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Como a América do Sul se tornou a capital mundial do petróleo em ascensão

Brasil, Guiana e Argentina estão entre os cinco principais impulsionadores do crescimento global de petróleo

Internacional| Laura Paddison, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A América do Sul é emergente como um novo polo de produção de petróleo, com destaque para Brasil, Guiana e Argentina.
  • O Brasil lidera como o maior produtor da região, com novas descobertas que superaram 650.000 barris diários na Guiana e uma explosão na produção em Vaca Muerta, Argentina.
  • Apesar dos avanços, a exploração petroquímica ocorre em meio a preocupações ambientais e a iminência da crise climática, com eventos extremos afetando a população local.
  • Os líderes dos países envolvidos defendem que a produção de petróleo é crucial para o desenvolvimento econômico, enquanto enfrentam críticas sobre sua contradição em questões ambientais.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Brasil já aprovou a exploração de petróleo na Amazônia Anderson Coelho/Reuters via CNN Newsource

Na costa nordeste do Brasil, onde a água carregada de sedimentos do vasto Rio Amazonas deságua no Atlântico, existem dois tipos muito diferentes de tesouro.

O primeiro é uma joia ecológica: um recife de coral de águas profundas de 9.324 quilômetros quadrados descoberto há menos de uma década.


O segundo tesouro coloca o primeiro em perigo imediato. Bilhões de barris de petróleo podem estar nos sedimentos antigos sob o leito do mar, e licenças acabam de ser aprovadas para perfurar lá.

Algumas centenas de quilômetros ao norte, na costa da Guiana, empresas já estão bombeando cerca de 650 mil barris de petróleo por dia de um enorme reservatório de águas profundas descoberto em 2015.


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A descoberta transformou esse país coberto de florestas tropicais no mais novo petroestado do planeta e no maior produtor de petróleo per capita.

Vários milhares de quilômetros terra adentro ao sul, as vastas e poeirentas planícies de Vaca Muerta, no oeste da Argentina — “vaca morta” em português — estão repletas de poços de petróleo.


A produção de combustível fóssil deste enorme depósito de xisto explodiu na última década, colocando-a no caminho para produzir mais de 1 milhão de barris por dia até 2030, preveem analistas.

Bem-vindo à nova fronteira do petróleo da América do Sul.


“É realmente incrível o quão rápido e o quanto está se expandindo”, disse Nicole Figueiredo de Oliveira, diretora executiva da organização ambiental sem fins lucrativos Arayara.

Países de toda a região estão aumentando a extração, mas Brasil, Guiana e Argentina estão na vanguarda — entre os cinco principais impulsionadores do crescimento global de petróleo fora da Opec (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), o grupo dos principais exportadores de petróleo.

São três países muito diferentes: um gigante econômico com um presidente defensor do meio ambiente, um hotspot de biodiversidade com altas taxas de pobreza e um país economicamente volátil liderado por um negacionista climático empunhando uma motosserra.

No entanto, eles estão unidos em sua busca para expandir a produção de petróleo, argumentando que é vital para seu desenvolvimento econômico e social.

Esse novo boom de combustíveis fósseis está acontecendo justamente quando os impactos da crise climática — impulsionada pelos combustíveis fósseis — começam a se manifestar de formas cada vez mais alarmantes.

Pessoas na América do Sul estão morrendo em incêndios, inundações, tempestades e secas que se tornam mais longas e catastróficas devido às mudanças climáticas.

Papel do Brasil na COP30

O papel do Brasil como anfitrião da conferência climática COP30, que deveria ser uma cúpula histórica onde os países estabelecem metas para reduzir radicalmente a poluição que aquece o planeta, adiciona uma dissonância particular a esse aumento do petróleo.

Mas enquanto a demanda global por petróleo permanece forte, e outros países, mais ricos, mostram poucos sinais de redução, seu argumento é: Por que a oferta de petróleo não deveria vir da América do Sul?

O continente tem uma longa história de extração de combustíveis fósseis; detém as segundas maiores reservas de petróleo e gás depois do Oriente Médio.

No entanto, é uma das poucas regiões que não aproveitou o boom do petróleo no início deste século devido ao risco político e à aversão ao investimento privado, disse Francisco Monaldi, diretor do Programa de Energia da América Latina na Universidade Rice.

“Mas isso está mudando muito significativamente”, disse ele à CNN Internacional.

Descobertas recentes despertaram entusiasmo, especialmente porque o petróleo na América do Sul é tipicamente mais barato que a média — fontes de águas profundas, em particular, tendem a produzir grandes quantidades a um custo menor — e também tende a emitir níveis ligeiramente mais baixos de poluição climática por barril, pois muitas vezes requer menos processamento e é produzido usando infraestrutura mais nova e energia mais limpa.

