Diário de um Repórter Brasileiro na Ucrânia

Internacional Dia 10: a vovó ucraniana disposta a pegar em armas para defender seu território 

Dia 10: a vovó ucraniana disposta a pegar em armas para defender seu território 

O repórter Leandro Stoliar está em Donetsk, uma das regiões declaradas independentes pelo presidente russo, Vladimir Putin

  • Internacional | Leandro Stoliar, da Record TV

Valentyna tem 79 anos e é avó de duas crianças

Valentyna tem 79 anos e é avó de duas crianças

Leandro Stoliar/Record TV – 22.02.2022

Depois da decisão de Vladimir Putin de reconhecer os territórios ucranianos controlados por grupos separatistas como independentes da Ucrânia, o clima de tensão piorou aqui no leste do país. Para você entender: o lado ucraniano da fronteira no leste do país é cheio de cidades e localidades. Elas fazem parte da região conhecida como Donbass. As mais importantes localidades são Donetsk e Lugansk, onde grupos separatistas pró-Rússia travam uma batalha com o Exército ucraniano há oito anos. Ainda assim, essas regiões são divididas. Em Donetsk, uma parte é controlada pelos rebeldes, e a outra, de onde escrevo agora, pela Ucrânia.

Estamos na cidade de Mariupol, em Donetsk – que faz parte de Donbass. Mas por que estou contando tudo isso? Porque, quando o presidente russo reconheceu Donetsk e Lugansk como territórios separatistas independentes, ele não disse onde ficam os limites dessas fronteiras. Nesta terça, dia 22 de fevereiro de 2022, ele decidiu que toda a região de Donbass faz parte do território separatista, mas a maior parte é controlada pelo Exército ucraniano.

Ao mesmo tempo em que Putin disse isso numa entrevista, ele também anunciou que enviou as tropas russas para a região para "garantir a paz". Significa que esta cidade de onde falo pode ser invadida a qualquer momento pelas tropas russas.

Há vários prédios destruídos

Há vários prédios destruídos

Leandro Stoliar/Record TV - 22.02.2022

Decidimos, então, sair para visitar os limites da cidade, perto da zona de conflito. Nesse lugar, moradores vivem apreensivos com a possibilidade de uma invasão. O pequeno bairro é cheio de prédios destruídos e com paredes furadas por tiros de fuzis e estilhaços de bombas. Há muitas pessoas morando aqui, mas poucas gravam entrevistas. Entre os prédios e a zona de conflito há um descampado de 7 quilômetros. Eles veem ataques e ouvem tiros quase todas as noites. A maioria lembra quando os bombardeios começaram, há oito anos.

Mostrar essa realidade e não ficar impactado é quase impossível. Mas teve uma história que me chocou um pouco mais. A história da dona Valentyna, uma idosa de 79 anos que produz camuflagem e cintos de artilharia para os militares na zona de guerra de maneira voluntária. Um vídeo da dona Valentyna com um fuzil Kalashnikov nas mãos rodou o mundo. Avó de duas crianças, ela ficou famosa depois que foi gravada no treinamento dos muitos grupos de resistência que aprendem as técnicas para atuar na hora da guerra.

A vovó ucraniana me conta que, desde que a Crimeia foi tomada pela Rússia, em 2015, ela tem o sonho de aprender a atirar para ajudar o Exército na defesa do território. "Aprendi a me movimentar, a atirar, a recarregar. Só fiz a primeira aula, mas vou voltar em toda", me conta, animada. Ela diz ainda que pode precisar ajudar um soldado ferido, e que, se um inimigo se aproximar, ela terá que saber atirar também.

Valentyna ficou famosa no país como a "vovó simpática". Mas só longe do campo de batalha.

R7

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