Atualização do modelo econômico é desafio para Cuba após morte de Fidel
Dinâmicas das relações econômicas entre EUA e Cuba não devem mudar
Internacional|Do R7*

Criticado por alguns e reverenciado por outros, o ex-líder cubano Fidel Castro foi uma figura chave para a geopolítica no último século. Ao liderar um grupo de guerrilheiros e derrubar o ditador Fulgencio Batista, ele levou o socialismo soviético às portas dos Estados Unidos em plena Guerra Fria. Com a sua morte 57 anos após a conquista da ilha caribenha, a grande questão que paira no ar é se a atualização do modelo econômico iniciada pelo sucessor de Fidel, Raúl Castro, dará frutos.
Para Milagro Mengana, doutoranda em relações internacionais do programa San Tiago Dantas (PUC/Unesp/Unicamp) e cubana de nascimento, as bases para a atualização do modelo econômico da ilha estão definidas desde 2011, quando foi realizado o 6º Congresso Nacional do Partido Comunista de Cuba.
Ela lembra que, apesar de seu peso simbólico, Fidel não fazia parte do aparelho de Estado desde 2008, e afirma que seu irmão Raul manteve o principal objetivo do processo iniciado na ilha em 1959: a defesa do modelo político erguido desde então.
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Natural de Las Tunas, a cubana ressalta que, apesar de haver opositores, a maioria dos cubanos é favorável ao governo, e que para ela, o principal desafio da ilha é a eficácia da atualização do seu modelo econômico. De acordo com a pesquisadora, o futuro do socialismo em Cuba “não depende de ações ou interferência externa, mas do povo cubano”.
— Cuba hoje oferece maiores garantias institucionais e legais para as empresas que desejam investir na ilha. O país tem diversificado suas relações econômicas, financeiras e comerciais, e, claro, este aspecto tem sido reforçado desde a restauração das relações com os Estados Unidos. No entanto, o Estado terá sempre um papel importante no sentido econômico do país.
Para o Coordenador do IEEI (Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais) da Unesp, Luis Fernando Ayerbe, as reformas econômicas em Cuba já estão institucionalizadas, seguindo um modelo semelhante ao adotado na China, e a morte de Fidel não impacta nesse aspecto.
— As dinâmicas das relações econômicas entre os Estados Unidos e Cuba já se implantaram no comércio. Ainda há o embargo, mas já está havendo um intercâmbio de fato em tudo aquilo que o embargo não contempla. Aumentou muito o turismo e os investimentos na ilha.
Outro aspecto importante relacionado à dinâmica interna cubana diz respeito à mudança de poder no país. Com a morte de Fidel e a aproximação do fim do mandato de seu irmão em 2018, Cuba terá um novo líder em menos de dois anos. No entanto, para Ayerbe, o país está preparado para enfrentar o desafio que se coloca.
— A morte do Fidel é mais simbólica, mas sem dúvida eles estão em um momento chave.
Trump
Além da morte de Fidel, há um outro ponto de interrogação que paira sobre a ilha de Cuba nos próximos meses: como o recém-eleito presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vai lidar com a reaproximação diplomática entre os dois países iniciada por Barack Obama.
Ao longo da campanha, Trump insinuou que o “desrespeito à liberdade religiosa” em Cuba poderia fazer com que ele viesse a rever o acordo de Obama para abrir relações com o antigo adversário na Guerra Fria após quase meio século de afastamento. Até hoje, o país mantém um embargo econômico à ilha.
Morte de Fidel Castro atrai atenção para políticas de Trump sobre Cuba
Apesar das ameaças, Ayerbe acredita que Trump não deverá voltar atrás nas mudanças diplomáticas com Cuba da era Obama. No entanto, ele pode congelar as relações durante seus primeiros anos de mandato. Para o especialista, o empresário Donald Trump não é contra o reatamento com Cuba — ele, inclusive, teria tentado fazer negócios com o país na década de 90 —, mas forçou o tema por uma questão eleitoral.
— A proximaçlão com os EUA dá folego para Cuba porque o país não está tão bem economicamente. Mas o sistema está institucionalizado, e eles já passaram por situações piores.
Ayerbe participou, nesta sexta-feira (25), do seminário EUA: impactos de uma eleição singular, coordenado pelo INCT-INEU (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos). Em sua fala, ele lembrou que apenas 4% das medidas executivas foram rejeitadas pelo presidente seguinte ao assumir o cargo na história dos EUA.
Além disso, o especialista ressaltou que os danos à imagem do país serão grandes caso Trump volte atrás em um assunto que os próprios Estados Unidos incentivaram.
— Vai ser a primeira vez que os EUA vão, unilateralmente, sair de uma negociação que eles mesmos incentivaram, por conta de uma simples troca de presidente? Acho muito difícil.
A posição de Ayerbe é compartilhada por Milagro. Ela afirma duvidar que o Congresso dos EUA vai "permitir esse retrocesso anunciado pelo novo presidente".
— Pelas posições próprias do Trump, não espero que haja avanços em relação às negociações. Mas também não acredito que haja um grande retrocesso.
* Com a colaboração de Luis Felipe Segura, estagiário do R7











