Em meio à tensão da cobertura da guerra, repórter da Record TV diz que 'o medo protege'
André Tal não está na linha de frente, mas encara o medo diário de fazer reportagens sob a ameaça de um ataque aéreo russo
Internacional|Pablo Marques, do R7

O trabalho diário de um jornalista é estressante e exige muita agilidade para acompanhar o que é notícia a cada momento. Essa situação pode ficar mais complexa se a redação for trocada por um ambiente hostil, como uma guerra.
O repórter da Record TV André Tal é um desses profissionais que têm no currículo coberturas históricas. Atualmente, ele acompanha os desdobramentos da guerra entre Rússia e Ucrânia, o maior conflito na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.
Tal está em Lviv, uma cidade próxima da fronteira com a Polônia e que não é alvo frequente dos russos, mas o jornalista já vive a realidade de um país que se encontra sob ataque desde o dia 24 de fevereiro.
Desafios da cobertura
Tal relata que enfrenta dificuldades em gravar na Ucrânia porque soldados, policiais e outras pessoas das forças de segurança não querem ser filmados e costumam suspeitar da imprensa.
“Muitas vezes quando estamos passando com a câmera na rua eles param a gente e pedem os nossos documentos. Eles ficam desconfiados porque existe um medo de que agentes infiltrados russos estejam se passando por jornalistas”, conta o repórter da Record TV.
O repórter afirma que já foi abordado durante entrevistas e nos deslocamentos nas estradas. Algumas vezes pedem até para ver a reportagem que está sendo produzida – sem contar o risco de estar nas ruas de uma cidade que pode ser atacada.
“Hoje eu estava fazendo uma gravação no centro e as sirenes começaram a tocar, avisando que um míssil ou um avião estava passando por perto. Eu tive que correr para um abrigo antiaéreo. Felizmente não houve um bombardeio, mas é sempre uma tensão”, relata o jornalista.
Tal está fazendo reportagens para todos os jornais da Record e diz que o volume de trabalho é grande por ser um assunto muito importante. Apesar da pressão e do risco, ele fala dos momentos em que o trabalho é reconhecido e elogiado durante a guerra. Alguns ucranianos se aproximam da equipe para agradecer, e até militares se manifestam: “Mostre ao mundo o que está acontecendo”.
Momento marcante

A equipe da Record TV chegou à Ucrânia pela fronteira com a Polônia. Em uma situação comum, bastaria mostrar o passaporte e entrar no país. Durante uma guerra, fazer o caminho contrário ao das pessoas que estão fugindo do perigo exige um esforço muito maior.
“Não podia passar a fronteira a pé. Então nós ficamos implorando para alguém dar uma carona. Um casal aceitou nos levar e, assim que passamos o posto de imigração ucraniano, eles pediram para a gente descer”, lembra.
Um produtor estaria esperando, mas ficou preso em um bloqueio que estava a cerca de um quilômetro. A distância não era tanta, o complicado era carregar malas e equipamentos por uma estrada escura de um país em guerra.
“Nós estávamos caminhando quando fomos tomados por uma onda de refugiados, mulheres, idosos e crianças. Foi ali que eu senti o drama humanitário acontecendo. As pessoas, desesperadas, tentando fugir para sobreviver e pedindo ajuda”, diz.
Tal não está tão próximo do leste da Ucrânia onde os confrontos são mais intensos, mas isso não significa que o risco não exista. No domingo (13), ele foi acordado pelo barulho de duas explosões na base militar ucraniana que fica próxima da fronteira com a Polônia, na região de Lviv. O ataque deixou a Otan em alerta e aumentou a tensão na guerra. “Eu estou angustiado. Não estou em Kiev, mas aqui a sirene soa a todo momento.”
O repórter classifica a cobertura da guerra na Ucrânia entre as três coberturas mais tensas ao lado do acidente nuclear de Fukushima, em 2011, e a onda de atentados terroristas na Europa em 2015 e 2016, ao Bataclan e ao Charlie Hebdo.
Relação com outros jornalistas
Os jornalistas que fazem cobertura de guerra costumam acompanhar diversos conflitos ao longo da carreira e assim conhecem profissionais de outros veículos e de vários países.
“Os jornalistas conversam e se ajudam, e tem até um grupo dos produtores locais, mas no dia a dia é cada um por si correndo atrás da sua pauta, das informações e fazendo os seus boletins.” A morte de três jornalistas nesta semana abalou quem está trabalhando na Ucrânia. Aleksandra Kurshynova, Brent Renaud e Pierre Zakrzewsk foram vítimas do confronto na região de Kiev. Tal não conhecia nenhum dos três, mas a notícia da morte o assustou.
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“São profissionais que estavam aqui tentando levar informação para o público. Dói saber que companheiros de profissão morreram fazendo o que eu faço. Eles tiveram um fim de vida longe de familiares, amigos e de seu país.” E completa: “Em uma cobertura como essa, a gente vê como a vida é frágil”.
Limite do perigo

Estar em uma zona de guerra apenas para relatar o que está acontecendo é muito provavelmente uma das ocupações mais perigosas. Ainda assim, muitos jornalistas se arriscam e fazem de tudo para ir em busca da notícia.
“Jornalista é assim: quanto mais você vai ficando à vontade, mais você quer avançar nas pautas. Tem a adrenalina, o aspecto de chegar aonde pouca gente chega e a paixão pela informação”, explica Tal.
O repórter da Record TV diz que assume alguns riscos, mas com cuidados. Ele afirma não ter o perfil daqueles que conseguem ficar no fogo cruzado e controlam o medo.
“É muito perigoso, e precisa ter muita cautela. O medo é importante porque ele te protege de assumir riscos maiores.”
Os motivos de Tal para evitar pôr a vida em risco são a família e a própria saúde. “Eu sou casado, tenho dois filhos pequenos e tenho uma questão de saúde, então tem um limite até onde eu vou.”
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