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Epstein tentou conquistar a simpatia de autoridades russas, incluindo Putin, mostram arquivos

Emails indicam contatos com autoridades russas; Polônia fala em investigação, e Kremlin rejeita acusações

Internacional|Isabelle Khurshudyan, Zahra Ullah e Austin Culpepper, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Jeffrey Epstein tentava se aproximar de autoridades russas, incluindo Putin, para transmitir mensagens e propor reuniões.
  • Documentos divulgados revelaram seus contatos com políticos, como o ministro Sergei Lavrov e o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak.
  • A investigação na Polônia foi iniciada devido a suspeitas de possíveis vínculos de Epstein com a inteligência russa.
  • O Kremlin negou que Epstein fosse um espião russo, enquanto analistas sugerem que ele buscava se conectar com figuras influentes.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Jeffrey Epstein e Vladimir Putin
Documentos indicam que Epstein tentou se aproximar de Putin, sem confirmação de encontro Montagem - Divulgação/Via Reuters e Sputnik/Vyacheslav Prokofyev/Pool via Reuters

Jeffrey Epstein tinha uma mensagem que queria transmitir ao presidente da Rússia, Vladimir Putin.

Era junho de 2018, cerca de um ano após a morte repentina de Vitaly Churkin, embaixador russo nas Nações Unidas. Churkin era alguém com quem Epstein se reunia regularmente em Nova York, segundo novos documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, e a quem ele chegou a oferecer ajuda para que o filho, Maxim, conseguisse um emprego em uma empresa de gestão de patrimônio em Nova York.


Agora, Epstein queria falar com outro funcionário russo: o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov. Em 24 de junho de 2018, Epstein enviou um email ao político norueguês Thorbjørn Jagland, então secretário-geral do Conselho da Europa: “Acho que você poderia sugerir a Putin que Lavrov poderia obter informações falando comigo. Vitaly Churkin costumava fazer isso, mas morreu!?”

Jagland respondeu que se reuniria com o assessor de Lavrov na segunda-feira seguinte e faria a sugestão.


Epstein respondeu: “Churkin era ótimo. Ele entendeu Trump depois de [nossas] conversas. Não é complicado. É preciso ver para conseguir algo, simples assim”.

Embora o interesse de Epstein em recrutar modelos na Rússia e em outras partes do Leste Europeu já tivesse vindo a público anteriormente, a divulgação mais recente de documentos relacionados ao financista em desgraça oferece uma nova perspectiva sobre suas tentativas de se aproximar de altos funcionários russos, incluindo Putin, com quem Epstein tentou se reunir ou falar em várias ocasiões.


Suspeitas e reações políticas na Europa

A nova série de documentos, que mostra mais comunicações de Epstein com políticos internacionais, incluindo autoridades russas, deu origem a mais especulações sobre os motivos do bilionário. O primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, disse em uma reunião de gabinete nesta semana que o país abrirá uma investigação sobre possíveis vínculos de Epstein com a inteligência russa.

“Há cada vez mais indícios, mais informações e mais comentários na imprensa internacional que apontam para a suspeita de que esse escândalo de pedofilia sem precedentes foi coorganizado pelos serviços de inteligência russos”, afirmou Tusk.


“Não preciso dizer o quão grave é, para a segurança do Estado polonês, a possibilidade — cada vez mais provável — de que os serviços de inteligência russos tenham coorganizado essa operação”, acrescentou. “Isso só pode significar que eles também possuem material comprometedor contra muitos líderes que ainda estão em atividade hoje”.

O Kremlin descartou as sugestões de que Epstein fosse um espião da Rússia.

“A teoria de que Epstein era controlado pelos serviços de inteligência russos pode ser interpretada de qualquer maneira, menos levada a sério”, disse na quinta-feira o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov. Ele acrescentou que os jornalistas “não deveriam perder tempo” investigando as acusações de que Epstein tinha vínculos com a inteligência russa.

Emails revelam tentativas reiteradas de encontro com Putin

Analistas alertaram à CNN que os documentos sugerem pouco mais do que a tentativa de Epstein de se misturar com figuras influentes e se posicionar como uma espécie de ator geopolítico poderoso.

Os documentos não indicam se Epstein conseguiu, de fato, entrar em contato com o líder russo.

Em 9 de maio de 2013, segundo os documentos, Epstein escreveu ao ex-primeiro-ministro de Israel Ehud Barak que Jagland “vai ver Putin em Sochi” no dia 20 de maio e que Jagland perguntou se Epstein estaria disponível para se reunir com o presidente russo “para explicar como a Rússia pode estruturar acordos a fim de incentivar o investimento ocidental”.

“Nunca me reuni com ele, queria que você soubesse”, acrescentou Epstein no email a Barak.

Alguns dias depois, em 14 de maio de 2013, Jagland disse a Epstein que planejava transmitir uma mensagem a Putin em nome dele, indicando que Epstein poderia ser útil. “Tenho um amigo que pode ajudá-lo a tomar as medidas necessárias [e depois apresentá-lo] e perguntar [se] ele tem interesse em se reunir com você”, escreveu Jagland em um email a Epstein.