Grandes companhias de petróleo, incluindo Exxon e Chevron, investiram pesado, vendo cifrões nos oceanos profundos e campos de xisto da América do Sul, justamente quando o boom do xisto nos EUA começa a estabilizar.

O Brasil é uma estrela: o maior produtor de petróleo e gás da região. A produção “atingiu níveis nunca antes vistos na região”, disse Monaldi.

Isso se deve em grande parte às reservas de petróleo “pré-sal” ultra-profundas descobertas em 2006, enterradas sob espessas camadas de sal antigo sob o oceano.

O petróleo bruto tornou-se a principal exportação do país em 2024 pela primeira vez, ultrapassando a soja, e há esperanças de que a produção aumente muito mais.

Em agosto, a BP (British Petroleum) anunciou que havia feito sua maior descoberta de petróleo e gás em 25 anos na costa do Rio de Janeiro.

Mais ao sul, perto do Uruguai, as companhias de petróleo esperam que a Bacia de Pelotas possa ser outra nova fronteira.

Talvez o projeto mais controverso seja o da foz do Rio Amazonas — a bacia da Foz do Amazonas — parte do que é conhecido como “Margem Equatorial”, um trecho do oceano ao longo da costa norte do Brasil.

Em junho, o Brasil leiloou vários blocos de petróleo offshore na região, 19 dos quais estão na Bacia Amazônica, para empresas como Chevron, Exxon e a estatal brasileira de petróleo Petrobras.

A Petrobras tenta perfurar aqui há muitos anos. Em 2023, a agência ambiental brasileira IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) negou-lhe uma licença de perfuração offshore, citando preocupações ambientais.

Mas no mês passado, a agência deu luz verde para a perfuração exploratória “após um rigoroso processo de licenciamento ambiental”, segundo um comunicado do IBAMA.

A tarefa da agência era avaliar apenas a “viabilidade técnica” do projeto, não o lado político ou estratégico da exploração de petróleo, disse um porta-voz do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil, que supervisiona o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

Qualquer processo envolvendo áreas de alto risco como a Foz do Amazonas “deve cumprir os mais rigorosos padrões técnicos, científicos e ambientais”, acrescentaram.

A decisão “é uma conquista da sociedade brasileira”, disse Magda Chambriard, presidente da Petrobras, em comunicado.

Defensores ambientais se opõem veementemente, argumentando que a perfuração nesta faixa ecologicamente delicada do oceano, com seus recifes únicos e enormes extensões de manguezais, poderia trazer consequências catastróficas.

Águas ultraprofundas e correntes fortes significam que qualquer derramamento de óleo poderia ser rapidamente varrido por quilômetros de oceano e litoral, e a distância do local de perfuração de grandes assentamentos poderia atrasar as operações de limpeza, disse Figueiredo de Oliveira, da Arayara.

‘Lula sempre foi pró-petróleo’

Aprovar a perfuração aqui poucas semanas antes do início da COP30 na cidade de Belém — conhecida como a porta de entrada para a Amazônia — apresenta uma ótica complicada para o Brasil, que tenta se equilibrar na corda bamba entre defensor ambiental e potência de combustível fóssil.

Os rios caudalosos e as chuvas abundantes do país significam que a maior parte de sua eletricidade vem de energia hidrelétrica limpa.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, presidiu uma queda acentuada no desmatamento e um aumento nas energias renováveis.

Mas Lula sempre foi pró-petróleo, disse Figueiredo de Oliveira. Ele saudou a grande descoberta do pré-sal no Brasil, feita durante seu mandato presidencial anterior.

Uma foto famosa o mostra levantando as mãos encharcadas de óleo em um evento da Petrobras em 2010.

Lula rejeitou firmemente as acusações de hipocrisia. “Eu não quero ser um líder ambiental. Eu nunca afirmei ser”, disse ele em uma reunião da COP30 na semana passada, acrescentando que seria “irresponsável” abandonar o petróleo.

Ele argumenta que a riqueza do petróleo pode ajudar a financiar a transição de energia limpa do Brasil, embora alguns temam que a busca para se tornar uma grande potência petrolífera apenas a atrase.

“Cada nova descoberta atrasa o esforço para tirar o mundo dos combustíveis fósseis; há uma perda de impulso”, disse Michael Ross, professor de ciências políticas da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Talvez a principal narrativa de Lula seja que as receitas do petróleo fornecerão uma rota para o desenvolvimento e um caminho para sair da pobreza, especialmente para os estados amazônicos mais pobres do país.

Mas o Brasil já é uma potência “com muitas outras oportunidades econômicas”, disse Ross à CNN Internacional.

O argumento de que o petróleo é vital para o desenvolvimento pode ser mais fácil de defender em um país como a Guiana, onde cerca de 48% vivem com menos de US$ 5,50 (cerca de R$ 30, cotação atual) por dia, segundo o Banco Mundial.

