Internacional Dia da Imigração Judaica: 'Renasci no Brasil', diz imigrante polonesa

Dia da Imigração Judaica: 'Renasci no Brasil', diz imigrante polonesa

A data de 18 de março foi estabelecida em 2009, para celebrar a contribuição do povo judeu na formação da cultura brasileira

Resumindo a Notícia

  • Flora Zymberg, de 89 anos, está entre os que deixaram a Europa por causa do antissemitismo
  • Muitos judeus chegaram ao Brasil durante o período colonial, em cidades como Recife
  • Na Segunda Guerra Mundial, houve nova leva de imigrantes que sobreviveram ao nazismo
  • A integração dos judeus no Brasil se deu com mais força a partir dos anos 50
Encontro de gerações em sinagoga

Encontro de gerações em sinagoga

Acervo pessoal

A senhora Flora Zymberg, de 89 anos, tem uma memória privilegiada. Lembra-se de detalhes da chegada ao Brasil, ouve bem, não titubeia enquanto fala e até soletra palavras com dinamismo. Mas, ao contar sobre o período anterior aos seus quatro anos de vida, algo além da tenra infância a impede de se lembrar de acontecimentos marcantes.

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O impacto da vida na Polônia, envolvida em um antissemitismo escancarado, fez muitas imagens se apagarem. Apenas um ou outro flash vem à mente quando ela fala dessa parte da infância no país onde nasceu, anterior à fuga do país, em 1935, para desembarcar após três semanas em território brasileiro.

Flora nasceu na Polônia

Flora nasceu na Polônia

Acervo pessoal

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Nascida em 31 de julho de 1931, ela se lembra apenas de uma vez em que sua mãe, Fany, atravessou a floresta com ela no colo, porque na sua cidadezinha de origem, Kurosvekia, não havia médico.

A menina de lindos olhos azuis e cachos dourados havia sido ferida pela chifrada de um boi e, na aldeia vizinha, só conseguiu o atendimento de um shoichet, profissional que abate animais seguindo rituais religiosos.

"Praticamente não me lembro dos meus primeiros quatro anos de vida. Aqueles dias foram traumáticos, pelo que me contaram. Meus irmãos e familiares eram apedrejados por serem judeus. Meu pai (Henrique Eisenberg, primeiro sobrenome de Flora), trabalhava com botas e perdeu o emprego. Não encomendavam mais nada dele. Não tínhamos o que comer. Alguém, então, disse para o meu pai, antes da guerra, que no Brasil havia emprego e que nascia dinheiro em árvores", conta.

Fugindo de perseguições

Cerimônia judaica em sinagoga paulista

Cerimônia judaica em sinagoga paulista

Mujano

E neste 18 de março, data em que mais uma vez é celebrado o Dia Nacional da Imigração Judaica, a senhora Flora aumenta o tom de voz, se inflama para dizer que, mesmo com todas as dificuldades, e não foi fácil, a chegada ao Brasil, no Porto de Santos, foi como uma vacina que conteve a intolerância virulenta e febril da qual eles não conseguiam se livrar.

"Primeiro veio o meu pai, que trabalhou na rua vendendo cobertores e colchas. Ia a pé de um bairro ao outro. No Brasil, havia gente boa. Quando os fiscais se aproximavam, alguns colegas avisavam e escondiam meu pai", conta.

Aos poucos, o sr. Henrique ia juntando dinheiro e, com o auxílio financeiro dos irmãos de Fany nos EUA, pertencentes à família Milgrorm, conseguiu trazer todos os filhos, num total de cinco.

Flora e seus familiares deixaram a cidade em uma carroça, andando por longos dias até chegarem a uma estação de trem e partirem rumo à Itália, atravessando vários países. Embarcaram de Trieste, no navio Neptunia, rumo ao distante Brasil.

Os últimos dois irmãos permaneceram na casa da tia e se juntaram anos depois à família. Flora conta que vieram no último navio que partiu antes da guerra ter início, em 1939.

No tempo em que ficaram na Polônia, enquanto sr. Henrique se arrumava no Brasil, morando no bairro do Brás, em São Paulo, Fany se desdobrava em meio à total falta de condições de vida.

