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‘Apátridas’: mulheres e crianças ficam sem destino em meio à incerteza na Síria

Poucos países com prisioneiros na Síria têm se mostrado dispostos a repatriá-los

Internacional|Ben Wedeman, Muhammad Darwish, Charbel Mallo e Nechirvan Mando, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Mais de 2.000 mulheres e crianças estão detidas no campo de Al-Roj, na Síria, em sua maioria esposas e filhos de homens ligados ao ISIS.
  • As detidas enfrentam a revogação de suas cidadanias e o sentimento de apatridia, além de temer por suas vidas e por seus filhos.
  • A situação no campo é alarmante, com o governo sírio avançando sobre áreas controladas pelas Forças Democráticas Sírias (SDF) e o aumento da insegurança neste contexto.
  • A esperança de uma possível volta do ISIS traz temor entre as administradoras do campo e as detidas, que se sentem abandonadas pela comunidade internacional.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Mais de 2.000 mulheres e crianças estão detidas na Síria CNN via CNN Internacional

Saímos do frio cortante e entramos na escuridão por meio de uma aba de plástico que fazia as vezes de porta.

Dentro da tenda estava mais quente, mas era difícil enxergar qualquer coisa, com apenas um pouco de luz externa passando pelas frestas.


“Entrem! Entrem!”, disse uma voz feminina em inglês.

Duas crianças, uma menina e um menino, corriam de um lado para o outro. Eles falavam em uma mistura de inglês com um árabe padrão muito correto — o que imediatamente me pareceu estranho, já que ninguém fala dessa forma em um ambiente informal.


Estávamos no campo de Al-Roj, um centro de detenção no nordeste da Síria onde mais de 2.000 mulheres e crianças (embora algumas já não sejam mais crianças) estão detidas — algumas há mais de uma década — pelas SDF (Forças Democráticas Sírias), lideradas por curdos.

Elas são, em sua maioria, esposas estrangeiras (e em muitos casos, viúvas) e filhos de homens ligados ao ISIS (Estado Islâmico do Iraque e da Síria).


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Na penumbra, ouvi outra voz feminina, com sotaque britânico.

“Jornalistas? Por favor, sem fotos!”


Ela pediu que não a identificássemos, por medo de complicar os esforços legais de seus familiares para repatriá-la ao Reino Unido. Disse que sua cidadania britânica havia sido revogada.

“Tenho medo porque sou uma pessoa diferente”, contou. “Não sou uma daeshi”, disse, usando o termo para afirmar que não é seguidora do ISIS. “Não sou ninguém. Tenho medo pelo meu filho.”

Segundo ela, seu filho de 9 anos era espancado regularmente por outros meninos no campo porque sua mãe já não era leal ao ISIS.

“Eu nasci na Inglaterra. Fui criada na Inglaterra”, disse. “Não tenho ninguém em nenhum outro lugar. Minha mãe, meu pai, meus irmãos — todos estão na Inglaterra. Somos total e completamente apátridas.”

Caso você esteja se perguntando, esta não é Shamima Begum, a jovem do leste de Londres que fugiu aos 15 anos para se juntar ao ISIS em 2015. O Reino Unido também revogou a nacionalidade dela.

Nós fomos até o que nossa escolta curda, com um AK-47 e de voz rouca, disse ser a tenda de Begum, mas ela estava fechada. Chamei, dizendo que gostaria de falar com ela.

“Vá embora”, respondeu uma voz feminina com sotaque londrino. “Não quero falar com você.”

Ilusões abandonadas

Esta não foi minha primeira experiência com mulheres ligadas ao ISIS. No início de 2019, passei dois meses na Síria cobrindo a batalha final contra o grupo terrorista. Falamos com dezenas de mulheres do ISIS — da França, Reino Unido, Marrocos, Iraque, Turquia, Rússia, Indonésia, Finlândia, entre outros países.

Algumas disseram que haviam seguido os maridos a contragosto para a Síria e o Iraque. Outras insistiam, na época, que ainda acreditavam firmemente na doutrina rígida do Estado Islâmico.

Mas aqui, em Roj, as únicas mulheres dispostas a falar conosco insistiam que há muito tempo haviam abandonado quaisquer ilusões. Elas apenas queriam voltar para casa.

“Quero voltar para o meu país”, disse Alma Ismailovic, da Sérvia, em inglês truncado. “Quero viver uma vida normal com meus filhos.”

Alma estava no “mercado” do campo, uma praça de terra batida com algumas poucas lojas que vendem comida e outros itens básicos.

Ela usava um hijab, o lenço que cobre a cabeça, em vez do niqab que cobre o rosto, típico de mulheres com visões mais extremistas.

