Há 10 anos, a crise das hipotecas nos EUA abalava o mundo
Em 7 de setembro de 2008, as empresas de captação de empréstimo Fannie Mae e a Freddie Mac sofreram intervenção; veja o que mudou desde então
Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

Uma crise especulativa, em 2008, tornou-se um retrato do estágio atual do capitalismo e colocou várias instituições à beira da falência. Dez anos depois da famosa "crise do subprime", que teve seu ápice em setembro, boa parte dos elementos que levaram ao colapso ainda estão presentes na economia mundial, graças principalmente ao fato de o crédito ainda estar barato nos Estados Unidos.
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A crise de 2008 pode ser descrita como o resultado de uma conta que não fechou: a supervalorização de hipotecas imobiliárias que passaram por um processo de desvalorização posterior.
Na ocasião, em uma época também de crédito fácil e juros baixos, vários bancos de diferentes nações não criaram barreiras para emprestar dinheiro a imobiliárias, em empréstimos captados pelas empresas Fannie Mae e Freddie Mac, ex-estatais privatizadas em 1968, que estavam autorizadas a realizar esse trabalho.

7 de setembro
Vários foram os momentos, em setembro de 2008, há 10 anos, nos quais a crise se manifestou com intensidade.
Um dos principais foi em 7 de setembro daquele ano, quando, por causa do rombo em inúmeras instituições financeiras, a Fannie Mae e a Freddie Mac sofreram intervenção de agência de financiamento habitacional federal.
Tudo porque o desfecho desta onda de empréstimos foi quase tão catastrófico quanto o da crise na Bolsa de Nova York em 1929. As hipotecas não foram pagas, gerando insolvência para aqueles que haviam cedido o crédito. Foi algo semelhante a uma pirâmide financeira.
Essa ciranda, que obrigou governos a desembolsarem bilhões de dólares, foi motivo de protestos contra a especulação no capitalismo, considerada fonte de desigualdades e de injustiças sociais.
Pirâmide com hipotecas

Como funcionavam os subprimes? Basicamente, o investidor, em geral de baixa renda, colocava uma quantia (por exemplo, 10 mil dólares) e pedia uma outra muito maior ao banco (90 mil dólares), para comprar um imóvel que, por exemplo, valia 100 mil dólares.
Mas o valor dos imóveis estava inflado, justamente porque muitas pessoas investiam na compra de imóveis usando hipotecas.
Estimulado, o investidor que era devedor de 90 mil dólares, acreditava ter um patrimônio de 200 mil. Então ele comprava outro imóvel, por 100 mil dólares, pedindo outros 90 mil emprestado.
A convicção dele era a de ter 2 imóveis que teoricamente valiam 300 mil juntos. Ele devia 180 mil.
Só que a bolha imobiliária estourou e a realidade mostrou que os dois imóveis juntos valiam apenas 100 mil, e a dívida do investidor era de 180 mil. O sistema bancário, então, começou a ruir, já que faltava dinheiro para cobrir as dívidas.
Também as ações da American International Group Inc. (AIG), a maior empresa seguradora dos Estados Unidos, sofreram forte queda e precisaram de aporte do governo.
Prevenção de crises

