Uma misteriosa “bola dourada” encontrada na costa do Alasca revelou-se ser a carapaça protetora de uma criatura marinha
Curiosidades Mistério de quase 3 anos: Uma esfera dourada encontrada a mais de 3 km de profundidade no Alasca intrigou cientistas...
Giro 10|Do R7
Imagine encontrar uma esfera perfeitamente redonda, com um brilho dourado intenso, grudada numa rocha a mais de três quilômetros de profundidade no oceano. Foi exatamente isso que aconteceu durante uma expedição científica no Golfo do Alasca em 2023. O objeto deixou pesquisadores sem resposta por quase três anos, até que análises genéticas revelaram algo surpreendente: a esfera dourada era, na verdade, um pedaço da “pele” protetora de uma anêmona-do-mar gigante que vive nas profundezas do oceano.
O que a ciência descobriu sobre a esfera dourada do Alasca
A história começou em agosto de 2023, quando o robô submarino Deep Discoverer, operado a partir do navio Okeanos Explorer da NOAA, avistou um domo dourado com cerca de dez centímetros de diâmetro preso a uma rocha no fundo do oceano profundo. O objeto tinha uma superfície lisa e um pequeno orifício, o que gerou dezenas de hipóteses entre os cientistas. Alguns apostavam que era um ovo de alguma criatura desconhecida, outros sugeriram restos de uma esponja antiga.
Depois de coletada, a amostra foi enviada ao Museu Nacional de História Natural do Instituto Smithsonian. A equipe liderada pelo zoólogo Allen Collins utilizou uma combinação de análise morfológica e sequenciamento genético para desvendar o enigma. O exame inicial mostrou que o objeto era feito de um material fibroso em camadas, repleto de células urticantes chamadas cnidócitos, encontradas apenas em animais como águas-vivas, corais e anêmonas.

Como funciona a “pele dourada” dessa anêmona gigante na prática
Para entender o que aconteceu, pense em como um caracol deixa um rastro de muco por onde passa. As anêmonas-do-mar fazem algo parecido: elas secretam uma camada de células chamada cutícula na base do corpo, que funciona como uma espécie de cola biológica para se fixar às rochas. Normalmente essa estrutura dourada fica escondida sob o corpo do animal, como o solado de um sapato que a gente nunca vê enquanto está calçado.
No caso da esfera encontrada no Alasca, a anêmona aparentemente abandonou essa base e se mudou para outro local, ou pode ter se fragmentado durante um processo de reprodução assexuada chamado laceração pedal. É como se o animal tivesse “trocado de casa” e deixado para trás a fundação da morada anterior, algo que os cientistas raramente têm a chance de observar isoladamente no fundo do mar.
Relicanthus daphneae: a anêmona rara com tentáculos de dois metros
A protagonista dessa descoberta é a Relicanthus daphneae, uma anêmona-do-mar gigante que foi descrita cientificamente pela primeira vez em 2006. Ela vive em profundidades que variam entre 1.200 e 4.000 metros, geralmente próximo a fontes hidrotermais no fundo do oceano. Seu corpo cilíndrico pode atingir cerca de 30 centímetros de diâmetro, mas o mais impressionante são seus tentáculos: eles podem se estender por mais de dois metros, quase a altura de uma pessoa adulta.
A identificação definitiva só foi possível graças ao sequenciamento completo do genoma mitocondrial. A primeira tentativa de análise de DNA falhou porque o material genético de microrganismos que colonizaram a superfície da esfera mascarava o DNA do animal. Foi preciso recorrer a técnicas mais avançadas de genômica para confirmar que o objeto pertencia à mesma espécie de uma amostra semelhante coletada em 2021, fechando assim o quebra-cabeça.

Os detalhes completos dessa investigação foram publicados como preprint no repositório científico bioRxiv e podem ser consultados na pesquisa original dos cientistas da NOAA e do Instituto Smithsonian, que descreve toda a metodologia de análise morfológica e genômica utilizada para resolver o enigma da esfera dourada.
Por que essa descoberta importa para você
Pode parecer que uma esfera dourada no fundo do Alasca está muito distante do nosso dia a dia, mas essa descoberta carrega uma mensagem poderosa. Ela demonstra que mesmo com toda a tecnologia disponível, robôs submarinos e laboratórios de ponta, os oceanos continuam guardando surpresas que desafiam até os especialistas mais experientes. Menos de 20% do fundo dos oceanos foi mapeado em detalhe, o que significa que criaturas como a Relicanthus daphneae podem estar muito mais espalhadas do que imaginamos.
Além disso, a exploração do oceano profundo tem implicações diretas para áreas como medicina, energia e biotecnologia. Organismos que sobrevivem em condições extremas de pressão e temperatura frequentemente produzem substâncias com potencial farmacêutico. Cada nova espécie identificada, cada comportamento inédito observado, amplia o repertório de possibilidades para a ciência marinha e para a sociedade.

O que mais a ciência está investigando sobre anêmonas de águas profundas
Os pesquisadores agora querem entender o que aconteceu com o corpo da anêmona que deixou a esfera para trás. Ela morreu, se deslocou para outro ponto ou se reproduziu por laceração pedal? Essas perguntas continuam em aberto. A equipe da NOAA já prepara novas expedições de mapeamento do fundo oceânico no Pacífico Sul para a temporada de 2026, e espera que o conhecimento sobre essas “pegadas douradas” ajude a revelar a verdadeira distribuição geográfica da Relicanthus daphneae ao redor do planeta.
Se uma simples esfera dourada levou quase três anos para ser decifrada, é fascinante imaginar quantos outros enigmas o oceano profundo ainda esconde. Cada mergulho nas profundezas é um lembrete de que nosso planeta ainda tem muito a nos ensinar, bastando a curiosidade e a ciência para desvendar seus segredos.















