Fungo de Chernobyl pode proteger astronautas em missões para Lua e Marte
Microorganismo intriga ciência ao transformar radiação em energia e reacende debate sobre proteção espacial
Internacional|Do R7
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

A capacidade da vida de se adaptar a ambientes extremos ganhou um novo capítulo com os estudos sobre um fungo encontrado nos escombros do desastre nuclear de Chernobyl. Desde 1997, quando a micóloga ucraniana Nelli Zhdanova identificou colônias de mofo crescendo nas paredes e até dentro do prédio do reator, pesquisadores têm buscado entender como esses organismos não apenas sobrevivem, mas parecem prosperar sob intensa radiação ionizante.
O acidente de 26 de abril de 1986, provocado por falhas de projeto e erros operacionais no Reator 4, criou um perímetro de exclusão de 30 quilômetros para conter a contaminação. Apesar da letalidade do ambiente, análises posteriores revelaram mais de 35 tipos de fungos na área. Alguns deles foram classificados como “radiotrópicos” por se aproximarem das partículas radioativas como plantas que se orientam para a luz solar.
LEIA MAIS
A chave para essa resiliência parece estar na melanina, pigmento presente nas paredes celulares dos fungos, o mesmo que protege a pele humana da radiação ultravioleta. A princípio, acreditava-se que o pigmento funcionava apenas como barreira protetora. Mas um estudo de 2007, conduzido por pesquisadores como a cientista nuclear Ekaterina Dadachova, mostrou que fungos melanizados expostos ao Césio radioativo cresceram cerca de 10% mais rápido, sugerindo um mecanismo de conversão energética chamado “radiossíntese”.
Segundo Dadachova, a radiação ionizante possui energia milhões de vezes maior que a luz branca usada na fotossíntese, exigindo um transdutor potente, papel que a melanina poderia desempenhar. Ainda assim, nem todos os fungos escuros exibem esse comportamento, e alguns experimentos falharam em demonstrar aceleração do crescimento, o que indica que os mecanismos envolvidos ainda não são totalmente compreendidos.
A investigação ganhou novos contornos quando amostras do fungo Cladosporium sphaerospermum, encontrado em Chernobyl, foram enviadas à Estação Espacial Internacional. Na exposição contínua à radiação cósmica, as colônias cresceram 1,21 vezes mais do que as mantidas em solo, reforçando a hipótese de que esses microrganismos podem utilizar radiação como fonte de energia. Além disso, o próprio crescimento formou uma camada que reduziu a incidência de radiação medida em áreas cobertas pelo fungo.
Os resultados chamaram a atenção de cientistas e agências espaciais. O interesse vai além do metabolismo inusitado: os fungos demonstraram capacidade de atuar como barreira natural contra radiação, uma alternativa leve e de baixo custo em comparação a escudos metálicos tradicionais usados para proteger astronautas de raios cósmicos, uma das maiores ameaças em viagens interplanetárias.
Pesquisadores como a astrobióloga da NASA Lynn J. Rothschild já vislumbram estruturas biológicas feitas de fungos, a chamada “micoarquitetura”, que poderiam ser cultivadas diretamente na Lua ou em Marte. Tais habitats seriam autorregenerativos e funcionariam como escudos vivos contra radiação, reduzindo drasticamente a necessidade de transportar materiais pesados da Terra.
Ao mesmo tempo, estudos apontam que certos fungos conseguem transformar compostos de urânio em minerais estáveis, o que desperta interesse para o uso dessas espécies na descontaminação de áreas nucleares. A compreensão detalhada dos processos metabólicos envolvidos ainda está em desenvolvimento, mas a combinação entre resistência, versatilidade e potencial aplicado alimenta expectativas.
Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp









