Pesquisa revela diferenças na saúde mental entre adolescentes meninas e meninos
Diferenças na saúde mental de meninas e meninos: estudo revela mais depressão, ansiedade e ideação suicida entre elas
Giro 10|Do R7
Uma pesquisa recente sobre saúde mental na adolescência chamou atenção ao apontar diferenças consistentes entre meninas e meninos em vários indicadores emocionais. O levantamento mediu sintomas de depressão, sinais de ansiedade, ideia de tirar a própria vida e episódios de automutilação, além de aspectos do bem-estar diário. Os resultados indicaram que adolescentes meninas, em média, relatam mais sofrimento psíquico do que meninos, o que levanta dúvidas sobre o que exatamente está sendo medido e como interpretar esses números com cuidado.
O estudo analisou questionários preenchidos de forma confidencial em escolas públicas e privadas, abrangendo diferentes regiões do país. Entre os itens avaliados estavam alterações de sono, perda de interesse em atividades, irritabilidade, medo excessivo, preocupação constante, sensação de desesperança e pensamentos recorrentes sobre morte. A partir das respostas, os pesquisadores construíram índices de depressão, ansiedade e ideação suicida. Embora haja variações entre faixas etárias e contextos sociais, o padrão de maior vulnerabilidade emocional entre meninas apareceu de forma repetida nas análises.
O que os indicadores de saúde mental realmente mostram?
Os indicadores de saúde mental usados na pesquisa são baseados em escalas já consolidadas na área de psicologia e psiquiatria. Em geral, eles avaliam três grandes grupos de aspectos: sintomas emocionais, funcionamento no dia a dia e risco de comportamentos autolesivos. No campo da depressão, são observados sinais como tristeza persistente, sensação de vazio, dificuldade de concentração e queda no rendimento escolar. A ansiedade é medida por questões sobre medo intenso, tensão constante, preocupação com o futuro e sintomas físicos, como falta de ar e taquicardia em situações específicas.
Já a ideação suicida é investigada com perguntas sobre ter pensado em machucar-se de propósito, desejar não acordar mais ou imaginar maneiras de morrer. Importante destacar que relatar pensamentos desse tipo não significa necessariamente que a pessoa vá tentar o suicídio, mas indica um nível de sofrimento que merece atenção. A pesquisa também observou comportamentos de automutilação, como cortes na pele, e uso de substâncias como forma de aliviar angústia, compondo um quadro mais amplo da saúde mental dos adolescentes.

Por que meninas aparecem com índices mais altos de depressão e ansiedade?
A diferença entre meninas e meninos nos resultados não pode ser explicada por um único fator. Especialistas em saúde mental infantil costumam destacar uma combinação de elementos biológicos, sociais, culturais e familiares. Do ponto de vista hormonal, a adolescência é marcada por mudanças intensas, e a puberdade feminina tende a ocorrer mais cedo, o que pode antecipar conflitos de identidade e questões com o corpo. Ao mesmo tempo, meninas costumam relatar maior pressão estética, vigilância sobre o peso e comentários sobre aparência, fatores associados ao aumento de sintomas depressivos e ansiosos.
Questões de gênero também aparecem com força. Muitas adolescentes relatam carga maior de responsabilidades domésticas, maior controle sobre saídas e relacionamentos e, em alguns contextos, experiências de assédio e violência. Esse ambiente pode gerar sentimentos de insegurança, medo e baixa autoestima. Além disso, meninas tendem a compartilhar mais seus sentimentos e a reconhecê-los com maior clareza. Isso pode levar a um número maior de relatos em questionários, enquanto alguns meninos podem relutar em admitir tristeza, por influenciarem padrões de masculinidade que desvalorizam a expressão emocional.
Como o ambiente digital influencia a saúde mental de meninas e meninos?
O uso de redes sociais e aplicativos de mensagem é apontado como um dos elementos que ajudam a entender as diferenças de saúde emocional entre gêneros. Adolescentes de ambos os sexos passam muitas horas conectados, mas o tipo de uso costuma variar. Pesquisas de comportamento digital indicam que meninas tendem a usar mais plataformas visuais, baseadas em fotos e vídeos curtos, onde há comparação constante de aparência, estilo de vida e popularidade. Esse ambiente pode intensificar a autocrítica, a sensação de inadequação e o medo de exclusão.
Entre meninos, é mais comum o uso intenso de jogos online e grupos fechados, em que a exposição direta à imagem pessoal é menor, embora outros tipos de risco também existam, como discursos de ódio e incentivo a comportamentos agressivos. Nas meninas, a dinâmica de curtidas, comentários e filtros cria uma vitrine permanente, onde cada foto pode virar motivo de avaliação pública. Situações de cyberbullying, body shaming e comparações constantes com influenciadores e celebridades aparecem com frequência em relatos de adolescentes com altos índices de ansiedade social.

Como interpretar esses dados sem simplificar o problema?
Os resultados da pesquisa sobre saúde mental na adolescência indicam tendências importantes, mas não significam que todas as meninas sejam mais frágeis emocionalmente ou que todos os meninos estejam protegidos. Especialistas alertam que os números mostram médias de grupos, não destinos individuais. Há meninos com altos níveis de ansiedade e depressão que podem não aparecer com tanta clareza nas estatísticas, justamente por relatarem menos seus sintomas. Da mesma forma, muitas meninas apresentam boa adaptação emocional, mesmo convivendo com os mesmos contextos sociais.
A leitura dos dados precisa considerar fatores como renda familiar, acesso a serviços de saúde, ambiente escolar, experiências de violência e apoio afetivo em casa. Meninas em contextos de maior vulnerabilidade social tendem a acumular riscos: discriminação, trabalho precoce, falta de acesso a cuidados de saúde mental e menor rede de apoio. No entanto, a pesquisa reforça que a saúde mental adolescente é um fenômeno complexo, no qual gênero é apenas uma das peças do quebra-cabeça. Reduzir os resultados a frases rápidas, como “meninas são mais frágeis”, distorce o quadro geral e pode alimentar estigmas.
Em termos de políticas públicas e estratégias de cuidado, os dados sugerem a necessidade de ações sensíveis às diferenças de gênero, mas sem reforçar rótulos. Isso inclui capacitação de escolas para identificar sinais de sofrimento, ampliação do acesso a serviços psicológicos, campanhas que desnaturalizem o assédio e a violência e criação de espaços seguros para falar sobre emoções, tanto para meninas quanto para meninos. A pesquisa, quando bem interpretada, funciona como ponto de partida para compreender melhor o cenário e planejar intervenções que favoreçam o desenvolvimento saudável de todos os adolescentes.














