Logo R7.com
RecordPlus
Notícias R7 – Brasil, mundo, saúde, política, empregos e mais

Soja e longevidade no Japão: como tofu, missô e natto ajudam na saúde do coração e no equilíbrio do organismo

Em várias regiões do Japão, especialmente em áreas conhecidas como “zonas azuis” de longevidade, a soja aparece com frequência nas...

Giro 10

Giro 10|Do R7

  • Google News

Em várias regiões do Japão, especialmente em áreas conhecidas como “zonas azuis” de longevidade, a soja aparece com frequência nas refeições diárias. Tofu, missô e natto entram no cardápio há séculos e, segundo pesquisas epidemiológicas, explicam em parte por que a população japonesa apresenta uma das maiores expectativas de vida do mundo. A presença constante dessa leguminosa como fonte de proteína vegetal fortalece a saúde cardiovascular e favorece o equilíbrio hormonal. Esses efeitos se refletem diretamente na qualidade de vida ao longo do envelhecimento.

A palavra-chave desse padrão alimentar é a substituição parcial da proteína animal pela proteína vegetal. Em vez de basear as refeições em grandes porções de carne vermelha ou processada, os japoneses combinam pequenas quantidades de peixe e frango com porções generosas de soja fermentada e não fermentada. Essa escolha reduz a ingestão de gorduras saturadas e colesterol. Ao mesmo tempo, aumenta o consumo de fibras, antioxidantes e compostos bioativos, como as isoflavonas.


Como a soja se tornou aliada da saúde e da longevidade?

Estudos de coorte realizados no Japão, como o Japan Public Health Center-based Study, observam menor risco de mortalidade por doenças cardiovasculares em pessoas que consomem produtos à base de soja com regularidade. Além disso, organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) reconhecem que dietas ricas em leguminosas, incluindo a soja, integram padrões alimentares associados a maior expectativa de vida.


Uma das razões para esse efeito aparece na composição nutricional da soja. Esse grão oferece proteína de alta qualidade, com todos os aminoácidos essenciais, porém com teor reduzido de gordura saturada. Ele fornece também gorduras insaturadas, fibras e micronutrientes importantes, como potássio, magnésio e folato. Quando a pessoa troca uma parte da carne por tofu, missô ou natto, reduz de forma natural a carga de gordura saturada da dieta. Esse nutriente se relaciona com o aumento do colesterol LDL, chamado de “ruim”.

Pesquisas populacionais indicam que essa mudança no padrão de consumo, somada a um estilo de vida ativo e a outros hábitos alimentares japoneses, como o alto consumo de peixes e vegetais, contribui para taxas menores de infarto e AVC em comparação com países ocidentais. Diretrizes de saúde internacionais, como as da American Heart Association e de sociedades cardiológicas europeias, reforçam a importância de priorizar fontes vegetais de proteína como parte de estratégias de proteção cardiovascular. Nesse contexto, a soja aparece ao lado de outras leguminosas, como feijão, lentilha e grão-de-bico.


Para além do significado cultural, muitas pessoas apreciam a lentilha porque ela se adapta a vários tipos de preparo Giro 10

Soja, isoflavonas e nattokinase: o que a ciência já observou?

Entre os componentes mais estudados da soja, as isoflavonas ganham destaque. Esses compostos, classificados como fitoestrógenos, apresentam estrutura semelhante à de hormônios sexuais humanos, especialmente o estrogênio. Em quantidades moderadas, eles se ligam a receptores específicos no organismo e exercem efeito regulador, especialmente em mulheres no período da perimenopausa e pós-menopausa. Por esse motivo, estudos observacionais no Japão associam maior consumo de isoflavonas a menor incidência de sintomas vasomotores, como ondas de calor. Há também indícios de possíveis benefícios para a saúde óssea e cardiovascular, como melhora discreta do perfil lipídico. Ainda assim, pesquisadores ressaltam que esses efeitos costumam ser modestos e devem ser interpretados como parte de um conjunto de hábitos saudáveis, não como solução isolada.


