Logo R7.com
RecordPlus

Casais gays dizem "eu aceito", enquanto a Itália mantém o "não aceito"

Movimentos a favor de garantir o estatuto legal do casamento homossexual tem ganhado velocidade ao redor do mundo

Internacional|Do R7

  • Google News
Massimiliano e Giuseppe se preparam para uma cerimônia de casamento não oficial na Itália
Massimiliano e Giuseppe se preparam para uma cerimônia de casamento não oficial na Itália

Roma – O casamento foi tradicional em quase todos os aspectos. A música era romântica. Votos foram trocados com muito choro juntamente com anéis brilhantes, e um primeiro beijo apaixonado foi recebido com aplausos barulhentos, e então mais lágrimas, de ambas as famílias.

Mas, do ponto de vista legal, o casamento, em maio, de Massimiliano Benedetto e Giuseppe Ilaria foi puramente simbólico, e qualquer coisa, menos tradicional, em um país onde os casais gays não têm direitos.


Papa reconhece corrupção e existência de lobby gay na Cúria

Rússia aprova lei que proíbe propaganda homossexual 


Nigéria aprova projeto de lei contra casamento homossexual

"Essa é uma celebração que foge às regras", disse Imma Battaglia, um dos ativistas dos direitos gays mais proeminentes da Itália, que oficiou a cerimônia em um hotel de luxo daqui. "Os gays são acusados de ser algo perigoso para a família. Em vez disso, hoje, Massimiliano e Giuseppe estão meramente realizando um desejo que reforça o conceito de família".


Eles também estão fazendo uma declaração política. Movimentos a favor de garantir o estatuto legal do casamento homossexual tem ganhado velocidade ao redor do mundo. Ao menos 13 países já legalizaram o casamento gay, assim como muitos estados e o Distrito de Colúmbia nos Estados Unidos. A Nova Zelândia aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em abril, assim como o Uruguai.

Na Europa, a Grã-Bretanha está preparada para aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo no verão, e a Alemanha aguarda votação do Bundestag para fazer o mesmo. A França teve seus primeiros casamentos gays legais, embora o assunto continue gerando protestos por parte dos opositores. Uniões homo afetivas, mas não casamentos, são legais em vários outros países.


A Itália é um dos poucos países na Europa Ocidental que não reconhece uniões homoafetivas de nenhum tipo. Durante anos, projetos de lei legalizando relacionamentos gays fracassaram no Parlamento, vítimas de indiferença de centro-esquerda e completa hostilidade de centro-direita. Durante os últimos 15 anos, várias cidades italianas, incluindo Milão, no ano passado, aprovaram um registro civil para casais do mesmo sexo, mas os poucos direitos sancionados acabam no limite da cidade. Roma não está entre elas.

"Eu não quero parecer retórica mas, nós amamos nossos meninos, e como italiana eu me sinto um pouco envergonhada", disse Marinella Benedetto, mãe de Massimiliano, que o acompanhou até o altar. "Mas os tempos estão evoluindo e mudando, nós só precisamos avançar no tempo."

Desde que anunciaram a data do casamento, os noivos viraram manchete. "Um amigo nosso de Nova York que veio para o casamento disse que ele não conseguia entender qual era o grande problema", Benedetto disse sobre o falatório no evento. "Eu expliquei: 'Estamos na Itália'".

"Muitas pessoas nos perguntaram: 'Por que vocês não se casam no exterior?'", Ilaria disse durante uma entrevista na casa que os dois homens dividem com dois cachorros. "Mas era importante para nós que fosse em Roma, para que nossa família pudesse participar. Não faria sentido de outra forma", disse ele. "Não teria tido nenhum valor".

Egizia Mondini, oficial de comunicações da Same Love, organizadora de casamentos gays que organizou o evento, divulgou o casamento como "parte de uma revolução cultural mais ampla" na Itália. Mas, sem dúvida, uma que ainda está se estabilizando. Na Itália, ela comentou, "minha companheira tem os mesmos direitos sobre nossa filha que a babá."

Pesquisas sugerem que, no caso dos direitos gays, a sociedade italiana pode ser mais tolerante do que os parlamentares que a representam. Um estudo feito em 2011 pela agência nacional de estatísticas, Istat, descobriu que quase 63 por cento dos italianos acham que os casais homossexuais deveriam ter os mesmos direitos legais dos casais heterossexuais, e que quase 44 por cento deles acham que os casais gays deveriam poder se casar.

"De modo geral, nossos políticos não têm a coragem de enfrentar esse problema", disse Giuseppina La Delfa, presidente da Famiglie Arcobaleno, uma associação para pais homossexuais. "Eles colocam suas carreiras antes de tudo; têm medo de perturbar a opinião pública".

Ainda assim, em maio, parlamentares italianos votaram para estender seus planos de saúde parlamentares para parceiros do mesmo sexo, desencadeando acusações de hipocrisia e elitismo.

"É uma versão gay de 'A Revolução dos Bichos' de George Orwell, onde alguns são mais iguais que outros", escreveu Luca Mastrantonio no jornal Corriere della Sera. "Mas é apenas o Parlamento italiano, que mais uma vez, aumenta o abismo entre as instituições e os cidadãos comuns".

Alguns críticos apontam para a influência do Vaticano sobre os parlamentares como o principal obstáculo para a aprovação da legislação dos direitos gays, mas para outros, isso é apenas uma desculpa.

"O Vaticano apenas faz seu trabalho, é como um fanfarrão na balada, decidindo quem está na moda e quem está fora dela", disse Alessandro Bentivegna, um dos fundadores da Same Love. Dois anos atrás, ele entrou em um relacionamento civil em Dublim, sobre o qual escreve em seu blog.

"A Irlanda é tão católica quanto à Itália, ainda assim, estão 100 anos à nossa frente", disse Bentivegna. A Irlanda legalizou uniões entre pessoas do mesmo sexo em 2010.

Os italianos que esperam juntar os trapos podem optar por outras soluções simbólicas, como o site Matrimonio Gay Online, onde parceiros podem se casar preenchendo um formulário e seguindo as diretrizes, que incluem um "beijo obrigatório", enquanto uma versão da "Marcha Nupcial" de Mendelssohn toca ao fundo. O site também organiza uma petição para legalizar uniões homoafetivas.

Desde que o serviço começou a funcionar em dezembro já houve cerca de 30 casamentos online, de acordo com Gabriele Tiraboschi, porta-voz da associação que administra o site. "Mesmo que seja apenas online, é um modo de dizer: 'Aqui estou, eu quero isso'", disse ele.

Há alguns sinais de que o novo Parlamento poderia estar mais aberto em relação ao assunto. Josefa Idem, Ministra da Igualdade, disse em várias ocasiões que ela lutaria por direitos iguais para os casais gays. E um projeto de lei para combater a homofobia, apresentado em maio, deve ser aprovado depois de mais de um terço dos membros do Parlamento terem-no assinado.

"A Itália tem uma cultura machista e homofóbica difusa", Laura Boldrini, presidente da Câmara dos Deputados, disse durante um discurso no dia 17 de maio. Ela também pediu o reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Casamento pode ser um assunto mais difícil para eles engolirem, "mesmo que a sociedade tenha evoluído", disse Ivan Scalfarotto, um parlamentar do partido democrático que apresentou um projeto a favor do casamento gay. "Eu ficaria satisfeito se nós aprovássemos as uniões civis, mas eu ainda estaria interessado em saber por que eu pago os mesmos impostos, mas não posso exercer os mesmos direitos que outros cidadãos".

O que acontece no mundo passa por aqui

Moda, esportes, política, TV: as notícias mais quentes do dia

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.