Irã reconstrói instalações militares enquanto cresce risco de conflito com os EUA
Com negociações estagnadas, país acelera obras militares e manda recado de que está pronto para enfrentar uma ofensiva americana
Internacional|Mostafa Salem, Farida Elsebai e Gianluca Mezzofiore, da CNN Internacional
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Enquanto os Estados Unidos continuam com um aumento significativo de sua presença militar no Oriente Médio, o Irã tomou medidas para indicar que está pronto para a guerra, incluindo a fortificação de seus locais nucleares e a reconstrução de instalações de produção de mísseis.
Negociadores iranianos e norte-americanos realizaram conversas indiretas em Genebra por três horas e meia nesta terça-feira (17), mas o encontro terminou sem uma resolução clara. O principal diplomata do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que ambas as partes concordaram com um conjunto de “princípios orientadores”, mas o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, disse que os iranianos não reconheceram as “linhas vermelhas” estabelecidas pelo presidente dos EUA, Donald Trump.
Apesar das negociações em andamento, a Casa Branca foi informada de que as Forças Armadas dos EUA poderiam estar prontas para um ataque até o fim de semana, após um reforço recente de meios aéreos e navais no Oriente Médio, disseram à CNN fontes familiarizadas com o assunto.
Diante da ameaça de guerra, o Irã passou os últimos meses reparando instalações-chave de mísseis e bases aéreas severamente danificadas, ao mesmo tempo em que ocultou ainda mais seu programa nuclear. O país nomeou veteranos de guerra para suas estruturas de segurança nacional, realizou exercícios militares navais no Golfo Pérsico e lançou uma repressão intensa à dissidência interna.
Reparos
Em junho de 2025, Israel lançou um ataque surpresa contra o Irã que destruiu partes de seu programa nuclear, danificou gravemente locais de produção de mísseis e matou comandantes militares importantes. Ao longo do conflito subsequente, que durou 12 dias, o Irã retaliou lançando centenas de mísseis e drones contra cidades israelenses, enquanto os EUA atingiram três instalações nucleares iranianas — com o presidente norte-americano Donald Trump afirmando que elas haviam sido “totalmente obliteradas”.
Nações ocidentais têm fracassado de forma consistente em persuadir o Irã a restringir seu programa de mísseis, que Teerã considera um pilar central de sua força militar e um direito à autodefesa.
Apesar de ter sofrido perdas significativas na guerra com Israel, análises de imagens de satélite revelam que o Irã reconstruiu instalações de mísseis danificadas.
Imagens de satélite da Base de Mísseis Imam Ali, em Khorramabad, captadas em 5 de janeiro, mostram que, das doze estruturas destruídas por Israel, três foram reconstruídas, uma foi reparada e outras três estão atualmente em construção. A instalação abriga silos de lançamento essenciais para o disparo de mísseis balísticos, com obras de terraplenagem e construção ao redor.
Outras duas bases militares também passaram por extensos reparos. Na base aérea de Tabriz, no noroeste, vinculada aos mísseis balísticos de médio alcance do Irã, pistas de táxi e decolagem foram restauradas. Em outra base de mísseis ao norte da cidade, trabalhos extensivos foram realizados após a guerra. Todas as entradas foram reabertas após terem sido bombardeadas e seladas, a área de apoio próxima à entrada foi em grande parte reconstruída e alguns túneis estão agora abertos, segundo análise da CNN e de Sam Lair, pesquisador associado ao CNS (Centro James Martin para Estudos de Não Proliferação).
Na Base Aérea de Hamadan, no oeste do Irã, crateras criadas por bombas na pista foram preenchidas e abrigos de aeronaves foram reparados, de acordo com análise da CNN e de Lair.
O Irã também reconstruiu rapidamente sua maior e mais recente instalação de produção de mísseis de combustível sólido em Shahrud, tecnologia que permite o rápido emprego de mísseis de maior alcance.
“Acho que o local mais importante é Shahrud. Os danos ali foram reparados muito rapidamente”, afirmou Lair. “Havia também uma nova linha de produção em construção durante a guerra que não foi danificada e agora provavelmente está operacional, o que significa que, contraintuitivamente, a produção de motores de mísseis de combustível sólido pode estar maior agora do que antes da guerra, ao menos naquele local.”
Fortalecimento das instalações nucleares
Apesar de demonstrar flexibilidade quanto à limitação de seu programa nuclear, o Irã está reforçando rapidamente várias de suas instalações nucleares, utilizando concreto e grandes quantidades de terra para enterrar locais-chave, segundo novas imagens de satélite e análises do Isis (Instituto para Ciência e Segurança Internacional).
Imagens de satélite de alta resolução de 10 de fevereiro de 2026, analisadas pelo Isis, mostram que o Irã continua a reforçar as entradas de túneis no complexo subterrâneo escavado na Montanha Pickaxe, perto de Natanz. Concreto recém-aplicado é visível tanto nas entradas oeste quanto leste, aumentando a proteção que pode ajudar a proteger a instalação contra possíveis ataques aéreos, além da presença de caminhões e outros equipamentos de construção no local.
Em uma instalação nuclear conhecida como “Taleghan 2”, no complexo militar de Parchin, ao sudeste de Teerã, imagens de satélite publicadas nesta semana mostram que o Irã concluiu um sarcófago de concreto ao redor do local e agora o está cobrindo com terra, segundo o instituto sediado em Washington que se dedica à não proliferação nuclear.