Epstein respondeu: “Ele está em uma posição única para fazer algo grandioso, como o Sputnik fez na corrida espacial. Você pode dizer a ele que você e eu somos amigos e que eu assessoro Gates. Isso é confidencial. Ficaria feliz em me reunir com ele, mas por no mínimo duas ou três horas, não menos”.

Por meio de um porta-voz, o bilionário Bill Gates descreveu publicamente seu encontro com Epstein como um “grave erro de julgamento”, mas negou qualquer conduta inadequada.

Ainda assim, em outro email enviado a Barak em 21 de maio de 2013, Epstein afirmou, sem apresentar provas, que havia recusado um pedido de Putin para se reunir durante uma conferência econômica russa em São Petersburgo. Epstein disse que, se Putin quisesse se encontrar com ele, “teria de reservar tempo de verdade e privacidade”. (Não está claro se Putin realmente solicitou um encontro com Epstein.)

A CNN entrou em contato com o Kremlin para comentar a correspondência de Epstein com Barak.

Mais de um ano depois, em julho de 2014, um email enviado a Epstein sugere que ele tinha uma reunião marcada com Putin e que havia convidado o fundador do LinkedIn para participar. Joi Ito, então diretor do MIT Media Lab, escreveu a Epstein: “Não consegui convencer o Reid a mudar a agenda para ir se reunir com Putin com você. ;-)”.

Ito já havia pedido desculpas anteriormente por sua associação com Epstein e por aceitar financiamento para o MIT Media Lab.

Algumas das comunicações de Epstein com figuras russas de destaque ocorreram em um momento delicado para as relações entre Estados Unidos e Rússia, após a Comunidade de Inteligência dos EUA acusar a Rússia de interferir nas eleições presidenciais de 2016, vencidas por Donald Trump.

Em junho de 2018, Jagland enviou um email a Epstein dizendo que esperava se hospedar em sua residência em Paris e que chegaria vindo de Moscou, onde planejava se reunir com Putin, Lavrov e Dmitri Medvedev, então primeiro-ministro da Rússia.

“Sinto não poder estar com você para se reunir com os russos”, respondeu Epstein.

Na quinta-feira, a unidade de investigação norueguesa Økokrim anunciou que havia aberto uma investigação sobre Jagland com base nas informações contidas nos documentos de Epstein.

Em nota, o advogado de Jagland, Anders Brosveet, afirmou que seu cliente cooperaria com a investigação e forneceria “constatações-chave e a documentação pertinente” à agência. “Com base no que descobrimos até agora, continuamos confiantes no resultado”, disse Brosveet.

Jagland negou qualquer irregularidade relacionada a Epstein.

Relação com figuras ligadas ao Estado russo

Os documentos sugerem que Epstein tinha uma relação próxima com pelo menos um russo ligado ao FSB, o principal serviço de segurança da Rússia e sucessor da KGB. Epstein se referiu a Sergey Belyakov — que, segundo a agência estatal russa TASS, formou-se na Academia do FSB em Moscou, em 1999 — como “meu grande amigo” em um email enviado em 2015 ao bilionário investidor de capital de risco Peter Thiel.

Os documentos mostram que Epstein se ofereceu para apresentar Belyakov, que à época chefiava a Fundação do Fórum Econômico de São Petersburgo, responsável por organizar a maior conferência econômica da Rússia.

Após participar do SPIEF (Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo) em 2015, Barak informou a Epstein que havia se reunido com várias autoridades russas, entre elas Lavrov, a presidente do Banco Central da Rússia, Elvira Nabiullina, e vários dirigentes de bancos russos.

“Obrigado por [organizar] tudo”, escreveu Barak em um email a Epstein.

O escritório de Barak disse à CNN que as visitas do ex-primeiro-ministro israelense ao SPIEF “sempre foram feitas a convite” do gabinete de Putin. A nota afirmou que Epstein tinha interesse em assuntos russos e em se reunir com Putin, mas que Barak “nunca mencionou” o nome de Epstein ao Kremlin, e que apenas “ocasionalmente discutia” com ele questões internacionais e “mencionava algumas pessoas com quem havia se reunido”.

Em uma troca de emails entre Belyakov e Epstein em 2016, Belyakov disse a Epstein que havia iniciado um novo cargo no RDIF (Fundo Russo de Investimento Direto), o fundo soberano do país, e que buscava atrair investimentos para projetos russos.

“Farei qualquer coisa que seja útil para você”, escreveu Epstein a Belyakov em outro email mais tarde naquela mesma semana.

Episódios envolvendo chantagem e negócios

Epstein também recorreu a Belyakov em busca de ajuda pelo menos uma vez. Em uma correspondência de 2015, Epstein escreveu a Belyakov que uma “garota” russa de Moscou estava tentando chantagear um “grupo de poderosos” empresários de Nova York e que “isso era ruim para os negócios de todos os envolvidos”. Epstein então disse a Belyakov quando a mulher havia chegado a Nova York e em qual hotel estava hospedada, e perguntou: “Alguma sugestão?”.

A CNN tenta entrar em contato com Belyakov e procurou o RDIF para comentar o caso.

Epstein também afirmou prestar aconselhamento ao oligarca russo Oleg Deripaska. Em um email de 2018 trocado com Jide Zeitlin, ex-CEO da Coach e investidor privado, Zeitlin agradeceu a Epstein por suas “reflexões sobre Deripaska”, que havia sido sancionado pelos Estados Unidos apenas um mês antes. Epstein encaminhou a correspondência a Steve Bannon, ex-estrategista-chefe de Trump.

“Apenas para mantê-lo informado”, escreveu Epstein a Bannon.

Deripaska, sanções e contatos indiretos

Um email de novembro de 2010 incluído nos arquivos faz referência a uma tentativa de alguém que dizia ser assessor de Epstein de marcar uma reunião entre Epstein e alguém identificado como “Oleg”.

“Escrevo para ver quais são as possibilidades de Jeffrey e Oleg se reunirem em Moscou na terça ou quarta-feira da próxima semana. Ou talvez Oleg tenha planos de estar em Paris na próxima semana?”, escreveu a pessoa. Os nomes do remetente e do destinatário foram suprimidos nos arquivos divulgados.

Não está claro se Epstein e Deripaska chegaram a ter contato ou se encontraram. O porta-voz de Deripaska disse à Bloomberg que não conhecia Epstein pessoalmente. A CNN entrou em contato para obter um comentário.

Masha Drokova Bucher e o círculo pessoal de Epstein

Outra russa na órbita de Epstein era Masha Drokova Bucher, uma investidora de capital de risco de 37 anos que foi assessora de imprensa de Epstein em 2017, ajudando-o após sua condenação em 2008 por solicitação de serviços de prostituição. Bucher era conhecida na Rússia por ter sido integrante do Nashi, um movimento juvenil pró-Putin, onde chegou a ter seu próprio programa de televisão. Ela apareceu em um documentário de 2012 sobre o movimento, intitulado Putin’s Kiss, em referência a um momento famoso em que beijou Putin no rosto.

Bucher afirmou posteriormente que deixou o movimento e renunciou à cidadania russa em 2022, após a invasão da Ucrânia.

Ela e Epstein pareciam ter uma relação próxima. Em 2017, ela perguntou a Epstein em um email se ele havia ouvido algo sobre possíveis sanções a empresas com pesquisa e desenvolvimento na Rússia, já que isso poderia afetar “alguns bons amigos”. Ele então disse que a apresentaria a Thiel.

Mais tarde, Bucher enviou a Epstein vídeos dela cantando e disse que se sentia “recarregada” por não “consumir substâncias por um tempo”. Ela atribuiu a Epstein o mérito de tê-la ajudado a criar seu fundo, a Day One Ventures, em 2018.

“Tenho pensado em todas as coisas boas que você me ensinou”, disse ela em uma mensagem de texto a Epstein em 2019. “Eu nunca teria criado meu fundo sem as ideias e os conhecimentos que você compartilhou comigo, e eu amo muito meu trabalho. Obrigada por ser um amigo tão maravilhoso, Jeffrey!”

Em 2022, o The Washington Post informou que Bucher se gabava, diante de investidores, de suas conexões com oligarcas russos, mas ela rejeitou essas acusações e negou ter recebido financiamento russo.

Bucher não respondeu ao pedido da CNN para comentar suas conexões com Epstein. Thiel também não respondeu aos pedidos de comentário para esta reportagem.

Viagens à Rússia e registros oficiais

Embora não esteja claro com que frequência Epstein viajava à Rússia, registros de voo analisados pela CNN e divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA confirmam que ele visitou o país. Epstein e Ghislaine Maxwell viajaram para a Rússia entre 22 e 24 de novembro de 2002, voando de Copenhague para o aeroporto de Vnukovo, em Moscou, no avião particular de Epstein, segundo os registros de voo e um email de 2018 publicado pelo Departamento de Justiça. Em seguida, o casal voou para São Petersburgo, aterrissando no aeroporto de Pulkovo no mesmo dia. Depois, em 24 de novembro, o registro de voo mostra que ambos partiram no mesmo avião com destino à Irlanda.

Uma foto publicada na conta do Flickr de Esther Dyson, em 2005, mostra Epstein em Sarov, na Rússia, em frente à casa de Andrei Sakharov. Sakharov trabalhou na bomba de hidrogênio soviética e depois ficou conhecido como dissidente. A foto, geolocalizada pela CNN, tem data de 28 de abril de 1998, embora a emissora não consiga verificar de forma independente quando ela foi tirada.

Dyson, que na época atuava na criação de startups no Leste Europeu e na Rússia, confirmou a autenticidade da foto. Sarov é uma cidade russa que abriga um centro fechado de pesquisa nuclear, e sabia-se que Epstein tinha grande interesse por ciência e tecnologia.

Epstein voltou a solicitar um visto russo em 2018, segundo os emails divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA. Outro email indica que sua equipe perguntou sobre a transferência de seu visto russo válido para um novo passaporte em março de 2019, poucos meses antes de sua prisão por acusações federais relacionadas ao tráfico sexual de menores.

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