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Sugar veneno, cactos e nariz congelado: Por que técnicas de sobrevivência populares são perigosas?

Mitos de sobrevivência desmascarados: por que sugar veneno de cobra, beber água de cacto e outras “técnicas” podem matar você

Giro 10

Giro 10|Do R7

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Durante décadas, filmes, séries e programas de sobrevivência ajudaram a espalhar um repertório de “táticas heroicas” que, fora da tela, têm mais chance de piorar uma emergência do que de salvar alguém. A figura do aventureiro que suga veneno de cobra, mastiga folhas desconhecidas ou bebe água de qualquer planta ainda povoa o imaginário popular. Porém, quando se confronta essas técnicas com o que dizem equipes de resgate, toxicologistas e biólogos, o cenário muda de forma bastante direta: boa parte desse arsenal é inútil, e outra parte é francamente perigosa.

Especialistas em medicina de emergência e socorristas de montanha afirmam que o problema não é apenas a falta de eficácia dessas práticas, mas o tempo e os recursos desperdiçados em uma situação em que cada minuto conta. Em vez de procurar um hospital, a vítima às vezes insiste em rituais sem base científica, confiando em mitos repetidos de geração em geração. Entender por que certas técnicas de sobrevivência não funcionam — e o que fazer no lugar delas — é hoje uma preocupação recorrente em cursos sérios de primeiros socorros.


Por que “sugar veneno de cobra” não salva ninguém?

A cena é conhecida: alguém é picado por uma cobra, o companheiro corre, faz um corte em X e começa a sugar o veneno, como se o corpo humano fosse uma bomba de sucção biológica. Na prática, o que equipes de resgate e sociedades de toxicologia apontam é bem menos dramático e muito mais claro: essa técnica não remove uma quantidade relevante de veneno e ainda pode criar novos problemas, como infecções.


Estudos em toxicologia indicam que, após poucos segundos, o veneno já se distribui pelos tecidos e pela circulação local, tornando impossível “puxar” a substância de volta com a boca. Além disso, cortes feitos na pele aumentam o risco de contaminação e complicações. Se a pessoa que tenta sugar o veneno tiver feridas bucais, a exposição passa a ser dupla. Sociedades médicas de diversos países, incluindo grupos especializados em animais peçonhentos, são categóricas ao recomendar que a prioridade seja manter a vítima calma, imobilizar o membro afetado e levá-la rapidamente a um serviço de saúde para receber soro específico.

De acordo com protocolos atualizados, as orientações mais aceitas em caso de picada de cobra incluem:


  • Manter a pessoa em repouso, com o membro picado na altura do coração ou levemente elevado.
  • Retirar anéis, pulseiras ou roupas apertadas, para evitar compressão em caso de inchaço.
  • Evitar torniquetes, gelo, cortes ou qualquer tentativa caseira de extrair o veneno.
  • Buscar atendimento médico o mais rápido possível, informando detalhes do animal, se for seguro fazê-lo.

Beber água de cactos ajuda a sobreviver no deserto?


A ideia de que basta encontrar um cacto para matar a sede no deserto ainda aparece com frequência em produções de entretenimento. Biólogos e especialistas em sobrevivência, porém, destacam que, na maior parte das espécies, o líquido interno está longe de ser uma “água potável de emergência”. Em muitos casos, trata-se de uma substância rica em compostos amargos, látex irritante e substâncias que podem causar vômitos e diarreia.

Ao perder líquidos por vômito ou diarreia em ambiente árido, a desidratação se agrava, o que contraria exatamente o objetivo de quem buscava se hidratar. Algumas espécies específicas, como certos tipos de cactos com frutos comestíveis, podem fornecer pequena quantidade de água e calorias, mas o reconhecimento correto exige experiência e conhecimento botânico. Manuais modernos de sobrevivência, usados por forças de resgate e grupos de treinamento ao ar livre, enfatizam que confiar em cactos como fonte de água é uma estratégia de alto risco.

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Entre as recomendações mais repetidas por instrutores estão:

  1. Priorizar o transporte adequado de água e planejamento de rota, evitando ficar dependente de fontes desconhecidas.
  2. Aprender a identificar plantas seguras com base em guias locais ou cursos especializados.
  3. Evitar experimentar qualquer planta apenas por “parecer suculenta” ou “parecer cheia de água”.

Esfregar nariz congelado e outras “gambiarras” para o frio funcionam?

Em ambientes de frio extremo, uma das orientações populares mais difundidas é a de esfregar nariz, orelhas ou dedos congelados para “esquentar”. De acordo com o consenso de especialistas em medicina de montanha, essa prática é um caminho rápido para agravar lesões por frio. O atrito mecânico em tecidos já danificados pode romper vasos sanguíneos e piorar a necrose, além de aumentar a dor.

Guias internacionais de tratamento de hipotermia e congelamento indicam que o reaquecimento deve ser lento e controlado, geralmente com água morna (em torno de 37 a 39 °C) ou calor corporal indireto, evitando fontes muito quentes, como fogo direto ou água quase fervendo. Esfregar neve sobre a pele, costume ainda repetido em algumas regiões, também é apontado por médicos de emergência como uma prática inadequada, por manter o tecido em baixa temperatura e causar microtraumas.

As ações mais aceitas no atendimento inicial de lesões pelo frio costumam incluir:

  • Retirar roupas molhadas e substituir por peças secas e isolantes.
  • Proteger a área afetada de novos traumas e do vento, sem apertar demais.
  • Promover reaquecimento gradual, quando não houver risco de novo congelamento em seguida.
  • Buscar atendimento médico, especialmente em caso de bolhas, dormência prolongada ou alteração de cor intensa.

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Por que mitos de sobrevivência continuam tão populares?

A persistência de técnicas de sobrevivência equivocadas tem sido tema de estudos em comunicação, psicologia social e educação em saúde. Pesquisadores apontam alguns fatores recorrentes: cenas dramáticas têm forte apelo emocional, são fáceis de memorizar e se espalham rápido em narrativas orais e midiáticas. Quando uma história é contada inúmeras vezes, a sensação de familiaridade pode ser confundida com credibilidade.

Além disso, muitos desses mitos oferecem uma espécie de “roteiro simples” para enfrentar situações complexas: uma única ação rápida que promete resolver um problema grave. Essa promessa de controle imediato em cenários de risco parece atrair parte do público, mesmo quando não há respaldo científico. Profissionais de resgate relatam que, em treinamentos, é comum encontrar participantes que chegam confiantes em técnicas vistas em filmes, mas que se surpreendem ao conhecer os protocolos baseados em evidências.

Frente a esse quadro, organismos de saúde, corpos de bombeiros e grupos de busca e salvamento têm investido em materiais educativos que desconstroem esses mitos com linguagem acessível. A recomendação recorrente é simples: em situações de emergência, confiar em orientações oficiais, em cursos reconhecidos de primeiros socorros e em informações de profissionais treinados costuma ser mais eficaz do que reproduzir cenas de cinema. A diferença entre mito e técnica adequada, no contexto da sobrevivência, pode significar menos complicações, menos sequelas e um desfecho mais seguro para todos os envolvidos.

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