Internacional Al-Shabaab usa religião para conquistar poder na Somália

Al-Shabaab usa religião para conquistar poder na Somália

Grupo é apontado como autor do ataque que matou centenas em Mogadíscio

Al-Shabaab usa religião como fachada para conquistar poder na Somália

Ataque deixou centenas de mortos e feridos na Somália

Ataque deixou centenas de mortos e feridos na Somália

REUTERS/Feisal Omar

A explosão de dois caminhões-bomba deixou centenas de mortos e feridos em Mogadíscio, capital da Somália, neste sábado (14) e se tornou o maior ataque da história do país. Até o momento, ninguém reivindicou a ação, mas o governo aponta o grupo Al-Shabaab como responsável.

Apesar de ser um grupo islâmico militante e filiado à Al Qaeda, o contexto religioso não é suficiente para explicar a atuação do Al-Shabaab.

A religião é usada como fachada para justificar uma disputa pelo poder, diz Marília Carolina de Souza Pimenta, coordenadora do curso de relações internacionais da Fecap (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado).

— Essa defesa das leis islâmicas é o discurso do grupo, mas, na verdade, o que eles querem é poder e território. Querem domínio de toda uma região, geralmente, rica em água ou minérios. Ou seja, tem sempre algum aspecto geopolítico importante para eles se instalarem na região. Assim como o EI (Estado Islâmico) e o Boko Haram, usam essa inspiração islâmica radical para conseguir poder. Essa lógica religiosa é muito mais para atrair corações e mentes de jovens que possam ser soldados e pegar em armas.

A Somália vive em um estado de guerra civil e caos desde 1991, quando a ditadura de Muhammad Siad Barre foi destituída e o país ficou sem um governo efetivo. O poder passou às mãos de milícias radicais islâmicas, que acabaram dividindo o país.

— Houve uma série de investimentos norte-americanos ao longo da década de 1990 para tentar uma estabilização do país, mas a partir do atentado de 11 de Setembro as políticas se modificaram e os EUA passaram a olhar mais para o Oriente Médio. Então, acabou sendo uma ação malsucedida. Hoje, a Somália tem o que a gente chama de “Estado falido”, porque não tem governança em todo seu território.

Em junho de 2006, a facção União das Cortes Islâmica da Somália conseguiu tomar a capital, Mogadíscio, mas foi derrotada poucos meses depois. Nesse contexto, o Al-Shabab surgiu como uma ala radical da facção extinta, impondo uma versão rígida da sharia (lei islâmica) nos territórios de seu domínio.

— Desde o aprofundamento da guerra civil, o Estado foi dividido entre vários grupos que disputam entre si o controle do país e praticam violência uns contra os outros. O mais organizado e mobilizado deles é o Al-Shabab. Eles não têm capacidade política, econômica e jurídica de comandar toda a Somália, mas conseguem alterar a disputa de poder no país.

Em 2011, o grupo já havia estendido sua presença para Uganda, Nigéria, Quênia e Iêmen.

Com apoio da ONU (Organização das Nações Unidas), da UA (União Africana) e de países vizinhos, a Somália lançou uma ofensiva contra o Al-Shabab e conseguiu diminuir a área de influência do grupo nas principais cidades do país, mas eles ainda têm forte presença nas áreas rurais.

— A situação é muito grave e evidencia, muitas vezes, que há um forte pragmatismo das autoridades internacionais e sobretudo dos EUA, que acabam se mobilizando muito mais em regiões que têm interesses estratégicos muito fortes, como petróleo. O terrorismo é o maior desafio do século 21 e com o qual ainda não sabemos lidar. Então, é o caso de repensar as estratégias que a ONU, o Conselho de Segurança e as grandes potências vem utilizando, com um caráter mais humanitário.

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