"Chegamos a retroceder a eras ancestrais, baseada em troca. Minha mãe trocava penas de ganso por comida, quando tinha. Ela foi uma heroína, conseguindo, sozinha, nos manter vivos, até que conseguíssemos deixar o país", conta Flora.

Razão da data

Data lembra contribuição judaica ao País

Data lembra contribuição judaica ao País

Mujano

Há correntes que falam da presença de judeus no Brasil durante a antiguidade, em navegações contemporâneas das dos fenícios (1.500 a.c a 300 a.c). No entanto, a imigração judaica para o Brasil, formalmente, teve início no período colonial, inicialmente como cristãos-novos sefarditas (judeus originários da Península Ibérica e Norte da África), vindos de Portugal e chegando ao Nordeste, no século 16.

"O impacto da vinda dos judeus portugueses no período colonial é grande até hoje, principalmente no aspecto etnográfico. É difícil encontrar famílias nordestinas que não possuam ascendência serfardita. Isso se torna particularmente importante, no momento que Portugal acena para a reintegração nacional dos descendentes de judeus precisaram deixar o antigo reino por causa das perseguições religiosas", afirma o escritor Jacques Ribemboim, entre outros, professor titular da UFRPE (Universidade Federal Rural de Pernambuco) e professor convidado do Brooklyn College (New York).

Durante a ocupação holandesa, entre 1630 e 1654, conta o professor Ribemboim, muitos judeus vieram de Amsterdã e formaram as duas primeiras congregações israelitas das Américas, uma no Recife e outra na vizinha Cidade Maurícia, cada qual com sua sinagoga. Uma delas, a da Kahal Kadosh Tzur Israel, foi reconstituída e se mantém aberta ao público desde 2002.

O dia 18 de março foi escolhido como Dia Nacional justamente em função da reinauguração desta sinagoga, ocorrida nesta data. O projeto de lei, de autoria do então deputado federal, Marcelo Itagiba, foi sancionado em 2009. A data foi estabelecida para celebrar a contribuição do povo judeu na formação da cultura brasileira.

"Quanto à participação na vida social e econômica, desde os primórdios do descobrimento, os judeus ocuparam posição relevante no desenvolvimento da região. Começando com a exploração do pau-brasil (mais conhecido na época como pau-de-pernambuco), passando pela expansão da indústria açucareira, exercendo o comércio internacional", diz Ribemboim.

Depois de um período de intergação da comunidade à vida do país, a imigração judaica para o Brasil foi retomada em 1810, com a maioria dos imigrantes chegando do Marrocos, onde eram obrigados a viver em guetos.

Eles se estabeleceram principalmente em Belém, ciclo da borracha, na virada para o século 20, e lá fundaram, em 1824, a segunda mais antiga sinagoga do Brasil, a Shaar Hashamain. Cerca de 18 anos depois, também inauguraram o primeiro cemitério israelita do país.

A partir do início do século 20, no entanto, foi a vez dos asquenazes (judeus vindos do Leste Europeu) retomarem a imigração judaica para o Brasil. Os progroms (ataques a aldeias judaicas) e o antissemitismo aceleraram a vinda de judeus para o Nordeste, e outras regiões brasileiras, procedentes da Polônia e da Bessarábia, então parte da Rússia que hoje engloba a Ucrânia, Romênia e Moldávia.

Eles formaram comunidades em Salvador, Recife, Natal, Campina Grande, Maceió, Curitiba e Porto Alegre, entre outros. No Rio Grande do Sul, em 1904, há registros da primeira colônia gaúcha, em Philippson, região de Santa Maria, quando 37 famílias chegaram da Bessarábia.

Entre 1910 e 1930, conta Ribemboim, vieram, em menor número, sefarditas da Turquia e da Grécia que se estabeleceram no Nordeste.

Ao longo dos anos, principalmente com a vinda de judeus refugiados da Segunda Guerra Mundial, eles se estabeleceram em bairros, como Bom Retiro (São Paulo) e Bom Fim (Porto Alegre), em que voltaram a reproduzir cenários de comércio e convívio similares aos dos tempos da Europa.

