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América Latina se rebela na ONU com críticas à espionagem e ao capitalismo selvagem

Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, José Mujica e Evo Morales foram destaque na reunião da ONU

Internacional|, com EFE

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Em seu discurso na quarta, Evo Morales pediu um tribunal para julgar Obama
Em seu discurso na quarta, Evo Morales pediu um tribunal para julgar Obama

Do caso de espionagem dos Estados Unidos, que afetou o Brasil, à pressão dos fundos "abutres" sobre a Argentina, passando pelo capitalismo selvagem e pela falta de democracia na ONU: a América Latina fez barulho e se fez ouvir na Assembleia-Geral, em Nova York.

Se fosse necessário apontar uma liderança à "rebelião" latino-americana, o nome mais evidente seria o da presidente brasileira, Dilma Rousseff, encarregada de inaugurar o encontro anual de líderes mundiais, na terça-feira (24), com um discurso firme incomum em relação ao governo americano, diante de Barack Obama.


Depois de suspender uma visita de Estado a Washington prevista para outubro, devido às revelações de que foi vítima de intensa espionagem americana, Dilma denunciou a maior potência mundial em casa, sem concessões, no momento-chave da Assembleia e antes do discurso de Obama.

"Imiscuir-se dessa forma na vida de outros países fere o Direito Internacional e afronta os princípios que devem reger as relações entre eles, sobretudo, entre nações amigas", afirmou Dilma, considerando "insustentável" o argumento do governo americano de que o objetivo da espionagem é proteger o mundo de ataques terroristas.


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A questão da "vigilância eletrônica apenas gera desconfiança", disse o presidente uruguaio, José Mujica, em seu discurso.


O tema foi, como se viu, um dos mais populares entre os presidentes latino-americanos, mas não foi a única denúncia.

Em sua estreia na ONU, Mujica criticou duramente as consequências do capitalismo e o avanço tecnológico, que têm nos Estados Unidos sua encarnação máxima.

"Parece que nascemos apenas para consumir e consumir", afirmou, acrescentando que, se a humanidade quisesse "viver como um americano médio", seriam necessários "três planetas".

Mujica também criticou a atual ordem mundial e lembrou dos "restos do colonialismo nas Malvinas" e dos "bloqueios inúteis a esse jacaré sob o sol do Caribe que se chama Cuba".

Fundos 'abutres', segurança e presidentes 'anti-imperialistas'

Se temas como Malvinas e Cuba estão há anos na agenda latino-americana, a presidente argentina, Cristina Kirchner, escolheu como alvo um assunto que mantém o país em suspense: o julgamento em curso nos Estados Unidos sobre os fundos especulativos, chamados de "abutres" por Buenos Aires, para a cobrança de bônus em "default" desde 2001.

— Estamos pedindo simplesmente que nos deixem pagar (...). Hoje, não querem nos deixar pagar a dívida.

Ela denunciou o grupo de 0,45% de credores que pode bloquear o pagamento a 93% dos proprietários de bônus que concordaram com a reestruturação da dívida feita pela Argentina em 2005 e 2010. O impasse pode levar o país a um novo calote.

Esses fundos de risco, como o NML Capital, compraram os bônus já em "default" para tentar cobrar na Justiça o capital acrescido de juros, rejeitando qualquer troca. Uma sentença a seu favor pode afetar as reestruturações da dívida externa no mundo.

Já o presidente chileno, Sebastián Piñera, um empresário conservador, preferiu criticar o funcionamento pouco democrático da ONU, pedindo a reforma do Conselho de Segurança com a eliminação do direito a veto e a inclusão de novos membros permanentes, como o Brasil.

— No final das contas, se defendemos a democracia, o diálogo e a participação na hora de governar nossos países, não vejo razão alguma para não aplicar esses mesmos princípios e valores na hora de adotar decisões que afetam o mundo inteiro.

Todas essas críticas ressoaram no órgão sem a presença dos presidentes mais "anti-imperialistas", conforme definição do boliviano Evo Morales, que não foram à Assembleia-Geral da ONU. Às ausências anunciadas de Rafael Correa (Equador), Daniel Ortega (Nicarágua) e, sem surpresa, Raúl Castro (Cuba), somou-se a deserção de Nicolás Maduro (Venezuela) no último momento.

A Venezuela havia pedido ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, "garantias" de que Maduro e sua comitiva seriam "respeitados" em sua visita a Nova York, após problemas com o uso do espaço aéreo americano para uma viagem oficial de Maduro à China e com a concessão de vistos para a delegação venezuelana na Assembleia Geral.

"É que aqui, de verdade, não nos sentimos seguros", explicou Evo Morales, que também considerou até o último minuto a possibilidade de não assistir à reunião anual. Ele mudou de ideia somente depois de conversar com as presidentes Dilma e Cristina.

Morales, inclusive, foi o único presidente "bolivariano" presente em Nova York.

Em seu discurso nesta quarta-feira (25), o presidente da Bolívia propôs a criação de um "tribunal dos povos" para julgar o líder americano, Barack Obama, por "crimes de lesa-humanidade".

— Já que estamos aqui debatendo sobre a vida e a humanidade, quero sugerir-lhes um tribunal dos povos para começar um processo contra o governo de Obama.

Antes, durante entrevista coletiva, Morales chamou Obama de "cínico".

— Eu vi, perdão a expressão, muito cinismo de Obama [durante seu discurso na terça-feira]. (...) Fala de justiça, mas é o primeiro governo que traz injustiças ao mundo, fala da paz e é o primeiro presidente que intervém militarmente nos outros países. Com intervenções, que paz vai haver?

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