Internacional Análise: 'Vidas Negras Importam' não é grito para depois que morremos

Análise: 'Vidas Negras Importam' não é grito para depois que morremos

#BlackOutTuesday, que tomou conta das redes na última terça (2), faz referência não só à morte, mas ao apagamento de pessoas negras em vida

  • Internacional | Nayara Fernandes, do R7*

Início do Black Lives Matter teve mesmo estopim que luta por direitos civis na década de 1950: o assassinato de jovens negros

Início do Black Lives Matter teve mesmo estopim que luta por direitos civis na década de 1950: o assassinato de jovens negros

FACUNDO ARRIZABALAGA/EFE/EPA - 31/05/2020

Ontem minha linha do tempo amanheceu toda preta. Demorou para cair a ficha de que expressavam luto pelo assassinato sistemático de pessoas negras vítimas da violência policial. Como jornalista que estuda relações raciais desde 2015 — e acostumada a dar alguns murros em ponta de faca ao dialogar sobre o assunto — foi surreal perceber que, pelo menos na internet, pessoas brancas finalmente estavam ligando os pontos entre o Brasil de João Pedro Mattos e os Estados Unidos de George Floyd.

No histórico de demandas por igualdade, cinco anos de um letramento racial relativamente básico só representam que, enquanto mulher negra, usufruo de um legado de consciência formado por pessoas que lutaram e morreram por isso. Só aqui no Brasil, pensadores como Abdias do Nascimento já falavam da existência de um genocídio negro em curso há mais de 40 anos, de mortes que não são físicas, mas também simbólicas.

Nos Estados Unidos, décadas de luta por direitos foram reconfiguradas em 2014, ano de início do Black Lives Matter, quando Trayvon Martin, de 17 anos, foi confundido com um assaltante e assassinado pelo zelador do condomínio onde seu pai morava. O autor do crime não foi indiciado.

Estopim do movimento por direitos civis nos EUA, Emmett Till foi brutalmente linchado aos 14 anos

Estopim do movimento por direitos civis nos EUA, Emmett Till foi brutalmente linchado aos 14 anos

Reprodução

O início do movimento, no entanto, não foi muito diferente do estopim de luta por direitos civis em 1955, ano em que Emmett Till, 14, foi arrancado de sua própria casa e brutalmente linchado porque teria cantado uma mulher branca, história  desmentida anos mais tarde. Mesmo desfigurado, o garoto foi velado em caixão aberto à pedido de sua mãe, na intenção de que o mundo visse o que haviam feito com seu filho.

Mais de meio século depois, no Brasil, a família de João Pedro — que passou 17 horas sem saber do paradeiro do filho antes de ser comunicada de sua morte — filma os 60 buracos de bala espalhados pelas paredes da casa para mostrar o tamanho do estrago.

Quando as publicações no Instagram apareceram pretas em referência à hashtag #BlackOutTuesday, não pensei somente em luto, mas em ausência: não somos apenas 2,5 vezes mais afetados por homicídios, 61% das vítimas de feminicídio, 60% dos jovens que cometem suicídio e 62% mais vulneráveis à morte por covid-19, como também ocupamos somente 5% dos cargos de liderança das maiores empresas do país, 18% dos magistrados, 4% dos parlamentares, 16% dos professores universitários e 10% dos autores publicados por grandes editoras.

Esses dados significam que estamos perdendo gerações de talentos e potências para o racismo: o que sobra de corpos tombados pelo caminho, falta nas principais esferas de decisão e produção de saberes.

Retirado da própria casa após tiroteio, João Pedro Mattos ficou 17 horas desaparecido antes da família ser comunicada de sua morte

Retirado da própria casa após tiroteio, João Pedro Mattos ficou 17 horas desaparecido antes da família ser comunicada de sua morte

Reprodução

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Em um país de formação escravocrata e mais de metade da população negra, é urgente não deixar o grito "Vidas Negras Importam" para depois que mortes físicas acontecem — geralmente consequência de uma série de interrupções simbólicas que nós, pessoas negras, amontoamos ao longo da vida — mas uma das questões centrais que fazem o Brasil ser tudo o que é hoje, no seu melhor e pior. 

*Nayara Fernandes é repórter do R7

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