Famílias exigem prova de vida de presos políticos venezuelanos ainda não liberados ; o que se sabe até agora
País prometeu liberação de “número significativo” de detidos, mas processo é mais lento que o esperado
Internacional|Michael Rios e Gonzalo Zegarra, da CNN Internacional
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A promessa feita pela Venezuela na semana passada de liberar “um número significativo” de presos políticos está progredindo muito mais lentamente do que muitos esperavam, enquanto centenas de famílias continuam aguardando em agonia a libertação de seus entes queridos.
Das mais de 800 pessoas consideradas detidas arbitrariamente por motivos políticos, o governo havia liberado apenas 56 indivíduos até a noite de segunda-feira (12), segundo a organização de direitos humanos Foro Penal.
Esse número representa menos da metade dos 116 relatados pelas autoridades venezuelanas, que não divulgaram as identidades dos libertados nem informaram de quais centros de detenção eles foram soltos.
A Venezuela começou a libertar presos de alto perfil na quinta-feira (8), incluindo políticos da oposição, a pedido dos Estados Unidos. O país afirmou que a medida foi um gesto “para buscar a paz” com Washington, dias depois de as forças americanas capturarem o presidente Nicolás Maduro em uma ousada operação militar.
O governo venezuelano disse que a liberação dos presos faz parte de uma revisão de casos que foram iniciados “voluntariamente” por Maduro e que agora continuam sob o mandato da presidente interina, Delcy Rodríguez.
A Missão de Apuração de Fatos das Nações Unidas sobre a Venezuela afirmou, na segunda, que acolhe com satisfação as libertações, mas que os números ficaram “muito aquém” das obrigações da Venezuela em matéria de direitos humanos. A missão apelou à libertação imediata e incondicional de todas as pessoas detidas arbitrariamente, destacando o trauma que as suas famílias também estão a vivenciar.
“Os familiares devem receber informações claras e oportunas sobre o destino, o paradeiro e o status jurídico dos seus entes queridos, bem como acesso garantido e visitas regulares”, afirmou a missão.
Na terça-feira, em conferência de imprensa com grupos de direitos humanos, familiares de detidos venezuelanos instaram as autoridades do país a libertar os presos políticos “sem mesquinhez ou sectarismo”.
“Exigimos a libertação total e incondicional de todos os presos políticos, não apenas de um número específico”, declarou Aurora de Superlano, esposa de Freddy Superlano — uma figura da oposição entre as centenas de detidos que ainda não foram libertados.
“Estamos exercendo a pressão necessária e realizando as atividades necessárias dentro das nossas possibilidades como nação. Todos os nossos esforços visam contribuir para a liberdade de todos os presos políticos em nosso país”, disse ela a repórteres em Caracas.
“E nós?”
Há dias, familiares de presos acampam em frente aos centros de detenção, aguardando desesperadamente notícias sobre seus entes queridos.
Alguns acenderam velas, penduraram cartazes de protesto e se ajoelharam para orar por seus parentes.
Muitos têm pressionado o governo a fornecer provas de que os detidos ainda estão vivos, permitindo videochamadas ou mostrando fotos recentes.
Evelis Cano, mãe de um detento, pediu ao líder do Legislativo e à presidente interina da Venezuela que se solidarizem com as famílias.
“Coloquem a mão no coração, Héctor Rodríguez e Delcy Rodríguez. Se eles fossem seus familiares, o que vocês fariam? Porque acabaram de prender o presidente Nicolás Maduro e vocês estão pedindo prova de vida. E se vocês querem que os direitos humanos do presidente sejam respeitados, o que dizer dos venezuelanos? O que dizer de nós?”
Os pedidos por prova de vida se intensificaram neste fim de semana, após as autoridades confirmarem a morte de pelo menos um prisioneiro.
A promotoria informou no domingo que um policial da ativa da Polícia Nacional, preso desde 11 de dezembro, morreu em 10 de janeiro. Segundo o Ministério Público, as autoridades determinaram que o detento, Edilson José Torres Fernández, de 52 anos, sofreu “uma crise súbita de saúde”.
“Ele foi imediatamente transferido para o centro médico, chegando com sinais vitais e recebendo atendimento médico oportuno. No entanto, sofreu um AVC seguido de parada cardíaca, que causou sua morte”, disseram os promotores.
Torres havia sido detido por compartilhar mensagens “críticas ao regime”, segundo o Comitê de Familiares pela Liberdade de Presos Políticos.
O grupo Laboratório da Paz criticou o governo, afirmando que Torres poderia ter sido libertado e recebido atendimento médico. “Ele possivelmente estaria vivo hoje”, declarou nas redes sociais.
