Investimento da China no Peru causa ofensiva de Trump e eleva rivalidade entre superpotências
Construção do mega-porto de Chancay é mais um capítulo da disputa entre EUA e China por influência na América Latina
Internacional|Mauricio Torres, da CNN Internacional
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
O maior porto da América do Sul nasceu há menos de um ano e meio, fica no Peru e, na sua criação, teve um papel fundamental a segunda maior economia do mundo: a China.
Localizado a 80 quilômetros ao norte de Lima, o mega-porto de Chancay foi inaugurado em 14 de novembro de 2024. Em uma cerimônia liderada pela então presidente do Peru, Dina Boluarte, e por seu homólogo da China, Xi Jinping, a abertura da obra foi apresentada como um fato histórico que impulsionará o desenvolvimento.
“Com esta megaobra, damos início a uma transformação que consolidará o país como um centro logístico, tecnológico e industrial de classe mundial, que nos projetará de forma estratégica na região Ásia-Pacífico”, disse Boluarte naquela ocasião.
No entanto, esse entusiasmo não foi compartilhado em toda a América.
Nos Estados Unidos, o governo do presidente Donald Trump tem questionado os benefícios do porto de Chancay para o Peru. Seu embaixador em Lima, Bernie Navarro, reiterou essa posição em fevereiro, quando em uma mensagem no X disse que o Peru poderia “perder soberania” no local. Os comentários de Navarro ocorreram depois de uma decisão judicial de primeira instância que poderia restringir as capacidades do Estado peruano de supervisionar o terminal, que pertence 60% à empresa chinesa Cosco Shipping Ports Limited, cujo principal acionista é o Estado chinês.
De forma semelhante, o governo Trump também tem se posicionado contra outras demonstrações da presença da China na América Latina.
No início de 2025, pouco depois de começar seu segundo mandato, Trump disse que os Estados Unidos buscarão “recuperar” o Canal do Panamá, porque não permitirão que a China “controle” a via interoceânica. No Panamá, o presidente José Raúl Mulino tem rejeitado repetidamente essa posição de Trump.
Mais recentemente, em 20 de fevereiro, o Departamento de Estado dos Estados Unidos retirou os vistos de três funcionários do Chile que participaram da concessão para a construção de um cabo submarino de fibra óptica que conectará a China ao país sul-americano. O presidente do Chile, Gabriel Boric, rejeitou a decisão dos Estados Unidos, assim como o argumento de que esse projeto representa uma ameaça à segurança nacional do país.
Seja no Peru, no Panamá, no Chile ou em outros países, casos como esses são um exemplo de dois fenômenos: por um lado, a crescente presença da China na América Latina — visível em termos de comércio, investimentos ou grandes obras —; por outro, o incômodo que essa presença chinesa gera nos Estados Unidos, que neste sábado convocaram uma cúpula de líderes latino-americanos para discutir segurança regional e como conter o que a Casa Branca descreve como “influências externas”.
A China é uma potência comercial cujas exportações se destinam principalmente a Hong Kong, Estados Unidos, Vietnã, Coreia do Sul e Japão, de acordo com dados do Observatório de Complexidade Econômica (OEC), uma instituição não governamental. Já as origens de suas importações são Taiwan, Coreia do Sul, Japão e Rússia, segundo o OEC.
Embora a América Latina como um todo não esteja entre os principais parceiros comerciais da China, o fluxo entre a região e o país asiático cresce cada vez mais, disse à CNN Gilberto García, economista-chefe do OEC.
Segundo o especialista, essa crescente relevância da América Latina se deve ao fato de que, quando começou a guerra comercial entre Estados Unidos e China em 2018 — durante o primeiro mandato de Trump —, a China passou a exportar menos para esse país e a diversificar seus planos.
“Essa diversificação pode ser entendida de duas formas: a primeira, encontrar novos mercados para uma atividade manufatureira cada vez mais dominante da China; a segunda, encontrar novas rotas de acesso ao mercado dos Estados Unidos que contornem a guerra comercial”, disse García.
Hoje, Brasil, México, Colômbia, Chile e Peru representam cerca de 90% da atividade comercial da América Latina com a China e, entre eles, o Brasil é o que tem a relação mais dinâmica com o país asiático, acrescentou o especialista. O México, uma das maiores economias da região, também estreitou seus laços com a China, mas é limitado pelo fato de os Estados Unidos serem seu vizinho e principal parceiro comercial.
Quanto aos produtos que circulam entre as duas partes, García destacou que a China exporta para a América Latina telefones e tecnologias verdes como painéis solares, motores elétricos e outros componentes essenciais para a transição energética, enquanto importa matérias-primas como ferro, cobre, lítio, petróleo bruto e alguns alimentos como peixe ou soja.
“Se você fizesse uma tabela das importações da China da América Latina e das exportações da China para a América Latina, de um lado veria barras muito altas relacionadas a commodities e produtos energéticos, e do outro veria muita manufatura e alguns produtos químicos”, disse García.
“Isso é um sinal de alerta porque é uma relação muito desigual que, além disso, perpetua questões de desenvolvimento econômico”, advertiu.
