e projetistas classificam esses sistemas como proteção contra descargas atmosféricas com terminais aéreos elevados. Muitas vezes, eles combinam essas hastes em estruturas que lembram um personagem com arma erguida. Em diversos casos, os projetistas utilizam arranjos inspirados no conceito de gaiola de Faraday. Assim, eles criam um campo de proteção ao redor da cobertura por meio de hastes interligadas por cabos e condutores.
Na cobertura, um suporte central mais robusto costuma sustentar a haste principal. Essa haste se projeta acima de todas as demais estruturas do prédio. Em torno dela, outras barras metálicas menores, braços de fixação, anéis e cabos de interligação completam o conjunto. Esse arranjo, visto à distância, sugere um tronco, braços abertos e uma espada apontada para o céu. Além disso, a popularização da TV aberta nos anos 1980 e 1990 familiarizou muitos moradores com a imagem do herói levantando a espada e gritando sua frase marcante. Por isso, a associação surge de forma quase imediata.
Em linguagem técnica, o objetivo permanece simples. O sistema garante que o ponto mais alto do edifício se torne sempre o elemento projetado para receber a descarga elétrica. Em seguida, a corrente percorre um caminho seguro até o sistema de aterramento. A silhueta que lembra um personagem surge apenas como efeito colateral visual de uma solução que busca maximizar a eficiência da captação do raio e a área protegida ao redor da construção.

Por que São Paulo precisa tanto desses para-raios “heróicos”?
São Paulo integra o grupo de regiões urbanas com maior incidência de raios do planeta. Dados do Elat/INPE e de redes de monitoramento de descargas atmosféricas indicam que o estado de São Paulo registra, em média, milhões de raios por ano. A primavera e o verão concentram a maior parte das tempestades. Na capital, a combinação de alta densidade de edificações, ilhas de calor e intensa circulação de frentes frias favorece a formação de nuvens de tempestade e descargas elétricas frequentes.
Nesse contexto, os para-raios assumem papel central na segurança da metrópole. Os sistemas instalados nos topos dos edifícios:
A normatização brasileira, reunida em documentos como a ABNT NBR 5419, define critérios para dimensionamento, altura dos terminais aéreos, malhas de captação e sistemas de descida. Assim, a aplicação rigorosa dessas regras leva a estruturas esbeltas, elevadas e bem distribuídas. Exatamente esses arranjos criam, na prática, os famosos “He-Men” no alto dos arranha-céus paulistanos. Além disso, novas revisões da norma estimulam melhorias constantes na integração entre segurança, estética e manutenção.
Quais prédios paulistanos exibem os “He-Men” mais comentados?
Moradores encontram para-raios com silhueta de “He-Man” em diferentes zonas da cidade. Isso ocorre especialmente nos bairros com grande concentração de prédios altos, como Paulista, Centro, Vila Olímpia, Faria Lima e Pinheiros. Em muitas torres corporativas e residenciais erguidas a partir dos anos 1990, construtoras buscaram máximo aproveitamento do topo para antenas, casas de máquinas e áreas técnicas. Portanto, os projetistas precisaram posicionar os terminais aéreos bem acima desses elementos.
Em edifícios corporativos da Avenida Paulista, por exemplo, um mastro central geralmente sobressai alguns metros acima do coroamento da fachada. Outros suportes menores cercam essa estrutura. Assim, a imagem de um personagem com arma levantada se reforça em meio a um cenário de concreto e vidro. Na região da Faria Lima e da Vila Olímpia, muitos prédios comerciais de alto padrão usam estruturas metálicas aparentes para fixar antenas e sistemas de telecomunicações. Dessa forma, os projetistas integram os para-raios a essas armações. De longe, o conjunto lembra uma espécie de escultura metálica, que o público reinterpretou como um “He-Man” urbano.
Além disso, moradores também identificam exemplos em prédios residenciais altos na zona sul e na zona leste. Eles reconhecem claramente o “herói de metal” no topo, seja em condomínios próximos a grandes avenidas, seja em conjuntos erguidos ao longo das linhas de metrô e trem. Em fotos compartilhadas em redes sociais, alguns paulistanos marcam pontos da cidade em que o sol se põe exatamente atrás dessas figuras metálicas. Esse enquadramento reforça ainda mais a sensação de uma cena saída de um desenho animado. Hoje, fotógrafos urbanos usam esses enquadramentos em projetos autorais e exposições sobre a paisagem paulistana.
Pareidolia urbana: por que tanta gente enxerga o He-Man nos para-raios?
O fenômeno que leva moradores a enxergarem um personagem de desenho em uma estrutura técnica recebe o nome de pareidolia. Trata-se da tendência humana de identificar formas familiares em objetos, sombras e padrões aleatórios. No ambiente urbano, essa tendência se manifesta em fachadas que parecem rostos, postes que lembram animais e, neste caso, para-raios que se transformam em heróis de infância.
No caso paulista, alguns fatores combinados alimentam a pareidolia:
Dessa forma, um elemento de engenharia elétrica ganha um segundo significado na cultura urbana. Ele funciona simultaneamente como dispositivo de proteção e figura simbólica. Para algumas pessoas, a presença desses “He-Men” metálicos no alto dos prédios traz uma sensação de familiaridade com a paisagem. Assim, o passado televisivo e o presente tecnológico se encontram na linha do horizonte. Pesquisadores de cultura urbana já analisam esse tipo de leitura como exemplo de como a memória coletiva ressignifica objetos técnicos.
Quando o design funcional ganha um lado lúdico na cidade
Os para-raios em formato de “He-Man” mostram como o design puramente funcional pode receber interpretações inesperadas da população. Engenheiros os projetam para cumprir requisitos técnicos rígidos. Mesmo assim, esses terminais aéreos acabaram ocupando um lugar curioso no imaginário paulistano. Eles passaram de guardiões silenciosos contra descargas atmosféricas a personagens discretos de um roteiro nostálgico que paira sobre a cidade.
Em uma metrópole marcada por arranha-céus, congestionamentos e pressa, a identificação de um herói de desenho animado em equipamentos de proteção revela uma forma particular de relacionamento com o espaço urbano. Sem alterar a função original dos dispositivos, o olhar coletivo cria histórias e significados que humanizam a paisagem, tornando-a mais próxima do cotidiano afetivo das pessoas. Assim, a cada tempestade que se aproxima, não surgem apenas estruturas metálicas no topo dos prédios. Aparecem também figuras que lembram um passado televisivo compartilhado, conectando memórias individuais a um horizonte de concreto e aço. Desse encontro nascem novas narrativas sobre São Paulo, que misturam tecnologia, clima, infância e imaginação.
















