Ataques de Trump à UE influenciam clima político em torno do acordo com o Mercosul
Tratado com o bloco sul-americano enfrenta atraso após decisão do Parlamento Europeu de submeter o texto ao Tribunal de Justiça
Internacional|Clarissa Lemgruber, do R7, em Brasília
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As críticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à Europa durante discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, reacenderam o debate sobre o ambiente político internacional em um momento sensível para o acordo entre o Mercosul e a União Europeia — tratado considerado estratégico para o Brasil.
Ao atacar decisões europeias e afirmar que o continente “não está indo na direção correta”, Trump voltou a elevar o tom nas relações transatlânticas, o que pode influenciar indiretamente o cenário político dentro da União Europeia, que decidiu submeter o acordo com o Mercosul ao Tribunal de Justiça para análise de legalidade.
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Para João Alfredo Lopes Nyegray, doutor em internacionalização e professor de Geopolítica e Negócios Internacionais da PUC-PR, o impacto do discurso é ambivalente.
“Ao mesmo tempo em que pode endurecer o clima político e alimentar forças protecionistas, também pode reforçar o argumento geopolítico a favor do acordo dentro da própria Europa”, avalia.
Segundo ele, a retórica mais dura de Trump tende a reativar, dentro da União Europeia, a percepção de “vulnerabilidade estratégica” e de imprevisibilidade na relação com os Estados Unidos.
“Isso costuma fortalecer a narrativa dos defensores do acordo Mercosul–UE, que argumentam que, em um mundo de tarifas e coerção, a UE precisa diversificar parceiros e reduzir dependências”, afirma.
Brasil pode ganhar espaço, mas sob mais cobrança
Nesse contexto de maior tensão entre Estados Unidos e Europa, o Brasil pode aparecer como um parceiro comercial ainda mais relevante — embora o cenário também traga incertezas. Nyegray explica que, quando grandes potências entram em rota de atrito, a União Europeia tende a buscar novos aliados para garantir previsibilidade de mercado e de fornecimento.
“A América do Sul, com o Brasil no centro, entra naturalmente nesse radar”, diz. No entanto, o especialista alerta que esse movimento vem acompanhado de exigências adicionais. “O Brasil pode ser mais cortejado como parceiro, mas também mais cobrado, mais pressionado e mais exposto a mudanças de humor político dentro da UE e dos EUA.”
Segundo o professor, temas como meio ambiente, padrões sanitários, rastreabilidade e direitos humanos podem ganhar peso nas negociações e ser usados como instrumentos de pressão política.
Entraves dentro da Europa
Apesar da repercussão internacional das falas de Trump, Nyegray destaca que os principais riscos ao acordo Mercosul–União Europeia hoje não estão diretamente ligados ao presidente norte-americano, mas às engrenagens institucionais europeias.
“O Brasil precisa observar mais o tabuleiro institucional europeu do que as falas de Trump em si”, afirma. Ele lembra que o tratado foi judicializado após decisão do Parlamento Europeu, que encaminhou o acordo ao Tribunal de Justiça da União Europeia — movimento que pode atrasar a entrada em vigor do texto por até cerca de dois anos.
Além do risco jurídico, o especialista aponta um cenário político-parlamentar delicado. “Mesmo que a revisão judicial não inviabilize o acordo, a polarização interna e a pressão de grupos agrícolas e ambientalistas podem tornar a ratificação mais apertada e sujeita a salvaguardas e aplicação mais restritiva.”
Para Nyegray, as declarações de Trump funcionam mais como um fator de “clima político” do que como um elemento determinante. “Elas influenciam narrativas e coalizões, mas o que define o curto e médio prazo do acordo são as decisões do Tribunal, do Parlamento e a capacidade da Comissão Europeia de manter o tratado politicamente vivo.”
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