Internacional Ativistas e opositores culpam Irã por ataque a Salman Rushdie

Ativistas e opositores culpam Irã por ataque a Salman Rushdie

Grupos apontam que o país nunca revogou o decreto religioso que pedia a morte do escritor britânico

AFP

Resumindo a Notícia

  • País mantém em vigor uma recompensa de R$ 15 milhões pela vida de Rushdie
  • Ataque ocorreu enquanto o Irã avalia oferta para ressuscitar o acordo de programa nuclear
  • Polícia prendeu e identificou o agressor como Hadi Matar, de 24 anos
  • Autoridades disseram que o motivo do ataque ainda não foi esclarecido
Ativistas e opositores  responsabilizam o Irã pelo ataque sofrido por Salman Rushdie

Ativistas e opositores responsabilizam o Irã pelo ataque sofrido por Salman Rushdie

Andrew Winning/Reuters - 08.10.2010

Defensores da liberdade de expressão e opositores acusaram, neste sábado (13), as autoridades iranianas de serem moralmente responsáveis pelo ataque contra o escritor Salman Rushdie, já que o Irã nunca revogou a fátua (decreto religioso) emitida pelo aiatolá Ruhollah Khomeini em 1989, que pedia a morte do escritor britânico.

"Independentemente de que a tentativa de assassinato tenha sido ou não ordenada diretamente por Teerã, o que sim é quase certo é que isto é o resultado de 30 anos de incitação, por parte do regime, à violência contra este celebrado autor", disse a União Nacional pela Democracia no Irã (NUFDI, na sigla em inglês), um grupo opositor com sede em Washington.

Durante anos, o discurso político no Irã deixou de lado a fátua emitida por Khomeini em 1989 com base no livro "Os Versos Satânicos", obra que provocou indignação por parte de alguns muçulmanos. Contudo, o sucessor de Khomeini, o líder supremo Ali Khamenei, deixou claro nos últimos anos que a ordem segue vigente.

Assim, uma resposta a uma pergunta formulada no site oficial do líder supremo, Khamenei.ir, afirmava, em fevereiro de 2017, que a fátua continuava sendo válida. "Resposta: o decreto se mantém tal como foi emitido pelo imão Khomeini", dizia a mensagem.

Além disso, a conta do líder supremo no Twitter, @khamenei_ir, indicou em 2019 que a fátua era "sólida e irrevogável".

Os defensores da liberdade de expressão acrescentam que também se mantém em vigor uma recompensa de mais de 3 milhões de dólares (R$ 15 milhões) pela cabeça de Rushdie, oferecida pela Fundação iraniana 15 Khordad.

"Ali Khamenei e outros líderes do regime clerical sempre prometeram cumprir esta fátua anti-islâmica ao longo dos últimos 34 anos", comentou o Conselho Nacional de Resistência do Irã (NCRI, na sigla em inglês), outro grupo opositor proibido no Irã.

Simpatizante da Guarda Revolucionária do Irã


O esfaqueamento de Rushdie em um ato público no estado de Nova York, nos EUA, aconteceu em um momento delicado a nível diplomático para o Irã, que está avaliando uma oferta de várias potências para ressuscitar o acordo de 2015 sobre seu programa nuclear. Tal cenário aliviaria as sanções que pesam sobre a economia iraniana.

A polícia do estado de Nova York prendeu e identificou o agressor como Hadi Matar, de 24 anos, e disse que o motivo do ataque ainda não foi esclarecido.

Uma fonte próxima da investigação disse à emissora NBC que Matar "simpatiza com o extremismo xiita e com a Guarda Revolucionária", sem que, por ora, haja provas concretas de uma relação entre o agressor e essa força iraniana.

Supervisão do mês


As ações do Irã estão sendo acompanhadas de perto por Washington, que, nas últimas semanas, acusou Teerã de elaborar um plano para assassinar o ex-conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, e também a dissidente iraniana Masih Alinejad, que vive nos Estados Unidos.

"Desde 1989, há uma fátua de Khomeini contra Salman Rushdie, e a República Islâmica do Irã nunca revogou essa fátua [...] Agora, os patrocinadores da República Islâmica estão louvando o assassinato e me ameaçam com o mesmo destino de Salman Rushdie", comentou a própria Alinejad.

Em seu artigo sobre o ataque, a agência oficial iraniana IRNA apresentou Rushdie como "o autor apóstata" de "Os Versos Satânicos", e lembrou a fátua emitida contra ele.

As autoridades iranianas, por sua vez, não fizeram comentários oficiais até agora. Mohammad Marandi, assessor da equipe negociadora do programa nuclear, escreveu no Twitter que, embora "não derrame lágrimas" por Rushdie, o ocorrido é "estranho" em tempos decisivos para a crise em torno do programa nuclear de Teerã.

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