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Venenoso, gigante e insaciável: como o sapo-cururu se tornou uma catástrofe ambiental na Austrália

Animais da espécie foram levados ao país nos anos 1930, para conter uma praga de besouros, mas se tornaram um problema muito mais devastador

Hora 7|Filipe Siqueira, do R7

Cientistas encontraram um sapo gigantesco de quase 3 kg
Cientistas encontraram um sapo gigantesco de quase 3 kg Cientistas encontraram um sapo gigantesco de quase 3 kg

Em 1935, agricultores levaram 102 sapos-cururu do Havaí para a Austrália, para lidar com uma praga de besouros-da-cana. O besouro adulto não era um grande problema, por geralmente comer sobras da matéria-prima do açúcar — na época, um produto econômico de importância global — mas suas larvas devoravam as raízes da cana, abaixo da terra.

Após um período de reprodução, cerca de 3.000 sapos supostamente devoradores de larvas foram soltos em pequenas áreas da costa leste do país, em agosto. Eles não conseguiam comer os besouros, por não saltarem alto o suficiente, muito menos as larvas escondidas embaixo da terra.

Mas, longe do seu território nativo (a América Central e do Sul, onde também é conhecido como sapo-boi) e sem predadores naturais, eles logo, se transformaram em uma praga devastadora que evoluiu geneticamente, ameaçou espécies locais e nunca mais parou de se multiplicar.

Estima-se que hoje existam cerca de 200 milhões de sapos-cururus (Rhinella marina) na Austrália. Um deles, surpreendeu até cientistas do país, acostumados a encontrar animais bizarros.

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O animal, um gigante de 2,7 kg e tamanho de um antebraço de humano adulto, foi achado na trilha de um parque em Queensland. O imenso sapo foi retirado do parque e sacrificado, para ser futuramente exposto em um museu.

O tamanho gigantesco o fez se aproximar da rã-golias, o maior anuro (ordem que inclui sapos, rãs e pererecas) do mundo, com 40 cm e até 3 kg. É também um lembrete de como esses animais interferiram no ecossistema local.

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Além de grandes, eles são altamente venenosos, comem sem parar e estão cada vez maiores. E resistem a qualquer estratégia de extermínio arquitetada no país ao longo de quase um século.

O sofrimento das espécies nativas

Uma forma de definir o impacto dos cururus no país é estudar o declínio de espécies nativas em áreas com grande presença deles.

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Um desses animais é o crocodilo-de-água-doce (Crocodylus johnstoni), bastante comum em diversos territórios da Austrália... até comer os cururus e morrer por causa do veneno.

Um estudo de 2008, publicado pelo periódico científico Biological Conservation, revelou que a mortalidade desses crocodilos chegou a 77% em certos territórios, com média de mortalidade de cerca de 45% onde eles eram comuns.

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As áreas mais mortais para os crocodilos são as mais secas, o que faz com que os sapos fiquem perto dos rios para se molhar, o habitat dos répteis. Comilões, os crocodilos não resistem e devoram o sapo tóxico e acabam mortos.

Quem agradece são os crocodilos-de-água-salgada (Crocodylus porosus), que são resistentes ao veneno dos sapos. Essa espécie de crocodilo — a maior do mundo, medindo até 7 m — ainda se beneficia com a queda de população dos lagartos varanos, também predados pelos cururus.

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O varano é um dos maiores devoradores dos ovos dos gigantescos crocodilos, e sem eles a população de predadores aumenta e engatilha mais um fator de desequilíbrio.

Canibalismo e velocidade

Outros estudos revelaram ainda que os girinos de cururus australianos praticam quase 3 vezes mais canibalismo que seus colegas das Américas, e que eles se desenvolvem mais rápido — ambas prováveis respostas à competição por alimento, causada pela população massiva de sapos da Austrália.

As pernas dos cururus locais também aumentaram 25%, e se tornaram capazes de saltar cinco vezes mais rápido do que os primeiros que chegaram à Austrália, nos anos 1930. Isso os fez grandes imigrantes: em uma noite comum, um grande cururu pode percorrer até 2 km.

Com um problema deste tamanho, as soluções escapam cada vez mais. No momento, muitos simplesmente matam os cururus assim que os veem. Mas há estudos para tentar fazer os sapos produzirem apenas descendentes machos, como forma de conter a reprodução. Mas o temor é que a mudança genética cause problemas ainda maiores.

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