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Aos 29 anos de idade, vítima de tráfico infantil finalmente encontra família biológica no Brasil

Jovem celebrou resultado: "resgatei minha dignidade"

Internacional|Ana Luísa Vieira, do R7

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Jovem traficada para a França com menos de um ano de idade encontrou família verdadeira no Brasil
Jovem traficada para a França com menos de um ano de idade encontrou família verdadeira no Brasil

Depois de cinco anos de buscas, a angústia da paulista Charlotte Cohen finalmente chegou ao fim. Na última sexta-feira (24), a jovem — que foi traficada para a França com menos de um ano de idade, nos anos 80 — recebeu o resultado do teste de DNA que confirmou a identidade de sua mãe brasileira. O exame atesta que Charlotte, hoje com 29 anos, é filha de Jacira Dos Santos, empregada doméstica morta em 1991. "Hoje eu nasci pela segunda vez", declarou Charlotte em um post emocionado no Facebook.

Ela conta com exclusividade ao R7 que avistou a luz no fim do túnel em novembro do ano passado. 


— Eu tive acesso a um banco de dados, onde cruzei informações sobre minha origem que consegui na França com documentos de minha família verdadeira, que vive no Brasil.

Depois de algumas buscas no Google e tentativas de contato pela internet, a jovem conseguiu encontrar uma suposta irmã, Lucélia dos Santos — que confirmou que a própria mãe havia se perdido de uma filha ainda bebê no mesmo ano em que Charlotte nasceu. O teste de DNA foi realizado no início de 2017.


— Com a confirmação sobre a minha família verdadeira, eu sinto que resgatei minha dignidade. Eu não sou uma boneca sem passado e sem família que foi simplesmente vendida. Eu tenho uma história.

Passado conturbado


Charlotte conta que seus pais franceses nunca esconderam que ela não era sua filha biológica, mas também não falavam sobre as circunstâncias de sua adoção. Aos 14 anos, a jovem descobriu no escritório do pai adotivo uma pasta com papéis que revelavam parte de sua história — como o hospital onde havia nascido, o tipo sanguíneo, o orfanato a que havia sido entregue e a pessoa que a registrara.

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Em 2012, aos 25 anos, ela veio morar no Rio de Janeiro afim de resgatar o próprio passado. Contatou as pessoas cujos nomes constavam nos documentos encontrados na França, mas todas lhe negaram informações. Ao acionar a Justiça brasileira, Charlotte acabou por ajudar a desvendar um esquema de tráfico de crianças em um orfanato da capital paulista, de onde vários menores teriam sido levados ao exterior e adotados de forma ilegal entre as décadas de 80 e 90.

Vítima de tráfico infantil

Charlotte — agora Isabella — teve infância conturbada na Fraça
Charlotte — agora Isabella — teve infância conturbada na Fraça

Charlotte descobriu que, logo que nasceu, em abril de 1987, foi entregue ao Orfanato Lar da Criança Menino Jesus, na cidade de São Paulo. A instituição era comandada por Guiomar e Franco Morselli — que, segundo informações divulgadas pelo MPF (Ministério Público Federal), se aproveitavam da condição de dirigentes para praticar tráfico internacional de crianças.

O casal forçava mulheres jovens e grávidas em situação de desespero a não abortarem os bebês, mas, sim, doá-los para que pudessem ser adotados. Vendiam os recém-nascidos a quantias exorbitantes — estima-se que a adoção de Charlotte, por exemplo, tenha rendido aos Morselli mais de R$ 100 mil — para famílias estrangeiras. Hoje, Guiomar é ré por tráfico de pessoas em ação civil pública ajuizada pelo MPF. Franco morreu em 2015.

Novas perspectivas

Na França, a vida de Charlotte não foi fácil, a jovem relatou que sua família adotiva era desestruturada e a tratou muito mal, atualmente ela não tem mais contato com seus pais franceses. No entanto, Charlotte afirma que pretende agora reescrever a própria história ao lado dos irmãos e outros parentes verdadeiros. “Vou estar mais em São Paulo para visitá-los e conviver com eles”, afirma. Ela quer também ser novamente registrada como Isabella dos Santos — nome que sua mãe, Jacira, havia escolhido na ocasião de seu nascimento.

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Além disso, a jovem tem planos de escrever um livro e, quem sabe, fundar uma ONG para auxiliar famílias com experiências semelhantes à sua.

— Conheço muitas mães que sofrem e querem saber de seus filhos e eu sei que o sofrimento delas continua. Muitos jovens que foram adotados querem encontrar a família verdadeira e não conseguem. Eu sinto que é meu dever falar sobre isso e ajudar quem eu puder. Infelizmente, o que aconteceu comigo não foi um fato isolado em um país que tem histórico de racismo, preconceito e exploração.

Para Charlotte — agora Isabella —, a justiça em relação aos envolvidos no crime deve demorar a se cumprir, mas a jovem tem certeza de que fez sua parte.

— Minha mãe podia ser humilde, negra e empregada doméstica, mas ela não merecia ser castigada, e sim amparada. Vai levar gerações para que algumas mentalidades sejam mudadas, mas cada um tem que fazer sua parte. Expor minha história é a forma que eu tenho de ajudar, como cidadã. Agora, só quero ser feliz.

Irmãs: à esquerda, Lucélia dos Santos; à direita, Isabella (Charlotte). Expectativa hoje é de estreitar laços
Irmãs: à esquerda, Lucélia dos Santos; à direita, Isabella (Charlotte). Expectativa hoje é de estreitar laços

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