Internacional Como o Acordo de Oslo foi da esperança ao impasse em 25 anos

Como o Acordo de Oslo foi da esperança ao impasse em 25 anos

Israel e palestinos chegaram a entendimento na ocasião, mas a violência e o radicalismo adiaram o sonho de Itzhak Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat

Acordo Oslo, Israel, palestinos

Rabin conversa com Arafat e Peres ouve

Rabin conversa com Arafat e Peres ouve

Getty Images/Yaakov Saar/10-12-94

Com espírito conciliador, que contagiou israelenses e palestinos das alas mais moderadas, Itzhak Rabin (primeiro-ministro de Israel), Shimon Peres (ministro das Relações Exteriores de Israel) e Yasser Arafat (líder da OLP - Organização para a Libertação da Palestina) surpreenderam o mundo há 25 anos ao assinarem o Acordo de Oslo.

Desde aquele 13 de setembro em Washington, o acordo de paz trouxe transformações, já que israelenses e palestinos finalmente reconheceram uns aos outros. Por outro lado, a partir dele, as negociações ficaram paralisadas.

Ainda houve tentativas de avanços nos governos de Ehud Barak (1999-2001) e Ehud Olmert (2006-2009), anteriores ao do atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu (1996-1999 e 2009 até hoje), mas as tensões já haviam retornado e impediram qualquer entendimento na prática.

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, Samuel Feldberg, o reconhecimento mútuo foi ainda mais importante do que a autonomia concedida à Faixa de Gaza e a parte da Cisjordânia, até então ocupadas por Israel.

"O acordo teve uma importância muito grande. Se tiver que escolher um elemento para definir esta importância é o fato de que o acordo gerou um reconhecimento mútuo entre os israelenses e os palestinos. Essa foi a grande mudança, todo o resto foi consequência disto."

Feldberg destaca que, por causa de todo esse impasse posterior, pode-se dizer que, na prática, o acordo não deu certo.

"Seria irresponsável falar o contrário. E não deu certo porque não houve engajamento das duas partes e manutenção da confiança mútua para realizar tudo o que estava previsto."

Para o professor de Inteligência da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), Ricardo Gennari, houve uma mudança no panorama da região e, hoje, um novo acordo está mais distante.

"Não vejo nem a curto nem a médio prazo qualquer tipo de acordo. Israel, por sua vez, não abre mão de sua segurança e de sua soberania."

Nobel para Rabin, Arafat e Peres

Por causa dos acordos, Rabin, Arafat e Peres receberam o Prêmio Nobel da Paz em 1994. Mas um dos pontos que dificultaram sua continuidade foi o assassinato de Rabin, um dos protagonistas, alvejado pelo extremista judeu Ygal Amir, em 4 de novembro de 1995, quando participava de um comício pela paz na então Praça dos Reis, agora Praça Yitzhak Rabin, em Tel Aviv.

O extremismo islâmico aproveitou o acontecimento para ganhar espaço. Após uma onda de atentados na segunda metade dos anos 90, o Hamas, desde 2002, organiza ataques com mísseis desde a fronteira com a Faixa de Gaza.

Israel, além de retaliar duramente, devido à sua ampla superioridade bélica, há mais de dez anos impõe constantes bloqueios terrestre, marítimo e aéreo, afirmando que, entre os produtos que chegam, estão armamentos a serem utilizados em ataques. 

O Egito também impõe bloqueios à Faixa de Gaza. A escassez de alimentos e as dificuldades econômicas da região também pressionam o Hamas, já que, segundo o Banco Mundial, 80% dos cerca de 2 milhões de habitantes dependem de ajuda vinda de fora.

Como nasceu o acordo
Peres, Arafat e Rabin receberam o Nobel da Paz

Peres, Arafat e Rabin receberam o Nobel da Paz

Getty Images/Yaakov Saar/10-12-94

Este histórico acordo de paz, determinou, entre outras novidades, a autonomia para os palestinos de parte da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.

Outro acordo complementar, o Oslo 2, foi assinado pelos três líderes, também com o testemunho do então presidente americano Bill Clinton, em 28 de setembro de 1995.

É verdade que o próprio Rabin só soube das negociações secretas quando elas estavam avançadas. Tal situação apenas facilitou aquilo que ele já tinha como objetivo quando assumiu o cargo: a paz.

Na campanha que o levou a se tornar primeiro-ministro de Israel, pela segunda vez, em 1992, ele deixou claro que era a hora de buscar a conciliação, após muitos anos, como general, participando de guerras contra os países vizinhos, que garantiram a sobrevivência de Israel.

Naqueles anos 90, Israel sofria com a Primeira Intifada, revolta de palestinos contra a ocupação israelense de Gaza e da Cisjordânia e contra a má qualidade de vida naquelas regiões.