Para evitar uma crise sistêmica, o governo americano injetou mais de 800 bilhões de dólares em bancos e instituições financeiras. A crise foi global, fazendo, por exemplo, o Banco Central Europeu também colocar mais de 150 bilhões de dólares em instituições europeias.
Na opinião do professor de Relações Internacionais da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Yann Duzert, especialista em políticas públicas e governança, desde então, no governo do ex-presidente americano Barack Obama, passou a existir em parte a preocupação, compartilhada por instituições europeias e pelo próprio FMI, em regular o excesso de endividamento dos bancos, potencialmente muito arriscados, e a forma como os produtos são oferecidos.
Mas ele ressalta que, no capitalismo, os mercados buscam todas as formas de retorno. E essa prática faz parte da essência humana dentro de tal sistema.
“A grande questão é o consumidor estar bem informado, muitas vezes isso não ocorre porque os bancos buscam a ganância de apenas vender os produtos ao cliente final. O ser humano no capitalismo vai sempre querer ganhar mais, às vezes um modelo de negócios vendido dá certo, às vezes é um fracasso. A questão é que devemos regular, de um lado informar o mercado e o consumidor final e do outro lado o mercado deve estar ciente de que o Estado não é a garantia para a privatização dos ganhos e a socialização das perdas.”
Duzert fala que, no próprio capitalismo, há espaço para a sua conhecida filosofia da “Newgotiation”, onde as partes entram em um consenso que acaba sendo positivo para todos.
“É uma sabedoria relativa de pagar o risco mas também de informar sobre o risco. Esta mudança traz um novo paradigma. Sai da manipulação, do discurso de guerra, para a Newgotiation, um jeito que inclui a gestão de risco da informação. É informar sobre o risco e não ficar naquele velho jogo do poder. É uma nova negociação na nova era digital. O capitalismo reparou que as melhores margens, melhor rendimento de ações, são aquelas de longo prazo, que evita mais o risco. O gerenciamento de risco e a prevenção de crise estão neste novo capitalismo que, claro, pede risco, mas também valoriza a sustentabilidade da marca. Pende mais para um acionista de longos anos do que apenas para um especulador de 33 segundos que especula sem conhecer.”
Política isolacionista
Segundo Paulo Azevedo, professor de estratégia financeira do Ibmec (Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais) a regulamentação do governo americano em relação à intensidade especulativa dos investidores teve mesmo maior efeito em curto prazo.
Ele concorda que, atualmente, o ímpeto especulativo foi de certa maneira retomado, ainda com alguma cautela em relação à supervalorização de produtos, em função de as taxas de juros dos Estados Unidos serem muito baixas, estando atualmente em 2%.
"Com baixas taxas de juros, não resta muita alternativa para as empresas financeiras a não ser dar crédito. Então o perigo do crédito (risco) vai piorando com o passar do tempo. Claro que há um temor do passado, mas as empresas financeiras não têm para onde correr, basicamente a atividade delas é captar dinheiro o mais barato possível e dar crédito o mais caro possível. Só que o crédito caro nos Estados Unidos não existe, então a solução é dar muito crédito e isso faz com que se corra mais risco."
Segundo ele, há uma cautela maior em relação a hipotecas.
"O que é um pouco diferente é que, como houve o choque há uma preocupação de não supervalorizar o imóvel. Há cerca de 10 anos, um dos pilares foi que o mercado tinha percepção do valor do imóvel maior do que realmente era. E com essa supervalorização fez com que se desse mais crédito do que o adequado. Essa percepção mudou um pouco, diminuindo também esse tipo de risco."
A política isolacionista do presidente Donald Trump também é outro fator, segundo ele, que acaba segmentando mais as repercussões econômicas em um país. Ao contrário do que ocorre com mercados mais globalizados.
"Hoje o mercado não está tão aquecido como antes. E depois que o Trump assumiu, ele rompeu acordos multilaterais e os substituiu por bilaterais. Já que os Estados Unidos são o país mais poderoso, se fizer acordo com cada país consegue mais vantagem. Isso dificulta um pouco o mercado mundial, mas deixa com menos risco a economia americana, que neste momento está bem."
No caso das agências de avaliação de risco, que não previram esse colapso, Azevedo acredita que pouca coisa mudou. Apesar de muitas terem avaliado a hipoteca dos tomadores subprime com a nota AAA, que aponta para baixíssimo risco.
"Em relação às agências de risco, voltou relativamente o que era antes. Essas instituições vão continuar dando esse tipo de nota porque existe a expectativa dos investidores que o banco se comporte como adviser (conselheiro), dizendo 'vai por aqui não vai por ali'. O banco mesmo se obriga a classificar o crédito para orientar o investimento desses clientes.”















