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Europa precisa trocar modelo milenar por abertura à diversidade

Essência cristã do continente se depara principalmente com populações islâmicas crescentes

Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

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Questão multicultural é uma realidade no continente europeu
Questão multicultural é uma realidade no continente europeu

Dentre os fatores que contribuíram para a constituição da Europa como continente, o cristianismo é o mais antigo. Desde a disseminação do catolicismo, principalmente a partir do reino de Carlos Magno (768-814), a religião passou a ser o núcleo de formação do Velho Continente, a ponto de o rei dos francos ser chamado de "Pai da Europa". 

Nestes primórdios, o governantes que a adotaram, viam na religião cristã, que depois também se expandiu para os protestantes e os cristãos ortodoxos, entre outros, um importante instrumento de poder, tanto pela própria crença mística de que ela abençoava o cargo, como pela sua massificação entre as populações.


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Identidade e poder foram se formando, e nesta fórmula, a questão da diversidade e das minorias começou a ser um problema europeu. 

Por séculos, a Europa, hoje com cerca de 743 milhões de habitantes, foi palco de inúmeras perseguições, contra judeus, muçulmanos e qualquer povo de origem diferente. Mas, com o conceito dos direitos humanos, vindo desde o Iluminismo no século 18 e se fortalecendo depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), um dilema surgiu e volta com força neste momento, desta vez em relação à população islâmica.


Como se manter libertária, sem ser excludente? Como espalhar o perfume de suas democracias, sem estar fechada em sua essência cristã e mais especificamente católica? Segundo a Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia, já há mais de 20,5 milhões de estrangeiros e descendentes, a grande maioria islâmica, vivendo nos países pertencentes à União Europeia (UE), cuja população é de cerca de 507 milhões de habitantes. Na Europa inteira, a opulação islâmica é está em cerca de 60 milhões de pessoas.

Segundo Geraldo Zahran, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o momento exige que a Europa como um todo reveja e expanda o seu modelo de inclusão social, adaptado, após a Segunda Guerra, primordialmente aos cidadãos de origem local. 


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É necessário que este modelo seja estendido agora às novas comunidades de imigrantes que, já há alguns anos, vêm se tornando crescentes dentro do continente. O exemplo mais palpitante neste momento é o da minoria islâmica.

— A falta de plena integração destas minorias pode levar a grandes conflitos ou à extensão de benefícios para estes grupos.

Fator econômico

Os islâmicos tem tido dificuldades, por exemplo, na França, cujo governo tem feito restrições a trajes religiosos e a rituais públicos. Em outros países, como a Suíça, nas cidades de Wangen bei Olten, Langenthal BE e Wilhouve, houve proibição da construção de minaretes (torres das mesquitas).

O fator religioso, porém, não pode se desvincular do econômico, na opinião de Zahran. O PIB atual da zona do euro é de cerca de 16 trilhões de euros, em um momento de crescimento tímido. 

— A busca do crescimento econômico é a saída. A partir do momento em que estas populações forem conquistando melhores condições de vida, de educação, de empregos, paulatinamente elas irão se incorporando à sociedade. A inclusão é o caminho, não há outra solução, mas não será algo imediato. É um processo de médio a longo prazo.

Um ponto importante foi ressaltado por Samira Osman, professora de História da Unifesp. Segundo ela, a Europa sempre foi multicultural. A questão é que as populações predominantemente europeias nunca se reconheceram desta maneira, preferindo a busca obcecada por uma falsa realidade, em que prevalecesse a chamada "Europa pura".

— No momento que os europeus admitirem essa realidade, finalmente a bola de neve das perseguições, da busca de se culpar um outro, hoje em dia os muçulmanos, será interrompida. Mas neste momento ainda vemos prevalecer nacionalismos locais, mesmo quando as minorias têm o desejo de serem incluídas.

A professora lembra inclusive que o próprio surgimento do islamismo na Europa, a partir do século 8, serviu como um fator de aceleração da identidade cristã como elemento vinculado ao nacionalismo. 

Foi, na verdade, uma reação a algo novo que surgia e que, durante séculos ficou restrito ao outro lado dos Pirineus, nos califados que se espalhavam pelas planíces mediterrâneas da Península Ibérica.