Perguntei a um grupo de meninos que estavam pelo mercado se ainda acreditavam no lema do ISIS de que “o Estado Islâmico permanecerá e se expandirá”, e eles riram com desdém, como se eu tivesse contado uma piada velha e sem graça.

“Não existe mais Estado Islâmico”, disse Hanifa Abdallah, da Rússia, em um árabe rudimentar e fortemente carregado de sotaque. “Acabou. Só restamos nós, as mulheres.”

Ela contou que dois de seus filhos já haviam sido repatriados, mas outros três ainda estavam com ela no centro de detenção.

Assim como as demais, disse estar desesperada para voltar para casa, mas afirmou que a Rússia não a aceitaria de volta. Autoridades do campo disseram que o maior grupo de nacionalidade em Roj é o de russos.

Repatriação

Poucos dos países com cidadãos — prisioneiros e detidos — na Síria têm se mostrado dispostos a repatriá-los.

Nossa escolta nos levou de carro pelo campo, mas insistiu que não caminhássemos entre as tendas porque as mulheres e crianças jogariam pedras em nós.

Por causa do frio, poucas pessoas estavam do lado de fora, e muitas das que estavam viraram o rosto quando passamos. Ninguém jogou pedras. Ninguém fez gestos ameaçadores, como já vi em reportagens sobre outros campos na Síria.

Nossa visita a Roj acontece em um momento crítico para o país. Desde o início de janeiro, forças do governo sírio, junto com combatentes tribais árabes, expulsaram as SDF, lideradas por curdos, de grandes áreas do norte da Síria.

Por mais de uma década, a coalizão liderada pelos EUA contra o ISIS se aliou às SDF e combateu o grupo terrorista.

Mas, com a queda do regime de Bashar al-Assad, o novo governo sírio, liderado pelo presidente Ahmed al-Sharaa (anteriormente um líder de um grupo afiliado à Al Qaeda), agora tenta estender sua autoridade às regiões autônomas e ricas em petróleo do norte da Síria, controladas pelas SDF.

Em uma publicação recente na rede X, o enviado especial dos EUA e embaixador na Turquia, Tom Barrack, afirmou que “o propósito original das SDF como principal força terrestre contra o ISIS praticamente expirou”, já que o novo governo sírio sinalizou “uma guinada para o Ocidente e cooperação com os EUA no combate ao terrorismo”.

Ele instou as SDF, lideradas por curdos, a se integrarem ao Estado sírio.

Acordos

Sob pressão dos EUA, a liderança das SDF concluiu relutantemente acordos com o governo em Damasco para fazer exatamente isso. Mas o diabo está nos detalhes da implementação — e isso pode se mostrar mortal.

Para os curdos, a mudança repentina da posição americana soa como traição — mais uma traição dos que os apoiaram por décadas.

No escritório da administradora do campo, encontramos a chefe de segurança, uma mulher sisuda, carrancuda, na casa dos 40 anos, que se identificou como “Camarada Chavre”.

“Combatemos o Estado Islâmico em nome do resto do mundo, e agora o resto do mundo está virando as costas para nós”, disparou. “Espero que todas essas mulheres e prisioneiros voltem para seus países e comecem a atacá-los.”

Durante todo o tempo em que estivemos no nordeste da Síria, ouvimos ecos dessa raiva.

Por causa da antiga ligação do presidente sírio al-Sharaa com a Al Qaeda, muitos curdos estão convencidos de que, por baixo do terno e da gravata, ele ainda mantém a ideologia do grupo.

Com as forças do governo sírio agora no controle de Al-Hol, o outro e maior campo de detenção da região, a administradora do campo, Hakimat Ibrahim, disse que as mulheres mais comprometidas com o ISIS comemoraram, sentindo que em breve estarão livres.

Em 19 de janeiro, tropas das SDF que guardavam a prisão de Al-Shaddadi, cerca de 160 quilômetros a sudoeste de Al-Roj, onde vários milhares de prisioneiros do ISIS estavam detidos, recuaram sob fogo do Exército sírio. As SDF afirmaram que 1.500 prisioneiros escaparam.

O governo sírio negou, dizendo que apenas 120 fugiram e que mais de 80 foram rapidamente recapturados. As forças dos EUA agora estão no processo de transferir cerca de 7.000 prisioneiros do ISIS para instalações mais seguras no Iraque.

“Agora elas têm esperança de que o ISIS esteja voltando”, disse Ibrahim, referindo-se às mulheres no campo de Roj.

E, se isso acontecer, contou Hakimat, elas disseram a ela: “Não deixaremos nenhum de vocês vivo.”

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