Ao perceber que a negociação entre as lideranças locais palestinas e os israelenses, realizadas meses antes em Madrid sem muito sucesso, incomodavam Arafat, exilado em Túnis, Rabin buscou trazer o líder palestino para uma negociação de cúpula, diante de vários consensos já obtidos.

O entendimento gerou a Declaração de Princípios costurada por meses por pessoas ligadas aos dois governos, como o professor de História, Yair Hirschfeld, do lado israelense, e o economista Ahmad Qurei (Abu Ala), pelos palestinos.

Hirschfield era um homem de confiança do vice-ministro do Exterior Yossi Beilin, que ficou interessado na oferta do vice-ministro do Exterior norueguês, Jan Egeland, quando este ofereceu seu país para sediar encontros secretos para um acordo de paz.

Um dos pontos defendidos por Hirschfield, que abriu caminho para um entendimento, foi a orientação ao governo israelense: "Comece por Gaza", disse. Tal passagem está no livro “Yitzhak Rabin - o soldado da paz”, escrito pela equipe do The Jerusalem Report.

Hirschfield queria dizer que, do ponto de vista político, por Gaza ter menor ligação com a população israelense, ceder naquela região iria facilitar as negociações gerais.

Arte R7

Antes de tudo, no entanto, era preciso unir os próprios israelenses. Com pragmatismo, Rabin iniciou um governo de união nacional, aliando-se inclusive ao seu maior rival interno: Shimon Peres, alçado ao cargo de Ministro das Relações Exteriores. E depois, organizou uma equipe que se aproximou do até então maior desafeto de Israel: Yasser Arafat, presidente da Organização da Libertação da Palestina, exilado em Túnis.

Depois, nas negociações, Israel acabou reconhecendo a OLP como legítima representante palestina. Para Rabin e Peres foi algo difícil, diante da série de atentados organizados pela entidade contra Israel, nos anos 70 e 80.

Para Rabin mostrar que a segurança de Israel era prioridade na negociação e que as mortes não seriam esquecidas, na cerimônia do aperto de mãos, em Washington, estiveram presentes vários parentes de vítimas de atentados. Arafat também retirou da carta de princípios da OLP parágrafos que não aceitavam a existência de Israel.

Peres e Rabin estavam hesitantes em ter de apertar a mão do comunicativo Arafat, que parecia menos incomodado com o fato. Havia pouco mais de um ano, isso seria impensável, tamanho o discurso hostil entre os lados. Mas, aos poucos, todos foram se acostumando com a ideia e o momento, enfim, ficou eternizado.

A paz com a Jordânia
Jordânia formalizou paz com Israel

Jordânia formalizou paz com Israel

Getty Images/Salah Malkawi/15-05-02

Uma das consequências mais benéficas do acordo foi o fato dele ter sido determinante para a Jordânia, enfim, se ver livre para formalizar a paz com Israel. Os dois governos já demonstravam certa sintonia. Na Conferência de Madrid, prenúncio do Acordo de Oslo, já haviam adiantado um tratado de paz entre os dois países.

A aproximação, porém, já se esboçara bem antes, em 1947, quando a então chefe do departamento político da Agência Judaica, Golda Meir (primeira-ministra de Israel entre 1969 e 1974), foi bem recebida pelo rei jordaniano Abdullah, para negociar a saída da Jordânia do bloco que iria entrar em confronto com Israel.

Abdullah nada pôde fazer para evitar o conflito. Mas demonstrava claros sinais de que, mais cedo ou mais tarde, a paz com Israel seria assinada.

E isso finalmente ocorreu em 1994, no regime do rei Hussein, menos de um ano após o acordo de Oslo. Feldberg destaca que, após os palestinos reconhecerem Israel, o caminho ficou livre para a Jordânia.

"A Jordânia sempre foi o país menos hostil a Israel desde antes da criação do Estado em 1948, mas os jordanianos não se deram ao luxo de fazer a paz antes do Egito e dos palestinos. Tanto que ela veio no ano seguinte, impulsionada pelo final do confronto aberto entre palestinos e Israel."

Até então, qualquer governante jordaniano que buscasse uma aproximação com Israel estaria ameaçado.

O próprio Abdullah foi assassinado por um nacionalista, em 1951, quando visitava a Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, acusado de ter se reunido com representantes israelenses e aceitado a partilha da Palestina. A cena brutal foi testemunhada por Hussein, que é pai do atual rei jordaniano Abdullah II. Hussein era neto de Abdullah e herdou o trono aos 17 anos, em 1952.

Mas, com o acordo de Oslo, o panorama se modificou para a Jordânia, segundo Feldberg.

