Confissões de um dono de armas liberal
Nova legislação proposta por Obama deverá alterar a compra armamento nos EUA
Internacional|Do R7

Sou um liberal nascido e criado na Nova Inglaterra. Vivi boa parte de minha vida no nordeste dos Estados Unidos – Boston, Nova York, Filadélfia – e sou um democrata devoto. Ao longo de três décadas, votei apenas uma vez em um republicano, em uma eleição municipal na qual o candidato democrata parecia ser mentalmente desequilibrado.
Apesar disso, vivo no Texas e sou dono de armas. Tenho meia dúzia de pistolas no meu cofre, todas semiautomáticas, das quais a maior tem capacidade para 20 projéteis. Vou ao campo de tiro uma vez por semana, desejo obter uma licença de porte de arma oculta e planejo realizar um curso de treinamento tático na primavera. Atualmente estou em busca de uma espingarda e não sei se compro uma Remington 870 Express Tactical, ou uma Mossberg 500 Flex com cabo de pistola e coronha ajustável.
Exceto pelas espingardas (o soco que dão se parece com o de um caçador de recompensas), gosto muito de atirar. No campo onde treino, boa parte da equipe me conhece de vista e até me chama pelo nome. Sou um cara que usa óculos de metrossexual e camisas polo Ralph Lauren, e sempre faço muitas perguntas: Qual é a melhor maneira de fazer a mira com os dois olhos abertos? Como tiro um projétil engasgado no cano?
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Sinto prazer em exercer meus direitos, em aprender algo novo na meia idade e em dominar a operação de uma ferramenta complexa, que é exatamente o que as armas são. Contudo, não posso negar o poder psicológico sedutor das armas de fogo. Cresci brincando de atirar, fingindo ser Starsky ou Hutch, ou um dos patrulheiros de "Adam-12", dois dos programas policiais mais chatos da história.
Uma famosa teoria sugere que os meninos são ao mesmo tempo conscientes de sua própria falta de poder e da exigência social de que sejam protetores dos inocentes. Brincar de atirar em bandidos alivia essa ansiedade, que nunca desaparece completamente. Essa explicação faz muito sentido pra mim. Outra palavra para isso é catarse e é possível dizer que, como romancista, vivo exatamente disso.
Há muitas razões para que as armas tenham um efeito positivo sobre mim, mas também tenho armas para proteger minha família. Espero nunca ter de usá-las com essa finalidade e acredito que isso seria pouco provável. Contudo, sou a última linha de defesa de minha família. Em parte, escolhi me armar para tomar conta dessa responsabilidade. Não foi uma escolha que fiz com facilidade. Estou ciente de que, do ponto de vista estatístico, ter armas em casa é muito mais perigoso para os moradores do que para possíveis invasores. Contudo, nem todas as escolhas que fazemos se baseiam em dados. Muitas são feitas com o coração.
A não ser pelas armas nos coldres de policiais, acho que não havia visto uma arma em funcionamento até um ano depois de me formar, quando a amiga de uma namorada decidiu mostrar o calibre 38 que carregava na bolsa, depois de tomar uns drinks a mais. (Quase a festa inteira tentou se esconder, inclusive eu.)
Eu já tinha 40 e poucos anos quando comecei a aprender mais sobre armas, enquanto escrevia um romance que tratava de armas como pistolas, espingardas e rifles, além de armas pesadas como o AR-15 e sua versão militar, o M-16. Imaginei (com razão) que quase todos os tiroteios que havia visto em filmes e pela televisão estivessem completamente errados e contratei um instrutor para me dar aulas particulares durante um dia inteiro, no qual me ensinou a "atirar com todas as armas da loja". O rapaz que conheci poderia ser chamado de "maluco por armas". Ex-morador de Nova York, havia se mudado para o Texas por conta dos fracos controles de armas e afirmava ter sempre uma arma à mão, mesmo quando estava no banho. Em outras palavras, ele era perfeito para meus objetivos.