Petra Vera, parente de um detento, pediu mais transparência ao governo.
“Se essa prova de vida não puder ser emitida — que é a única coisa que pedimos — então nos deem a oportunidade de acessar as instalações e ver nossos parentes”, disse ela.
Falta de informação
Para agravar a frustração das famílias, as autoridades não divulgaram as identidades dos liberados, e organizações da sociedade civil têm tentado verificar o número e os nomes dos envolvidos.
Em resposta a uma consulta da CNN, o Ministério Público afirmou que “por enquanto” não há uma lista oficial dos libertados da prisão.
A Anistia Internacional também expressou preocupação com a falta de informações.
“Muitas dessas pessoas são vítimas de desaparecimento forçado. Não havia notícias delas, e espera-se que essas liberações esclareçam as condições em que estiveram por muitos meses, em alguns casos”, disse Erika Guevara Rosas, diretora global de pesquisa, defesa e políticas da organização, à CNN.
Entre as primeiras pessoas libertadas na semana passada estavam Enrique Márquez, ex-candidato à presidência, e Biagio Pilieri, empresário e ex-parlamentar venezuelano, que estavam detidos no notório centro de detenção El Helicoide, um enorme shopping center inacabado em Caracas que agora serve como prisão e sede da polícia secreta.
Mas grupos de direitos humanos afirmam que muitos defensores de direitos humanos de alto perfil permanecem atrás das grades ou desapareceram completamente como parte da campanha de desaparecimentos forçados na Venezuela.
A oposição denunciou o governo pelo número limitado de libertações, chamando-o de “uma zombaria inaceitável” para o povo venezuelano.
A líder da oposição, María Corina Machado, reuniu-se com o Papa Leão XIV no Vaticano na segunda-feira para pedir sua intervenção e ajuda na libertação das centenas de presos políticos que ainda estão detidos.
Leão XIV pediu a proteção dos direitos civis e humanos na Venezuela e disse estar acompanhando de perto os acontecimentos no país latino-americano com “profunda preocupação”.
Machado tem um encontro marcado com o presidente dos EUA, Donald Trump, nesta quinta-feira, segundo informou um alto funcionário da Casa Branca à CNN.
Alegações de abuso e libertação condicional
Alfredo Romero, do Foro Penal, alertou que as libertações são condicionais, pois não encerram os processos judiciais e podem acarretar risco de nova prisão.
A família da ativista venezuelana-espanhola Rocío San Miguel pareceu apoiar a alegação, afirmando que a ex-presa política não está totalmente livre, mas sim sob “uma medida cautelar em substituição à prisão, concedida no âmbito de seu processo judicial”. Acrescentaram que “ela continua proibida de fazer declarações públicas”.
O sistema penitenciário da Venezuela afirmou na segunda-feira que os indivíduos libertados estavam ligados a “atos associados à perturbação da ordem constitucional e à ameaça à estabilidade da nação”, mas não mencionou quaisquer exigências ou condições supostamente impostas aos libertados. A CNN entrou em contato com o governo venezuelano sobre o assunto.
Apesar do alegado silêncio imposto, alguns ex-detentos estrangeiros que retornaram ao seu país relataram como era a vida na prisão.
“Eu tinha medo que me matassem”, disse o empresário italiano Mario Burlò, de 52 anos, que foi preso no final de 2024 e chegou a Roma na terça-feira.
“Minha família na Itália pensou que eu estava morto; foi um verdadeiro sequestro”, disse ele, segundo o jornal Corriere della Sera.
Sobre as condições de confinamento, ele relatou: “Eu disse aos guardas da prisão: até os cachorros têm necessidades diárias. Nós somos menos que cachorros. Eles nos levavam para o pátio, uma hora por dia, cinco dias por semana. Nos faziam dormir no chão, no meio das baratas.” Em declarações citadas pelo jornal La Stampa, ele descreveu a prisão como “pior que Alcatraz”.
O empresário afirmou que os abusos sofridos não foram físicos, mas psicológicos, como ficar incomunicável com a família por quase um ano.
A CNN entrou em contato com o governo venezuelano a respeito das denúncias de abuso.
Alberto Trentini, um trabalhador humanitário que também foi preso em novembro de 2024, disse ao chegar à Itália que estava feliz, mas que sua felicidade “tem um preço muito alto”, segundo um comunicado lido por seu advogado. “O sofrimento desses intermináveis 423 dias é indelével. De agora em diante, precisamos viver dias de paz e consciência para tentar apagar as más lembranças e superar o sofrimento desses 14 meses”, disse ele.
“Nossos pensamentos estão com todos os que permanecem detidos e suas famílias, para que em breve possam experimentar a alegria da libertação”, acrescentou.
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