Dificuldades e integração

Sinagoga em Recife é a primeira do Brasil

Sinagoga em Recife é a primeira do Brasil

Niels Andreas/Agência Estado/16-10-05

Nos anos cinquenta, uma leva de judeus vinda do Egito, por causa da Guerra de Suez, também se fixa em cidades brasileiras.

Mesmo no Brasil, a intolerância muitas vezes esteve presente. Houve momentos na presidência de Getúlio Vargas em que, alinhado com o nazismo, o governo brasileiro impediu a chegada de judeus, conforme registram documentos da época. Ribemboim fornece um retrato da situação com os acontecimentos em Recife, na época.

"No período anterior à guerra e logo em seu início, o integralismo (corrente nazifascista) ganha força e grupos xenófobos desfilavam nas ruas do bairro da Boa Vista com slogans de ultranacionalismo e xenofobia, aos gritos e com punhos serrados. A sede deste grupo, de orientação fascista, ficava na Rua do Aragão, no meio das residências dos israelitas do Recife", conta.

Era uma fase em que não eram raros os judeus que buscavam esconder a própria identidade, para fugir de revistas policiais, ser aceito por colegas ou conseguir empregos. As possibilidades, no entanto, foram melhorando com a mudança de lado de Vargas, que em 1941 passou a apoiar os aliados, impelido pelo presidente americano Franklin Delano Roosevelt.

"De início, Getúlio Vargas teve uma inclinação para o lado ítalo-germânico, mas no correr da guerra, aderiu aos aliados. Foi um alívio para a comunidade judaica de Pernambuco, que passou a receber alguns dos refugiados do conflito", acrescenta Ribemboim, ressaltando que no Brasil como um todo a situação não foi muito diferente.

Os níveis de perseguição, muito menores do que em relação à Europa, foram arrefecendo, possibilitando que a comunidade judaica se integrasse com maior naturalidade à sociedade brasileira, principalmente a partir dos anos 50.

"O Brasil permitiu que imigrantes judeus reconstruíssem suas vidas com acolhimento e liberdade, e nossa comunidade, pequena mas diligente, retribuiu com muito amor e trabalho. Aqui criamos nossas famílias, criamos empresas, desenvolvemos carreiras profissionais nas mais diversas áreas de atuação e conhecimento. Por isso a comunidade judaica brasileira está tão bem integrada à comunidade maior de brasileiros, com diversidade e dedicação ao país generoso que acolheu nossos pais e avós", afirma Claudio Lottenberg, presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil), fundada em 1948, dois anos depois da Fisesp (Federação Israelita do Estado de São Paulo), ambas com o objetivo de organizar a imigração do pós-guerra dos judeus refugiados na Europa para o Brasil. 

Chegada no Carnaval

Carnaval na capital paulista, nos anos 30

Carnaval na capital paulista, nos anos 30

Agência Estado/01-02-1930

Caracterizada por ser urbana e com baixa taxa de natalidade, a comunidade judaica brasileira tinha 2,3 mil pessoas em 1872, segundo o professor Reuven Faingold. Veio aumentando a partir de então impulsionado por uma era de tolerância no reinado de Dom Pedro II, um imperador encantado pela liturgia bíblica e pelo idioma da antiguidade.

Em 1940, o número de judeus no país era de 55.563, chegando a 96.199 em 1960 e caindo para  86.417 em 1991. A partir de então, voltou a crescer, indo para 107.329, segundo o Censo de 2010, e 120 mil em 2021.

Entre eles estão os três filhos, 10 netos e oito bisnetos de Flora, ou melhor, de Marjem Blima, seu nome verdadeiro.

Flora foi o nome "escolhido"pelos funcionários da imigração no momento da chegada. Algo muito comum em relação à imigração judaica. Por não saberem a língua, muitos imigrantes gesticulavam, murmuravam, buscavam ser compreendidos e não eram. E, por isso, ganhavam novos nomes no Brasil.

"Quando eu cheguei, minha mãe gesticulava, tentando dizer que Marjem Blima era o meu nome. Os funcionários imaginaram que ela poderia estar se referindo à vasta flora do país, por causa do jeito intenso com que gesticulava. E passei a ser conhecida como Flora. Mas meu nome original é Marjem Blima, e depois o inclui nos documentos", afirma.