A Guiana, que tem uma geologia semelhante à Margem Equatorial do Brasil, está passando por um notável boom de petróleo.

A descoberta offshore de 2015 “representa um dos marcos mais transformadores” na história moderna do país, disse o presidente Irfaan Ali.

Isso transformou a nação de cerca de 820 mil pessoas na economia de expansão mais rápida do mundo. “Nunca vimos um país produzir tantos barrís per capita na história (da região)... eles pertencem agora à categoria dos países do Oriente Médio”, disse Monaldi.

O governo insistiu que pode equilibrar a exploração de petróleo com as prioridades ambientais. A Guiana é um dos poucos países que armazena mais poluição que aquece o planeta do que produz, devido às suas vastas florestas tropicais. Também afirma que as receitas impulsionarão o crescimento socioeconômico.

“Não vemos contradição entre o desenvolvimento responsável do nosso setor de petróleo e gás e nosso compromisso em proteger o clima do planeta”, disse Ali à CNN Internacional.

Ambos são “partes integrantes de uma única missão nacional” para reduzir a pobreza, impulsionar a economia e proteger o meio ambiente, disse ele.

Mas há preocupações de que a Guiana possa ser vítima da “maldição dos recursos”, na qual lucros inesperados podem piorar a vida de quem vive lá.

A Venezuela, por exemplo, detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e mergulhou no autoritarismo e na crise econômica.

Ali insiste que a maldição dos recursos “não é um destino” e que a riqueza do petróleo se traduzirá em “benefícios para todas as famílias”.

No entanto, alguns residentes dizem que enfrentam custos de vida altíssimos que culpam o desenvolvimento do petróleo, e os resultados de saúde do país permanecem abaixo da média regional, segundo o Banco Mundial.

O petróleo sul-americano não se resume apenas a águas profundas. A enorme região de xisto da Argentina, Vaca Muerta, frequentemente comparada à Bacia do Permiano no Texas, detém as segundas maiores reservas mundiais de gás de xisto e as quartas maiores de óleo de xisto.

É a grande esperança de recuperação econômica da Argentina sob o presidente libertário Javier Milei. “Quase tudo gira em torno da expansão de Vaca Muerta”, disse Gabriel Blanco, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade Nacional do Centro de Buenos Aires e ex-diretor nacional de mudanças climáticas da Argentina.

“Petróleo e gás são uma venda muito fácil internamente”, disse Blanco à CNN Internacional.

A mudança climática “nunca esteve” na agenda pública ou política, disse ele. Em vez disso, “a narrativa diz que vamos ficar ricos e vamos nos desenvolver”.

Vaca Muerta é uma proposta atraente para as empresas de combustíveis fósseis. O xisto é um tipo de investimento muito diferente da perfuração em águas profundas, disse Monaldi.

As empresas podem gastar quantias relativamente pequenas para ver se conseguem recuperar seu dinheiro antes de investir mais. Isso incentiva o investimento na Argentina, um país com “alto risco político e regulatório”, disse ele.

Mas especialistas ambientais temem os impactos desse campo de xisto em expansão. Os combustíveis fósseis são extraídos por “fracking”, um processo que envolve perfurar a Terra e injetar fluidos em alta pressão.

“Eles usam muita água, muita areia e produtos químicos, e então é uma bagunça”, disse Blanco.

Exatamente como o futuro do petróleo da América do Sul se desenrolará ainda não está claro. Novas descobertas no Brasil podem se revelar menos viáveis do que o esperado.

Para projetos que já estão perfurando e bombeando, as reservas muitas vezes se esgotam antes do previsto, disse Ross, da UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles).

A demanda por petróleo também deve atingir o pico no início da próxima década, o que pode significar que os países que investem pesado em combustíveis fósseis se verão presos a uma indústria não lucrativa.

“Esses países estão chegando à festa bem na hora que o bar está fechando”, disse Ross.

Por enquanto, no entanto, a demanda permanece. “Enquanto ainda houver uma lacuna entre a produção atual e a demanda, haverá investimento em novos projetos”, disse Flávio Ferreira Menten, analista da empresa de pesquisa Rystad Energy.

Há também considerações geopolíticas. Se a produção de petróleo dos Estados Unidos não continuar crescendo, a América do Sul “se torna muito mais importante”, disse Monaldi, caso contrário, o mundo corre o risco de se tornar dependente de países como Arábia Saudita e Rússia.

O que está acontecendo na América do Sul é reflexo de algo maior, segundo Blanco.

O caso de amor da região com os combustíveis fósseis é parte de um movimento global, disse ele: um consenso implícito — e às vezes explícito — de que a exploração de petróleo pode e deve continuar por décadas, mesmo diante de uma crise climática galopante.

“Parece que os líderes decidiram pisar fundo no acelerador e avançar com os combustíveis fósseis em todos os lugares”, disse ele, “não importa o que aconteça”.

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