No caso do natto, um alimento tradicional obtido pela fermentação da soja com a bactéria Bacillus subtilis, outro destaque é a enzima nattokinase. Pesquisas clínicas de pequena e média escala, realizadas principalmente no Japão e em outros países asiáticos, sugerem que essa enzima auxilia na degradação de fibrina, proteína que participa da formação de coágulos sanguíneos. Dessa maneira, essa ação potencialmente melhora a circulação e reduz o risco de tromboses. No entanto, órgãos reguladores recomendam cautela e reforçam que o natto entra na dieta como alimento e não como medicamento. Pessoas que usam anticoagulantes ou têm histórico de sangramento devem, portanto, consultar um profissional de saúde antes de consumir natto com frequência elevada. Além disso, é importante lembrar que nenhum alimento substitui o tratamento prescrito pelo médico.

Soja faz mal? Desmistificando receios comuns

No Ocidente, muitas pessoas enxergam a soja com desconfiança, principalmente em relação a hormônios, fertilidade e câncer. Frequentemente, diversos desses receios surgem de extrapolações de estudos em animais que receberam doses muito altas de isoflavonas. Outras dúvidas derivam de interpretações equivocadas sobre o efeito dos fitoestrógenos. As principais revisões científicas em humanos, porém, não confirmam prejuízos hormonais em adultos saudáveis que consomem quantidades usuais de alimentos à base de soja. Pelo contrário, alguns estudos sugerem benefícios discretos para a saúde reprodutiva masculina, como melhora de parâmetros seminais em padrões de consumo moderados.

Diretrizes internacionais indicam que, para a maioria das pessoas, o consumo diário de porções moderadas de soja – o equivalente a 1 a 3 porções por dia de tofu, leite de soja, missô ou natto – permanece seguro e pode trazer benefícios. No entanto, situações específicas, como alguns tipos de doenças da tireoide sem acompanhamento adequado de iodo, exigem avaliação profissional individualizada. Nesses casos, a soja pode interferir na absorção de certos medicamentos se a pessoa consome o alimento em horários muito próximos às doses. Ajustar o intervalo entre a refeição com soja e o uso do remédio costuma, portanto, resolver o problema. Além disso, é recomendável manter uma boa oferta de iodo na dieta, dentro das orientações médicas.

Também surgem diferenças relevantes entre fontes de soja. Produtos tradicionais, como tofu, missô, natto e edamame, costumam ter menos aditivos e menor processamento quando comparados a ultraprocessados à base de proteína isolada de soja. Não por acaso, as pesquisas que relacionam o padrão alimentar japonês à longevidade concentram o foco principalmente nessas formas mais simples e, muitas vezes, fermentadas.

Como incluir tofu, missô e natto na dieta ocidental de forma prática?

Adaptar o modelo japonês para a rotina ocidental não exige mudanças radicais. Pelo contrário, uma estratégia recomendada por nutricionistas consiste em fazer substituições graduais ao longo da semana, usando a soja como complemento e não necessariamente como exclusão total de outras fontes de proteína. Dessa maneira, a alimentação ganha diversidade, o que vários estudos apontam como fator protetor adicional para a saúde. Além disso, essa abordagem progressiva facilita a adaptação do paladar e reduz a chance de abandono das novas escolhas alimentares.

Algumas sugestões práticas incluem:

  • Usar tofu em cubos no lugar de parte do frango em pratos com legumes salteados. Dessa forma, é possível reduzir a quantidade de carne sem perder proteína e textura.
  • Adicionar uma pequena porção de missô a caldos e sopas, diluindo a pasta apenas ao final do preparo para preservar o sabor e parte dos nutrientes. Assim, obtém-se um caldo mais aromático, com toques de umami típicos da culinária japonesa.
  • Incluir natto no café da manhã ou em pequenas refeições, combinado com arroz integral e cebolinha, em porções adaptadas ao paladar local. Gradualmente, a pessoa pode aumentar a quantidade conforme se acostuma ao aroma e à textura.
  • Trocar alguns lanches com embutidos por sanduíches com pasta de tofu temperada com ervas e azeite. Além disso, é possível acrescentar vegetais crus, como tomate e pepino, para aumentar ainda mais o teor de fibras.
  • Introduzir leite de soja enriquecido com cálcio no café ou em vitaminas, alternando com outras bebidas vegetais. Desse modo, quem reduz o consumo de laticínios mantém uma boa ingestão de proteína e cálcio.

tofu Giro 10

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.