A vida, para Marjem Blima, parece que começou no momento em que seu pai foi buscá-la no porto, após semanas de viagem em que ficou com sarampo, isolada em um quartinho no navio.
Quando chegou, um novo mundo se abriu. Ela se tornou Flora. Do alto dos ombros do seu pai, viu pessoas dançando, multidões e, literalmente, sentiu calor. Era Carnaval e as ruas estavam pulsantes.

"Me lembro até hoje da minha chegada. Me assustei com tanta gente, com a nova língua, não entendia nada. Era um calor danado. Ficamos em uma casa de imigrantes em Santos. Depois de um tempo, fomos morar no Brás, em São Paulo. Foi difícil no começo, também passamos fome. Mas, no Brasil, havia possibilidades de resolvermos nossos problemas. Como? Trabalhando."

Ela observa que a possibilidade de lutar por meio do trabalho acabou salvando a família.

"Trabalhei, como meus irmãos, ajudando o meu pai, desde menina. Fazíamos tudo a pé, para não gastar em transporte. E fomos nos estabelecendo no país, comprando a primeira casa. Foi difícil, no início evitávamos falar que éramos judeus, mas o país nos acolheu e posso dizer que renasci no Brasil."

Gosto de liberdade

Flora se naturalizou brasileira

Flora se naturalizou brasileira

Paulo Pinto/Agência Estado/16-06-1998

Aos 18 anos, Flora conheceu seu marido, Icko Zymberg, em um baile comunitário, um dos únicos lugares possíveis para uma moça judia na época. Ambos se casaram em 1950, quando ela tinha 18 anos. Eles se naturalizaram brasileiros.

"Atualmente os jovens vão às baladas. Na época só frequentávamos o Macabi (clube e social), o Círculo Israelita ou o Progresso, que tinham também matinê. Mas minha mãe ia junto. Ela balançava a cabeça aprovando ou não o rapaz. O Icko foi inteligente, ele conquistou meus irmãos e então nos conhecemos", lembra, com bom humor.

O casal se separou em 1976, ano em que ainda não havia o divórcio. 

"Sempre fiz questão de estudar, sou uma curiosa por natureza. Sonhei com a Medicina, não deu para uma mulher naquela época seguir neste caminho. Iniciei a contabilidade, mas meu então noivo não quis que eu continuasse, por ciúmes dos colegas...Então conclui o curso de Secretariado e de Higiene Mental do Comportamento Humano. Já com mais idade, continuei fazendo cursos, frequentando a Faculdade da Terceira Idade da USP, onde me formei na área de Saúde. E quando me separei, voltei a trabalhar, desta vez vendendo roupas finas para conhecidos. Nunca parei", conta ela, que também realizou trabalhos voluntários, colaborando por alguns anos com o Ten Iad, que fornece ajuda para pessoas carentes.

Já adultos, seus irmãos, mais velhos, voltaram para Kurosvekia, realizados, para rever a casa da infância. Tentar compreender a mistura de dor e de esperança que brotava enquanto, quando não eram perseguidos, eles podiam patinar no gelo ou brincar no quintal. Raros momentos.

"Eles foram para o quintal e colheram uma maçã. Fizeram questão de trazê-la para o Brasil dividi-la entre nós todos. Cada um comeu um pedaço, teve um gosto especial", lembra Flora, remetendo à situação em que eles tinham de dividir um pedaço de pão velho, sonhando em sentir o gosto da liberdade.

No país tropical, Flora percebeu que o dinheiro não nascia na árvore. Mas poderia nascer do esforço, da superação, deixando para trás o legado do passado. Os estudos na Escola Normal Padre Anchieta ajudaram.

"O judaísmo, eu aprendi em casa. Não tínhamos dinheiro para estudar em escola particular. Mas todos da minha família estudaram e progrediram, se tornaram advogados, médicos, fiscais federais, professores. Olhando para trás vi que plantamos uma semente. As atuais gerações não imaginam o que é sofrimento. O sacrifício que fizemos para sobreviver e seguir em frente", destaca.

Para pessoas como Flora, o Brasil foi sim o país do futuro. E este Dia da Imigração Judaica significa, para todos eles, um dia especial. Simboliza, nada mais, nada menos, do que o direito de existir. Pode até ser com um novo nome. Mas com a mesma identidade.

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