Meu relacionamento com armas de fogo acabaria aí, não fosse por uma coincidência climática. Todo mundo se lembra do furacão Katrina; mas poucas pessoas ainda recordam o furacão Rita, uma tempestade ainda mais intensa que se dirigiu a Houston apenas um mês depois. Minha esposa e eu resolvemos ficar na casa de um amigo em Austin e arrumamos as coisas, as crianças e o cachorro antes de fugir – ou tentar fugir – da cidade. Quase 3,7 milhões de pessoas tiveram a mesma ideia, transformando o Rita em uma das maiores evacuações da história, com resultados previsíveis. Às duas da manhã, após seis horas na estrada, havíamos percorrido apenas 90 quilômetros. A cena parecia uma foto do Apocalipse: multidões dirigindo incansavelmente, postos de gasolina e lojas de conveniência vazias e com lixo espalhado pelo chão, famílias dormindo nos acostamentos. A situação dava a impressão de um caos precariamente organizado. Após o Katrina, ninguém mais se iludia com a possibilidade de socorro. Também concluí que haveria muitas armas rodando por ali – afinal de contas, estávamos no Texas. Estava com duas crianças pequenas, milhares de dólares em dinheiro nos bolsos, um furgão velho com meio tanque de gasolina e apenas um livro grande para me defender. Quando minha esposa não me deixou sair do carro para que o cachorro pudesse ir ao banheiro, cheguei ao meu limite. Cortamos o canteiro central e, em menos de uma hora, já estávamos em casa.
Conforme todos sabem, o Rita acabou dando meia volta e indo embora de Houston. Mas e se isso não tivesse acontecido? Acredito que as pessoas são boas, mas não todas, nem sempre. Assim como muitos cidadãos de nosso mundo moderno e tecnológico, confio de olhos fechados em uma rede muito frágil de serviços que garantem minhas necessidades mais básicas. O que aconteceria se esses serviços deixassem de existir? A resposta é o caos.
Isso não aconteceu do dia para a noite, mas em pouco tempo minhas opiniões liberais sobre a questão das posse de armas mudaram drasticamente, embora outras tenham continuado iguais. A primeira pistola que escolhi era uma pequena Walther .380. Dei tiros suficientes para concluir que aquela arma não passava de lixo e a troquei por uma Springfield de 9 milímetros da qual gostei, mas escolhi substituí-la por uma ótima Smith & Wesson subcompacta que faz um ótimo trabalho. Contudo, acabei me apaixonando por uma Beretta M-9, e assim por diante.
Muitas pessoas de ambos os lados do espectro político possuem armas de fogo, ou não, por razões mais importantes que suas afiliações políticas e culturais. Vamos deixar claro: apesar de meu arsenal particular, acho que a posse de armas é muito pouco regulada. É fácil demais comprar armas – uma vez comprei uma em um estacionamento – e detesto a Associação Nacional de Rifles. Algumas das propostas do governo Obama parecem ser mais simbólicas que eficazes, com cerca de 300 milhões de armas de fogo soltas pelo mundo. Mas as recomendações da Casa Branca parecem um bom começo e nada que me impediria de proteger minha família no caso de uma crise. O AR-15 é uma arma fascinante e, sinceramente, ótima de atirar. Contudo, tanques de guerra também são e eu não quero comprar um.
Ainda bem que os dias de política "a la carte" acabaram. Os maiores culpados disso tudo são a extrema direita e os pronunciamentos lunáticos de pessoas como Rush Limbaugh. Mas nas semanas desde o massacre de Newtown, acompanhei minha linha do tempo no Facebook, que foi dominada por meus amigos liberais e mensagens contra as armas que pareciam distantes da realidade. Concordo que seria bom se o mundo não tivesse absolutamente nenhuma arma. Mas não acredito que isso possa ocorrer em breve, e chamar donos de armas de "um bando de caipiras estúpidos" não fomenta uma discussão racional.
Essa é minha vida secreta – embora acredite que não seja mais tão secreta assim. Minha esposa tem medo das minhas armas (embora também goste de tê-las em casa). Com minha filha de 16 anos, a história é diferente. Na semana anterior a suas provas semestrais, permitimos que ela faltasse na escola por um dia – uma tradição em nossa família. A regra é fazer o que ela quiser. Dessa vez, ela pediu para fazer uma aula de tiro. Ela também é liberal, mas nasceu no Texas e não ignora o fato de que uma em cada cinco americanas já foi vítima de violência sexual. Na sala sem janelas do campo de tiro, o instrutor ensinou o básico, mostrando o funcionamento de uma Glock 9 milímetros: como segurá-la, carregá-la e recarregá-la.
"Talvez você tenha dificuldade com isso", afirmou. "Muitas mulheres têm esse problema."
"Sério?", respondeu minha filha com um sorriso, antes de recarregá-la com tanta autoridade que dava para ouvi-la do estacionamento.
O papai ficou orgulhoso? Confesso que sim.
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