— Este confronto original com o islamismo ajudou a formar a identidade cristã da Europa. E esse crescimento das divergências ao longo dos anos é um problema, pois tem revelado que o continente ainda não consegue conviver com o multiculturalismo.

Na opinião da especialista, todos os guetos e bairros étnicos que se formaram no continente durante a história, tinham a lamentável característica de ser algo que não vinha de uma busca de preservação cultural e das próprias tradições de judeus, islâmicos, ciganos e outros povos, mas sim da necessidade e obrigatoriedade de isolamento. 

Não havia e ainda não há a convivência plena, ainda que, segundo a professora, houve uma evolução a partir de então. Ela cita como exemplo a reação do governo alemão à islamofobia, com a declaração recente do presidente Joachim Gauck, dizendo "todos somos a Alemanha".

A primeira-ministra Angela Merkel, no entanto, mostrando que a evolução é bastante lenta, é uma das que lideram a corrente contrária à inclusão da Turquia, país que tem boa parte de seu território no continente europeu, à UE, já que se trata de uma nação predominantemente islâmica. 

Termômetro francês

As tragédias ocorridas na França, entre os dias 7 e 9 de janeiro, com o atentado à revista Charlie Hebdo, o sequestro a um supermercado judaico, que no total deixaram 17 mortos, fizeram o continente novamente se deparar com um desafio: não repetir perseguições, que foram uma constante em sua história, contra minorias étnicas e religiosas, em épocas turbulentas como a das Cruzadas, a sangrenta Inquisição e o Holocausto na Segunda Guerra.

A professora Samira ressalta que, de alguma maneira, ainda que inaceitável, a barbárie colocou os holofotes sobre o isolamento dos muçulmanos no continente. E serviu para acirrar ainda mais os ânimos contra suas populações, gerando ataques a mesquitas e centros ligados ao islamismo, em uma generalização que só prejudica a convivência no continente.

— O perigo maior de atentados como estes é que, de um lado, parte da população excluída pode se reconhecer nos radicais. De outro, parte da sociedade pode generalizar e colocar em toda a população islâmica a culpa por estes atos. A exclusão, então, acaba vindo dos dois lados.

Em artigo publicado pelo The New York Times, o colunista Ross Douthat direciona a discussão baseado nos últimos acontecimentos na França.

Para o articulista, a França tem um papel decisivo nesta integração de minorias como a islâmica. Isso acontece em função das complexidades que o país, espécie de termômetro para experiências europeias neste sentido, tem de superar para que haja a inclusão. 

Afinal, segundo ele, apontando para uma evolução na busca de inclusão, a França deverá estabelecer jurisprudência neste sentido. Mas, por outro lado, mesmo tendo a maior população islâmica do continente, há arestas a serem aparadas. A principal é lidar com a ânsia excludente dos conservadores franceses.

— Os muçulmanos são vistos de modo mais favorável na França do que em qualquer outra região da Europa ocidental e, contudo, a política francesa abriga um partido de extrema direita cada vez mais forte, a Frente Nacional, de Marine Le Pen, cujo peso eleitoral deve aumentar.

Douthat considera, porém, que, ultrapassados os obstáculos, os resultados podem ter retorno mais rápido e servir de exemplo para o modelo de outros países.

— Por outro lado, a política externa francesa tem envolvimentos (com frequência militares) em todo o Norte da África e no Oriente, o que significa que os desdobramentos da política francesa têm mais espaço para se propagar e depois retornar.

A partir do exemplo na França, a Itália e seus imigrantes etíopes, entre outros, a Inglaterra e os indianos, a Alemanha e os turcos, poderiam conhecer meios mais eficientes de integração. 

A Europa, que colonizou muitos países até o fim do século 20, incrementando sua economia com matérias-primas e mão-de-obra barata, chega a uma encruzilhada. Nesta nova etapa, os frutos da colonização precisam se transformar em integração.

Para prosperar, as fronteiras da União Europeia têm de se abrir ainda mais, para além de seus países, acolhendo agora aqueles que vieram de várias partes do mundo. Entrando, assim, em um novo processo de unificação.

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