Internacional Cidade ucraniana tomada pela Rússia tem soldados em escola

Cidade ucraniana tomada pela Rússia tem soldados em escola

Volta às aulas em Volnovaja conta com hino russo e bandeira separatista hasteada, enquanto crianças tentam retomar rotina

AFP
Crianças de Volnovaja voltam à escola, enquanto soldados andam com fuzil pela rua

Crianças de Volnovaja voltam à escola, enquanto soldados andam com fuzil pela rua

Alexander Nemenov/AFP - 11.4.2022

No pátio da escola da pequena cidade ucraniana de Volnovaja, destruída por combates e ocupada pelas tropas russas, o hino nacional da Rússia recebe os alunos sob o olhar de soldados armados.

Dezenas de crianças fazem fila em frente ao estabelecimento para a cerimônia de volta às aulas, um mês depois de esta cidade cair nas mãos do Exército russo e de seus aliados separatistas.

Aqui não há nem eletricidade, nem telefone, segundo jornalistas da AFP que viajaram a Volnovaja em uma visita organizada pelo Exército russo.

As muitas casas destruídas em Volnovaja são testemunhas da disputa da cidade, situada no meio do caminho entre a capital separatista de Donetsk e a cidade portuária de Mariupol, que sofre há um mês e meio com o assédio das forças russas.

Volnovaja, que tinha cerca de 20 mil habitantes antes da guerra, foi "liberada" dos "neonazistas" ucranianos, segundo a narrativa russa, e a vida deve seguir seu curso.

"É hora de aprender. Depressa, crianças!", grita a seus colegas uma menina pequena de bochechas rosadas, com um microfone na mão e tranças nos cabelos.

Os dirigentes do colégio estão atrás dela, junto da bandeira russa e outra dos separatistas. Distante dali, mas ainda visível, um soldado com touca ninja e capacete observa a cena, com uma metralhadora nas mãos.

Quando soa o hino da Rússia, cuja música foi herança da União Soviética, as crianças escutam, mas não cantam, pois não sabem a letra. O mesmo acontece com o hino dos separatistas.

Sobreviver ao horror

A conquista de Volnovaja em 11 de março permitiu à Rússia cercar Mariupol pelo norte, um porto estratégico no mar de Azov, que já era atacado pelo leste e pelo oeste.

Antes disso e durante duas semanas, as defesas ucranianas da cidade sofreram ataques importantes.

Um mês depois da tomada de Volnovaja, os escombros cobrem as ruas, e muitas casas, lojas e infraestruturas civis estão em ruínas. Em frente a um hospital destruído, as árvores foram cortadas em dois pelos estilhaços.

A escola Nº 5, situada no centro da cidade, também foi alvo de bombardeios, e muitas salas de aula desapareceram.

"Sobrevivemos ao horror, houve terríveis bombardeios", conta Liudmila Jmara, de 52 anos, funcionária da escola. Mas ela preferiu ficar porque "o melhor lugar para se estar é em casa". Ela diz querer que Volnovaja faça "parte da Rússia" e que ninguém a "obrigue" a falar ucraniano nesta região do Donbass majoritariamente falante de russo.

Moscou justifica sua intervenção militar na Ucrânia como um dever de proteção dos "russos" do Donbass.

Viver em "um buraco"

O Exército russo não deixa nada ao acaso, nem mesmo diante da ausência de resistência armada: carros blindados e veículos militares russos com a letra "Z" pintada patrulham a cidade em meio a civis em bicicleta.

O hospital municipal funciona parcialmente, apesar dos muitos anos e da falta de energia elétrica.

Na penumbra, uma enfermeira, Natalia Nekrasova-Mujina, de 46 anos, afirma que os pacientes (tanto crianças quanto adultos e idosos) chegam sobretudo com ferimentos provocados por explosões de obuses.

A vida para os que ficaram continua sendo um desafio.

"Não temos gás, água, eletricidade nem telefone. Vivemos como que dentro de um buraco", diz Liudmila Dryga, uma aposentada de 72 anos.

Svetlana Shtsherbakova, 59 anos, afirma ter perdido tudo em um incêndio que arrasou sua casa. "Só nos chegou ajuda humanitária uma vez", explica com um fio de voz esta ex-chefe de segurança de um supermercado.

Um funcionário da companhia ferroviária, Anton Varusha, de 35 anos, considera que menos da metade dos moradores da sua rua voltou viva para Volnovaja.

"Ainda não sei se vou ficar. Por enquanto tenho meus pais, que são idosos e estão doentes", diz. "Tentamos ouvir emissoras de rádio diferentes para entender o que está acontecendo. Mas é difícil ter outras fontes de informação" sem internet nem eletricidade, explicou.

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