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Escassez de água preocupa população do Oriente Médio afetada pela guerra do Irã

Especialistas alertam que um ataque coordenado a essas usinas seria uma escalada de guerra

Internacional|Laura Paddison, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • A escassez de água no Oriente Médio aumenta a preocupação da população devido à guerra com o Irã.
  • A região depende fortemente da dessalinização, com milhões de pessoas abastecidas por usinas que podem se tornar alvos de ataques.
  • Especialistas alertam que danificar essa infraestrutura poderia ter consequências devastadoras para a segurança hídrica e a sobrevivência da população.
  • A mudança climática e possíveis conflitos representam riscos futuros adicionais para os recursos hídricos da região.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Um drone iraniano danificou uma usina de dessalinização na região Majid Asgaripour/WANA via Reuters - 10.03.2026

Nas noites mais difíceis e de insônia, Sofia se preocupa se as torneiras vão secar. “No fim das contas, estamos em um deserto”, comentou a residente dos Emirados Árabes Unidos.

O petróleo e o gás podem ser o núcleo da economia, mas a água é “a base da nossa sobrevivência”.


À medida que a guerra com o Irã se intensifica, seus temores também aumentam. “Se eu me colocasse no lugar do inimigo, na falta de um termo melhor... é isto que eu atacaria, nossos recursos mais valiosos... Nunca pensei que poderia correr o perigo de não ter água potável”, declarou Sofia, que pediu para que seu nome real não fosse revelado.

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Ela não está sozinha; em toda a região, cresce a preocupação de que uma de suas maiores forças possa se tornar alvo de guerra.


Os países áridos do Golfo, incluindo os Emirados Árabes Unidos, dependem excepcionalmente da dessalinização, o processo de converter água do mar em potável.

Por isso, esta região com escassez extrema de água abriga campos de golfe exuberantes, vastos parques aquáticos e pistas de esqui; também por isso, enfrenta uma vulnerabilidade cada vez mais alarmante.


Autoridades bareinitas informaram no domingo (1) que um drone iraniano danificou uma usina de dessalinização, embora não tenha afetado o fornecimento de água.

O ataque ocorreu após a acusação do ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Aragchi, de que os Estados Unidos tinham atacado uma usina de dessalinização na ilha iraniana de Qeshm, afetando 30 aldeias, o que ele classificou como uma “ação perigosa”. Os Estados Unidos negaram envolvimento.


Este aparente “olho por olho” destaca o perigo potencial representado pelas centenas de usinas de dessalinização do Golfo, que abastecem de água potável aproximadamente 100 milhões de pessoas.

Embora o Irã ainda obtenha a maior parte de sua água de rios e águas subterrâneas, o Golfo conta com escassos recursos naturais desse recurso doce. Alguns países, como Kuwait, Omã e Bahrein, dependem da dessalinização para obter quase toda a sua água potável.

Um ataque concentrado contra essa infraestrutura seria uma “escalada quase impensável”, declarou à CNN Internacional Michael Christopher Low, diretor do Centro de Oriente Médio da Universidade de Utah.

Mas os especialistas dizem que as normas da guerra estão mudando.

Se os ataques às usinas de dessalinização forem “o começo de uma política militar e não simplesmente erros ou danos colaterais, isto é ilegal — um crime de guerra — e um fato muito preocupante, já que os países (do Golfo) só têm armazenamento de água para algumas semanas”, observou Laurent Lambert, professor associado de políticas públicas no Instituto de Estudos de Pós-Graduação de Doha, no Catar.

O petróleo e o gás transformaram o Golfo de uma região caracterizada por estados escassamente povoados em países ricos, com cidades brilhantes e agitadas, em questão de décadas.

Mas o que muitos ignoram nesta história é o impacto da dessalinização, impulsionada pelo próprio petróleo e gás, que permitiu o boom demográfico em países desérticos com poucos rios.

A dessalinização converte água do mar em água potável removendo o sal, os minerais e as impurezas, seja aquecendo-a ou impulsionando-a através de membranas de alta pressão. É um processo caro e de alto consumo energético.

Os países do Golfo se tornaram “reinos de água salgada”, afirmou Low, que escreve um livro sobre o tema com o mesmo título. “Eles são superpotências mundiais na produção de água marinha artificial gerada a partir de combustíveis fósseis”.

A dependência disparou. No Kuwait e em Omã, gira em torno de 90%, no Bahrein 85% e na Arábia Saudita, cerca de 70%. As principais cidades do Golfo, como Abu Dhabi, Dubai, Doha, Cidade do Kuwait e Jidá, dependem agora quase totalmente de água dessalinizada.

A dessalinização é, ao mesmo tempo, um milagre e uma vulnerabilidade para a região. “Suas economias, e até a sobrevivência a curto prazo de sua população, dependem em grande medida da segurança dessas usinas”, afirmou Nader Habibi, professor de Economia do Oriente Médio na Universidade Brandeis.

Atacar infraestrutura civil vital é contrário ao direito internacional. Seria uma escalada provocadora lançar um ataque coordenado contra usinas de dessalinização, afirmou David Michel, pesquisador sênior de segurança hídrica do CSIS (Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais).

Mas existe um precedente. Em 1991, durante a Guerra do Golfo, o Iraque despejou intencionalmente centenas de milhões de barris (cada barril equivale a aproximadamente 159 litros) de petróleo no Golfo Pérsico, contaminando a água usada pelas usinas de dessalinização do Golfo.

O Kuwait teve que recorrer à Turquia, Arábia Saudita e outros países para que fornecessem centenas de caminhões-pipa para o suprimento de água engarrafada.

A última década, em particular, presenciou uma “erosão significativa das normas” em torno dos ataques à infraestrutura hídrica, afirmou Michel.

A Rússia lançou mais de 100 ataques contra a infraestrutura hídrica da Ucrânia durante sua invasão, e Israel destruiu instalações de água e saneamento em Gaza.

“Infelizmente, tornou-se uma tendência”, afirmou Marwa Daoudy, professora associada de relações internacionais na Universidade de Georgetown. “A água se juntou à longa lista de alvos e armas de guerra”.

O Irã não lançou um ataque concentrado contra as instalações de dessalinização do Golfo, mas os especialistas temem que as trocas de “olho por olho” contra a infraestrutura possam empurrá-lo a fazer isso, especialmente porque não tem o mesmo poderio militar que os Estados Unidos e Israel: ele poderia ver os ataques à infraestrutura como uma forma de infligir dor ao Golfo e pressionar a região para forçar o fim da guerra.

“Este regime iraniano demonstrou que, se sua sobrevivência estiver em risco, não hesitará em escalar para a infraestrutura, especialmente se Israel e os Estados Unidos decidirem atacar infraestrutura muito crítica do Irã”, declarou Habibi.

Ataques diretos são uma grande preocupação, mas também existe o perigo de ataques indiretos, já que as usinas de dessalinização costumam estar agrupadas com outras infraestruturas para maior eficiência, como centrais elétricas e portos.

No início deste mês, houve relatos de danos na usina de dessalinização F1 (F1: código de identificação da unidade) de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, e na usina de Doha West, no Kuwait, que parecem ter sido o resultado indireto de ataques à infraestrutura próxima.

Outro temor são os ataques cibernéticos. Em 2023, o governo americano afirmou que o Irã tinha lançado ataques cibernéticos contra a infraestrutura hídrica em vários estados, deixando uma imagem com a mensagem: “Vocês foram hackeados, abaixo Israel”.

Desativar as usinas de dessalinização não implicaria necessariamente um desastre imediato. Os países do Golfo contam com armazenamento de reserva estratégico e amplos recursos financeiros para cobrir uma emergência.

Mas os ataques às enormes usinas que abastecem vastas áreas de grandes cidades como Riad, Abu Dhabi e Dubai poderiam ter graves consequências.

“Sua perda pode facilmente tornar-se existencial”, declarou Zane Swanson, subdiretor do Programa Mundial de Segurança Alimentar e Hídrica do CSIS Internacional.

As usinas de dessalinização são instalações complexas e de alta tecnologia, e seu restabelecimento poderia levar semanas se sofrerem danos.

Alguns países têm relativamente pouca capacidade de reserva para interrupções prolongadas, afirmou Habibi, da Brandeis.

Ele apontou o Bahrein e o Kuwait como particularmente vulneráveis, pois são estados menores com menos recursos para enfrentar a situação e dependem quase 100% da dessalinização.

Os impactos poderiam variar desde restrições em piscinas e parques aquáticos até o fechamento temporário de atividades econômicas que exigem uso intensivo de água, incluindo potencialmente certa agricultura, e pedir às pessoas que reduzam seu consumo, observou Lambert em Doha.

Esta não é a primeira vez que surge a questão da vulnerabilidade hídrica nos países do Golfo.

A CIA (Agência Central de Inteligência) elaborou um relatório em 2010 que concluía que a interrupção da dessalinização no Golfo “poderia ter consequências mais graves do que a perda de qualquer outra indústria ou produto básico”.

E embora a guerra seja a preocupação atual, Low acredita que a mudança climática é o maior risco futuro.

Não apenas provoca tempestades cada vez mais frequentes e severas, e outros fenômenos meteorológicos extremos que poderiam danificar as usinas, mas o uso de combustíveis fósseis que aquecem o planeta para gerar água alimenta a crise climática e agrava a escassez hídrica.

A dessalinização é “uma vitória do século 20 que traz possíveis questões climáticas do século 21”, afirmou.

O Golfo se aproxima da época mais quente do ano; a primavera chegou e o verão está logo ali. “Os recursos hídricos serão ainda mais afetados quanto mais o conflito se prolongar e maior for a exposição desta infraestrutura”, declarou Swanson.

Sofia considerou armazenar água, mas seu marido a desestimulou. Como muitos residentes do Golfo, eles confiam que seus governos garantirão a satisfação de suas necessidades.

O que o Irã decidir fazer é incerto, mas os especialistas afirmam que um ataque coordenado contra as usinas de dessalinização seria cruzar uma clara linha vermelha. Seria como recorrer a uma arma nuclear, observou Low.

“É uma estratégia realmente insana”, acrescentou, “as sequelas políticas e psicológicas seriam de uma magnitude que não consigo nem imaginar”.

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