EUA reabrem caso de assassinato de jovem negro ocorrido há 63 anos
Relatório do Departamento de Justiça foi enviado ao Congresso e inclui caso da brutal morte de Emmet Till como um crime não solucionado
Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

Até hoje o brutal assassinato do adolescente negro Emmet Till, de 14 anos, ocorrido em 1955 não tem um culpado apontado pela Justiça dos Estados Unidos. O crime, ocorrido em Mississipi, chocou o país e deu impulso para os movimentos de direitos civis.
Exatos 95 dias depois da morte do jovem, a costureira negra Rosa Parks recusou-se a se levantar de seu assento em um ônibus em Montgomery, Alabama, tornando-se um símbolo do movimento em prol da igualdade racial nos Estados Unidos.
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O caso da morte de Emmet foi reaberto, segundo informou nesta quinta-feira (12) a CNN, baseada em um relatório do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, enviado em março último ao Congresso americano. A rede americana publicou artigo a respeito, escrito por Eliott C. McLaughlin, com a colaboração de Laura Jarrett e Michelle Krupa.
O assassinato foi incluído, no documento, elaborado em 2007, dentro de uma lista de atividades relativas a direitos civis, consideradas como crimes não solucionados.
Assim, ficaram desatrelados os estatutos de limitações, que encerram um processo após um período determinado pela lei. E o departamento voltou a ter autonomia para investigar homicídios sem resolução, ocorridos antes de 1980.
Emmet foi falsamente acusado de flertar e assediar a jovem Carolyn Bryant de 21 anos, que, junto com seu marido, Roy Bryant possuía uma mercearia em Money, Mississippi. Emmet, que era de Chicago, estava na cidade em visita ao seu tio-avô.
Envenenados pelas mentiras de Carolyn, e alimentados pelo ódio racial, Roy e o seu meio irmão, J.W. Milam, tiraram Emmett de sua cama no meio da noite.
Levaram-no para dentro de uma picape e os espancaram. Depois, atiraram na cabeça do jovem e jogaram o corpo, preso a um ventilador, no rio Tallahatchie.
A mãe de Emmet, enfurecida, exigiu que, no velório do jovem, que teve seu rosto desfigurado pelos tiros, seu corpo fosse mantido em caixão aberto. Para o mundo ver a brutalidade contra o adolescente e se indignar com a selvageria.
Quem não se indignou, na época, foram muitos brancos americanos e, o pior, a Justiça. Menos de um mês depois de o corpo ser retirado do rio, Bryant e Milam foram absolvidos por um júri composto por brancos. O julgamento durou cerca de uma hora. E não havia falta de indícios. De provas até. Testemunhas identificaram os acusados, que confessaram terem sequestrado Emmet.
Música de Vinícius
Mas os próprios acusados confessaram o crime, orgulhosos, dias depois. Eles estavam fortalecidos com os argumentos da defesa, que exortou o júri a abolvê-los por causa da origem nobre dos acusados (no caso, criminosos).
Em artigo na revista Look, de janeiro de 1956, eles disseram que aintenção inicial era assustar o jovem. Mas, como Emmet mostrou firmeza de caráter, não se intimidando, eles resolveram assassiná-lo. Falaram que era demais para eles ouvirem as respostas do jovem. Sentiram o orgulho ferido.
Emmet, mesmo com a arma apontada para a cabeça, não recuou de afirmações do tipo: "Seus bastardos, eu não tenho medo de você. Eu sou tão bom quanto você. Eu 'tive' mulheres brancas. Minha avó era uma mulher branca." E foi morto pelos dois.
Em artigo publicado em 2017 pela Vanity Fair, Timothy Tyson, da Universidade de Duke e autor do livro "The Blood of Emmett Till" disse que Carolyn Bryant Donham (nome de casada) disse que inventou a parte mais forte da história. E que não houve avanços físicos e verbais por parte de Emmet.
Na época, o crime inspirou o poeta e compositor brasileiro Vinícius de Moraes a escrever a canção "Blues para Emmet Louis Till", feita em 1962. O trecho inicial ilustra a indignação de Vinícius com o caso, até então não resolvido: "Os assassinos de Emmet, Poor Mamma Till! Chegaram sem avisar, Poor Mamma Till! Mascando cacos de vidro, Poor Mamma Till! Com suas caras de cal."
Levantamento feito pelo R7 com base em dados das organizações Mapping Police Violence e Fatal Encounters mostra que, das 175 pessoas mortas pela polícia nos EUA entre 31 de agosto e 31 de outubro deste ano, 36 (20,5%) eram negras — ainda que os afro-am...
Levantamento feito pelo R7 com base em dados das organizações Mapping Police Violence e Fatal Encounters mostra que, das 175 pessoas mortas pela polícia nos EUA entre 31 de agosto e 31 de outubro deste ano, 36 (20,5%) eram negras — ainda que os afro-americanos representem apenas 13% da população no país. Dentre essas, 22 (61,1%) tinham idades entre 19 e 35 anos. Somente uma era do sexo feminino. Casos emblemáticos do tratamento desproporcional que os jovens negros recebem da polícia americana foram documentados em vídeo e amplamente divulgados mundo afora — e, mesmo assim, raramente resultaram em punições efetivas para os agentes envolvidos. Veja alguns deles a seguir