"Como houve expectativa no avanço nas relações entre israelenses e palestinos, os jordanianos puderam fazer acordo também, mesmo porque a maior parte da população da Jordânia é palestina. Qualquer acordo da Jordânia antes de Oslo seria visto como uma traição à causa palestina e geraria possivelmente uma revolta popular muito forte."

Recrudescimento do conflito
Conflito na Faixa de Gaza se intensificou

Conflito na Faixa de Gaza se intensificou

Getty Images/Ilia Yefimovich/08-06-18

Mas com o recrudescimento do conflito, as dificuldades em reencontrar um caminho de entendimento ficaram bem maiores. Feldberg afirma que a tal falta de engajamento acabou por deteriorar muito do que foi conquistado. E agora, a passagem do tempo impede que tudo seja retomado do mesmo ponto.

"Tanta coisa aconteceu, tantas mudanças em 25 anos que obviamente os dois lados sempre vão tentar partir do ponto que mais interessa a cada um para uma nova negociação. Obviamente que agora as partes não vão querer ficar com o que foi definido no Acordo de Oslo. Isso faz parte de qualquer negociação. Por isso é mais difícil, já existem condições pré-definidas que fazem os negociadores acharem insuficiente o que já foi acordado, buscando novos ganhos na negociação."

Em 2006, a situação se radicalizou ainda mais em Gaza, já que naquele ano o Hamas teve mais candidatos do que a Fatah eleitos no Parlamento. Isso provocou confrontos entre as partes e uma cisão entre os palestinos. O Hamas passou a comandar a Faixa de Gaza, e a Fatah (ligada à Autoridade Palestina), a Cisjordânia. Feldberg comenta.

"Hoje se pode dizer que a Autoridade Palestina, Israel e o Egito são os inimigos do Hamas, existe uma convergência de interesses entre eles. Se for para se fazer um acordo de paz obviamente tem que ter o Hamas, que representa hoje parcela significativa da população. O problema é que o Hamas não reconhece o direito de existência do Estado de Israel. Eles estão dispostos apenas a fazer um acordo de cessar-fogo, eventualmente de longo prazo, mas não um acordo de paz que reconheça Israel."

Feldberg considera que a questão religiosa está mais presente agora do que nos tempos da OLP.

"A diferença é que para o Hamas é uma questão religiosa, o Hamas teria que renegar sua crença religiosa como grupo fundamentalista islâmico para poder aceitar um acordo com Israel. Já a OLP é um grupo laico, na época fez um acordo viável sobre a divisão do território. Essa é a diferença fundamental, por isso não há expectativa do lado israelense de se chegar a um acordo com o Hamas."

O perfil mais negociador do Hamas é o do vice-presidente Saleh al-Arouri. Yahya Sinwar, seu rival, é contra qualquer acordo, mesmo de cessar-fogo, pois mantém o objetivo de conquistar o poder em Gaza e na Cisjordânia, após a saída do atual presidente da ANP, Mahmoud Abbas.

Neste imbróglio, o líder do Hamas, Ismail Haniyah, fica no papel de mediador entre as duas partes. E Feldberg vê que mesmo as diferenças internas não interferem no discurso oficial do grupo.

"O Hamas tem um braço político e um militar. Mas os dois têm um fundo religioso. O braço político é mais pragmático até aceita a ideia de uma trégua e o braço militar é um braço radical que não aceita negociar."

A volta da Rússia
Putin retomou protagonismo russo em negociações

Putin retomou protagonismo russo em negociações

Getty Images/Mikhail Klimentiev/07-05-06

As negociações secretas, realizadas por meses em Oslo, capital da Noruega, tiveram a anuência dos Estados Unidos. Aquele era o momento propício para implementar a paz, segundo Gennari. A Rússia, que sempre foi um dos principais atores por trás dessas negociações, estava enfraquecida por uma crise econômica, em uma transição desde o fim da União Soviética.

Os interesses da região, com Irã, a própria Rússia, o fortalecimento do Hezbollah, a mudança de estratégia da Arábia Saudita, a guerra na Síria e até a entrada da Turquia no cenário mudaram completamente o contexto.

"Os interesses hoje são antagônicos, a questão ficou abandonada por isso. Não se consegue estabilizar esse tema. Aquela região, principalmente com a Rússia retomando o protagonismo, ficou ainda mais complexa."

A presença da Rússia, retratada na imagem forte do presidente Vladimir Putin, em tese, fortalece o Irã. E isso atinge a outra ponta deste emaranhado de interesses: a Arábia Saudita, que, mesmo se aproximando mais de Israel, acabou por se distanciar de outros países árabes. Gennari diz que isso, no momento, é outro fator impeditivo para um novo acordo.

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