Investimentos: receber dinheiro chinês quando outros deixaram de apostar
Os investimentos são outra face da presença da China na América Latina, que vem se desenvolvendo ao longo deste século.
Dados da Rede Acadêmica da América Latina e do Caribe sobre China, baseados em informações da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), mostram que o recorde histórico de investimento chinês na região foi registrado em 2010, quando chegou a US$ 23,2 bilhões (cerca R$ 121,8 bilhões). Desde então, o indicador teve altos e baixos:
- em 2019 foi de US$ 19,231 bilhões (cerca de R$ 100,8 bilhões);
- em 2020 caiu para US$ 9,277 bilhões (cerca de R$ 48,3 bilhões);
- em 2021 subiu para US$ 12,704 bilhões (equivalente a R$ 66,6 bilhões);
- em 2022 alcançou US$ 15,441 bilhões (cerca de R$ 81 bilhões);
- depois caiu em 2023 para US$ 9,672 bilhões (equivalente a R$ 50,7 bilhões)
- e em 2024 para US$ 8,530 bilhões (R$ 44,7 bilhões).
A Rede ressalta que se trata de um fluxo importante de recursos, embora peça que esses números sejam colocados em perspectiva. Como exemplo, aponta que no período de 2020 a 2024, 93,02% do investimento estrangeiro direto na América Latina veio de lugares diferentes da China.
Esses investimentos chineses na América Latina “decolaram” a partir da crise financeira global de 2008-2009, disse à CNN David Castrillón-Kerrigan, professor da Universidade Externado da Colômbia.
Segundo o especialista, no início eram principalmente investimentos estatais e se concentravam nos setores de energia e mineração. Com o passar dos anos, isso mudou, quando empresas privadas chinesas entraram no jogo e começaram a investir em outros setores como tecnologia e vestuário.
“Acho que isso é muito positivo para a região porque não somos apenas o depósito minerador-energético da China. Esses novos investimentos oferecem muitas oportunidades para educação, emprego e para mudar a matriz econômica. Têm implicações grandes”, disse.
Para Castrillón-Kerrigan, esse investimento chinês também é positivo porque ocorre em um momento em que outros países estão investindo menos no exterior. Ele reconhece que existem riscos, mas considera que não são “extraordinários”, e sim semelhantes aos inerentes a outras relações econômicas ou aos que podem surgir quando autoridades locais aprovam projetos que não são benéficos para suas comunidades.
“Talvez o que seja arriscado nessa situação é que, em um momento em que não temos tantas alternativas e a China pode acabar sendo a única, alguns governos entrem em projetos que não lhes convêm. Mas, nesse caso, claramente o responsável é esse governo ou esse ator, e a culpa não poderia ser de Xi Jinping”, disse.
Infraestrutura: outra marca da presença chinesa
Uma terceira via pela qual a China está deixando sua marca na América Latina são as obras de infraestrutura.
O Repositório Regional de Investimentos Chineses na América Latina, uma plataforma criada em conjunto por instituições acadêmicas e organizações civis, indica que a China está relacionada a esse tipo de projeto em pelo menos 13 países da região: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Panamá, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela.
Cynthia Sanborn, diretora do Centro de Estudos sobre China e Ásia-Pacífico (CECHAP) da Universidade do Pacífico, afirmou que no Peru não existe apenas o porto de Chancay, um terminal tão avançado que a acadêmica o descreve como “do século 22”. Perto dali, disse Sanborn à CNN, também está em planejamento o projeto do parque industrial de Ancón.
Segundo o Repositório — no qual o CECHAP colabora —, na região também se destacam a construção da Linha 1 do Metrô de Bogotá e da rodovia de Urabá na Colômbia; a construção da prisão El Encuentro e de alguns hospitais no Equador; obras em estradas na Bolívia; a ferrovia de oeste a leste no Brasil; e a fabricação de novos trens para as linhas San Martín e Belgrano Norte na Argentina, entre outros projetos.
Para a especialista, o fato de empresas chinesas realizarem obras de infraestrutura que prestarão serviços públicos representa, para os governos da América Latina, o desafio de exigir prestação de contas em termos de transparência e padrões de construção.
Além disso, disse ela, a realização desses projetos no contexto atual traz o risco de aumentar ainda mais as tensões com os Estados Unidos, onde Trump deixou claro que não quer que nenhuma outra nação diminua a influência americana na região.
“Eu diria que hoje o risco geopolítico é significativo, porque os Estados Unidos demonstraram disposição de usar tanto o porrete quanto a cenoura”, afirmou Sanborn.
“Por um lado, esperamos que no sábado apareçam ofertas e incentivos para fazer mais negócios com os Estados Unidos, mas também há o uso de coerção e até violência, como vimos na Venezuela ou no Panamá. Então acredito que também existe um risco devido à nova agressividade dos Estados Unidos com o atual governo”, advertiu, diante da reunião que Trump realizará na Flórida com uma dúzia de líderes latino-americanos.
Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp







