Internacional Exílio, prisão e envenenamento: o que acontece com opositores do governo russo?

Exílio, prisão e envenenamento: o que acontece com opositores do governo russo?

Repressão do governo a quem tem conduta considerada 'subversiva' tem preocupado organizações internacionais

  • Internacional | Larissa Crippa* do R7, com informações da AFP

Resumindo a Notícia
  • Governo russo anunciou que continuará reprimindo severamente ações 'subversivas'

  • Opositores são exilados, presos, envenenados e até mortos dependendo do que dizem

  • Recentemente, político de oposição foi condenado a 25 anos de prisão e chamou atenção internacional

  • Diversos órgãos, como a ONU, acusam a Rússia de "aplicar golpes no Estado de direito"

Putin é 'famoso' por supostamente envenenar rivais. Presidente russo é apontado como mandante em crimes desse tipo desde 2004

Putin é 'famoso' por supostamente envenenar rivais. Presidente russo é apontado como mandante em crimes desse tipo desde 2004

ANTON NOVODEREZHKIN / SPUTNIK / AFP - 22.03.2023

A Rússia emitiu um alerta nesta terça-feira (18) garantindo que "reprimirá severamente" qualquer atividade subversiva no país. O posicionamento veio depois que a embaixadora dos EUA, Lynne Tracy, fez declarações consideradas "provocativas", apoiando o opositor Vladimir Kara-Murza, que foi condenado ontem a 25 anos de prisão por criticar o governo russo.

Segundo a AFP, o Ministério das Relações Exteriores da Rússia acrescentou que qualquer iniciativa dos Estados Unidos que busque incitar discórdia e inimizade na sociedade russa, ou usar a legação diplomática do país para encobrir atividades subversivas, terá respostas à altura.

A maneira como o Kremlin, sede do governo em Moscou, lida com opositores tem preocupado instituições internacionais. A ONU (Organização das Nações Unidas) e a OSCE (Organização de Segurança e Cooperação na Europa) afirmaram que o país tem aplicado "golpes no Estado de direito e no espaço cívico da Federação Russa". Entre as medidas adotadas pelas autoridades russas estão prisões, mandados de exílio, suspeitas de envenenamento e até assassinatos. 

Assassinato

Um dos casos mais marcantes de assassinato foi o do ex-vice-primeiro-ministro Boris Nemtsov. O político se opôs a Putin e à anexação da península da Crimeia em 2014, além de expressar seu apoio aos separatistas no leste da Ucrânia.

Menos de um ano depois de suas declarações, Nemtsov foi assassinado, em fevereiro de 2015, aos 55 anos, perto do Kremlin. Seus apoiadores acusaram o líder checheno Ramzan Kadirov de ordenar o assassinato, embora ele negue. Cinco chechenos foram condenados pelo assassinato.

Dez anos antes, em outubro de 2006, outra opositora do presidente Putin e Kadirov, a jornalista Anna Politkóvskaya, foi assassinada na entrada de seu prédio em Moscou.

A jornalista da Novaya Gazeta, principal mídia independente do país, documentou e denunciou durante anos os crimes do Exército russo na Chechênia.

Prisão

Alexei Navalni, um ativista anticorrupção de 46 anos, cumpre uma pena de nove anos de prisão por acusações de fraude após ser detido ao retornar à Rússia, em 2021. Seus apoiadores alegam se tratar de uma grande armação do governo Putin.

Antes de ser capturado pelas autoridades russas, Navalni foi envenenado em 2020 na Sibéria, após tomar um chá, e a ação é atribuída ao Kremlin. O governo russo nega qualquer responsabilidade.

Navalni continua denunciando o Kremlin, chamando o ataque na Ucrânia de "tragédia" e "crime contra a humanidade". Esse posicionamento também é considerado um crime na Rússia, pois é proibido fazer críticas à invasão do território ucraniano.

Outro oponente preso recentemente, Vladimir Kara-Murza, de 41 anos, afirma ter sobrevivido a dois envenenamentos que ocorreram devido a suas atividades políticas.

Na segunda-feira (17), Kara-Murza foi condenado a 25 anos de prisão após ser considerado culpado de "alta traição", entre outras acusações.

Outro crítico influente, Yevgeny Roizman, 60, ex-prefeito de Yekaterinburg, foi detido várias vezes e depois solto. As autoridades o acusam de "desacreditar" o Exército. Seu julgamento acontecerá no fim de abril e o homem corre o risco de passar vários anos na prisão.

Em dezembro, outro opositor conhecido, Ilia Yashin, 39, foi condenado a oito anos e meio de prisão por ter denunciado "o assassinato de civis" na cidade ucraniana de Bucha, perto de Kiev, onde o Exército russo foi acusado de crimes de guerra, que Moscou nega.

Exílio

A maioria dos oponentes que permaneceram na Rússia estão na prisão, mas muitos fugiram do país. Apesar de o governo não decretar a expulsão diretamente, fica implícito que os opositores serão presos caso continuem em território russo, o que os obriga a escapar. 

Um famoso exemplo é Mikhail Khodorkovsky, ex-magnata do petróleo que passou dez anos atrás das grades no início dos anos 2000. Desde sua libertação, em 2013, ele mora em Londres, onde financia plataformas de oposição.

Muitos apoiadores de Khodorkovsky e de Alexei Navalny deixaram a Rússia em 2021, quando a repressão se intensificou. A ofensiva na Ucrânia no ano seguinte também multiplicou a saída de adversários do país.

Envenenamento

Além de Navalny e Kara-Murza, existem outros casos de envenenamento de figuras públicas. O presidente russo é apontado como mandante em crimes desse tipo desde 2004.

Um ex-agente do governo, Sergei Skripal e sua filha, Yulia, ficaram em estado crítico após terem contato com substância tóxica não identificada. O caso aconteceu em 2018 e o homem acredita que o Kremlin tenha tentado matá-lo por colaborar com serviços de inteligência britânicos.

Ainda em 2018, Pyotr Verzilov, ativista e editor de um jornal (Mediazona), foi hospitalizado ao perder a visão, o olfato e a mobilidade repentinamente. A equipe médica definiu a causa como envenenamento e as autoridades nunca definiram suspeitos.

Outros dois jornalistas investigativos, Anna Politkovskaya e Yury Shchekochikhin, passaram por situações similares, mas não sobreviveram. Ana tinha o governo de Putin como alvo de pesquisa e foi envenenada ao tomar um chá em 2004. A jornalista sobreviveu à primeira tentativa, mas morreu assassinada dois anos depois.

Já Yury morreu na primeira tentativa, em 2003, quando sofreu uma "reação alérgica" repentina na véspera do dia em que se apresentaria ao FBI para falar sobre descobertas do governo russo. Amigos afirmam que Moscou envenenou o comunicador.

Apesar de os exílios, prisões, envenenamentos e assassinatos não serem casos isolados, raramente alguém é responsabilizado por esses atos. Na maioria das vezes, as investigações não conseguem ligar suspeitos aos crimes. 

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