“A instalação pode em breve se tornar um bunker totalmente irreconhecível, oferecendo proteção significativa contra-ataques aéreos”, alertou o presidente do Isis, David Albright, em publicação na rede social X.
No sétimo Complexo Industrial de Tir, próximo a Isfahan, no centro do Irã, que está ligado à produção de peças de centrífugas para enriquecimento de urânio, estruturas danificadas foram reconstruídas, segundo análise de imagens revisadas pela CNN. O complexo foi sancionado pela ONU em outubro de 2025.
“Acredito que o Irã está reconstituindo seus programas nuclear e de mísseis, provavelmente mais rápido do que Israel afirmou que seria possível durante a (Operação) Rising Lion”, disse Jeffrey Lewis, acadêmico reconhecido de Segurança Global do Middlebury College, à CNN, referindo-se aos ataques israelenses de junho.
“A reconstrução dos edifícios, bem como outras informações, sugere que o Irã conseguiu substituir aquele equipamento ou transferi-lo para locais seguros subterrâneos antes dos ataques”, acrescentou.
Reconfiguração da governança
O conflito do ano passado com Israel expôs fragilidades nas estruturas de comando do Irã sob pressão, com relatos de que o líder supremo Ali Khamenei tornou-se cada vez mais difícil de contatar e que a autoridade foi descentralizada para governadores provinciais.
Desde então, Teerã fortaleceu o Conselho Supremo de Segurança Nacional, chefiado pelo aliado de Khamenei, Ali Larijani, e criou uma nova autoridade — o Conselho de Defesa — para governar em tempos de guerra.
O veterano de guerra e ex-comandante da Irgc (Guarda Revolucionária Islâmica) Ali Shamkhani, que sobreviveu a uma tentativa israelense de assassinato durante a guerra do ano passado, foi nomeado neste mês secretário do Conselho de Defesa, com o objetivo de “fortalecer de forma abrangente os preparativos de defesa” e desenvolver “mecanismos para enfrentar ameaças emergentes”, informou o veículo Nour News, afiliado ao aparato de segurança do Irã.
Hamidreza Azizi, pesquisador visitante do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, afirmou que a nomeação de Shamkhani sinaliza que o Irã está se preparando para a possibilidade de um ataque de “decapitação” por parte dos EUA — potencialmente visando o próprio líder supremo.
“Está se tornando uma questão mais imediata o tema da sucessão pós-Khamenei, e eles estão se preparando para isso… Se isso de fato ocorrerá depende de muitos fatores, como a escala de um possível ataque ou campanha dos EUA. Mas é isso que posso ver acontecendo dentro do sistema”, disse ele à jornalista Becky Anderson, da CNN.
Repressão à dissidência
Os ataques de Israel ao Irã em junho foram precedidos por uma sofisticada infiltração conduzida pela agência de inteligência israelense Mossad, tática que intensificou o já elevado estado de paranoia do regime iraniano.
O Irã intensificou a repressão à dissidência em meio a temores de que uma guerra pudesse desencadear uma mudança de regime. No mês passado, forças de segurança reprimiram brutalmente protestos em todo o país, matando milhares de pessoas e prendendo muitas outras na repressão mais letal a manifestações na história da República Islâmica.
O regime acusou os manifestantes de serem espiões israelenses e mobilizou a força paramilitar local Basij para reprimir os protestos, que começaram devido às más condições econômicas, mas evoluíram para pedidos de mudança de regime.
A crescente paranoia do regime também se voltou para dentro. Na semana passada, quatro reformistas proeminentes que fizeram campanha para o presidente Masoud Pezeshkian foram detidos pelas forças de segurança iranianas e acusados de incitação contra “a atmosfera interna” e de trabalhar “para destruir a coesão nacional ao… disseminar posições inverídicas contra o país”.
Exercícios militares
Enquanto negociadores iranianos mantinham conversas com os EUA em Genebra, o Irã lançou exercícios navais no Golfo Pérsico para demonstrar suas capacidades de dissuasão aos aliados regionais de Washington.
Pela primeira vez, a Irgc fechou partes do Estreito de Ormuz por algumas horas durante a realização dos exercícios navais, segundo a mídia iraniana. Esse ponto estratégico crítico está localizado entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, por onde passa diariamente um quinto da produção global de petróleo.
Autoridades iranianas já haviam ameaçado fechar o estreito diante de tensões com o Ocidente, cenário que poderia causar turbulência no mercado global de energia.
A marinha iraniana também realizou um exercício conjunto com a Rússia no Golfo de Omã e no norte do Oceano Índico, no qual os dois lados conduziram um treinamento para “retomar um navio simulado sequestrado”, segundo a mídia estatal iraniana.
Neste mês, os EUA enviaram dois porta-aviões para a região, e um deles abateu um drone iraniano que se aproximava de forma agressiva no Mar Arábico. Anteriormente, duas embarcações armadas operadas pela IRGC se aproximaram de um petroleiro com bandeira dos EUA no Estreito de Ormuz e ameaçaram abordar e apreender o navio, segundo um porta-voz militar norte-americano.
Em meio ao reforço militar dos EUA e aos preparativos iranianos para um cenário de guerra, especialistas afirmam que autoridades iranianas estão tentando enviar uma mensagem a Washington.
“A tática iraniana é tentar convencer os Estados Unidos de que a guerra será custosa”, disse Vali Nasr, professor da Universidade Johns Hopkins. “Não é como em junho. Não será como na Venezuela. Os Estados Unidos terão de enfrentar determinados custos e precisam calculá-los antes de realmente atacar o Irã”, afirmou.
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