Internacional Israel tem 4ª eleição em dois anos e partidos pequenos serão decisivos

Israel tem 4ª eleição em dois anos e partidos pequenos serão decisivos

Partidos de menor porte tentam vagas tanto para oposição, mais unida, quanto para Netanyahu, que se mantém confiante

  • Internacional | Eugenio Goussinsky, do R7

Resumindo a Notícia

  • Aliança do partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e do Azul e Branco, não obteve êxito
  • Expectativa é sobre quais partidos pequenos alcançarão limite de qualificação eleitoral
  • Diplomata israelense considera que o sistema democrático do país é estável
Eleições já começaram em locais fora do país

Eleições já começaram em locais fora do país

Atef Safadi/EFE/17-03-21

Com a dispersão do Knesset (Parlamento) de Israel, em 22 de dezembro último, o país vai realizar, nesta terça-feira (23), sua quarta eleição em menos de dois anos. Será a 24ª formação do Parlamento na história israelense.

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O pleito, aberto para a votação de cerca de 6,5 milhões de eleitores, ocorrerá após o rompimento de uma aliança entre as duas principais forças, o Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e o Azul e Branco, representado pelo ex-chefe das Forças Armadas, Benny Gantz. A união ocorreu no ano passado, na terceira eleição, após nenhum dos lados ter conseguido formar uma maioria nas duas primeiras eleições.

Após meses de rivalidade entre ambos, o Parlamento acabou sendo dissolvido. Há, no entanto, no país, a expectativa de que essa eleição finalmente defina o mandatário de Israel nos próximos quatro anos. Para tanto, os partidos menores serão decisivos.

Eles precisam ultrapassar o limite de qualificação eleitoral (hoje é de 3,35% de eleitos), em uma época na qual o número de partidos no Parlamento cresceu muito, deixando mais difícil a costura de acordos.

"Os tempos mudaram, os grandes partidos não são mais tão grandes como costumavam ser, mas o jogo continua o mesmo, e quando a sociedade está mais ou menos dividida politicamente ao centro, como era em 1992, e desde então, nas primeiras eleições de 2019, sob o atual sistema político israelense, podem ser decisivos os partidos que não ultrapassam o limite de qualificação que determinam o resultado", afirma, em artigo para o The Jerusalem Post, a escritora Susan Hattis Rolef, ex-pesquisadora no Centro de Pesquisa e Informação do Knesset.

Quatro partidos estão neste limiar, em busca do limite de qualificação. São eles: Partido Sionista Religioso (que apoiará Netanyahu); o Ra'am (um partido árabe, que também tenderá a apoiar Netanyahu); o Meretz (de esquerda social-democrata) e o próprio Azul e Branco (centro).

"Para Netanyahu conseguir formar um governo depende de uma combinação de três fatores: quantos votos o Yamina receberá; se o Partido Religioso Sionista e/ou o Ra'am irão ou não passar o limite de qualificação; e se Meretz e/ou Azul e Branco irão ou não passar o limite de qualificação. Se o outro bloco terá a opção de formar um governo, depende dos mesmos três fatores", pondera Susan.

Outro fiel da balança, que deverá ultrapassar o limite eleitoral é o partido direitista Yamina , que surgiu como uma aliança entre os partidos A Casa Judaica, União Nacional e A Nova Direita, nas eleições de 2019 e 2020, se fragmentou e hoje é apenas sustentado pela Nova Direita, que herdou o nome Yamina. Seu representante é o empresário Naftali Bennett.

A questão é saber se, diante dessa fragmentação da direita, o Likud conseguiria os números necessários para conquistar 61 cadeiras, em um total de 120, no Parlamento e efetivar Netanyahu, que busca se manter no poder, em meio a um julgamento, no qual é réu, acusado de corrupção.

Aliança opositora

Mas a oposição parece estar mais unida, em relação às três eleições anteriores, com a aliança entre o Partido Trabalhista e o Meretz, no apoio ao líder do Yesh Atid (centro), Yair Lapid, na tarefa de formar o próximo governo.

O próprio Benny Gantz, do Azul e Branco, está disposto a apoiar qualquer bloco que estiver mais próximo de tirar Netanyahu do poder, o que deixa o atual primeiro-ministro em uma situação mais vulnerável do que nos pleitos anteriores.

Mais tradicional partido esquerdista, que já abarcou nomes como David Ben-Gurion, Golda Meir, Itzhak Rabin e Shimon Peres, o Partido Trabalhista é liderado pela jornalista e ativista de causas femininas, Merav Michaeli, que alia idealismo ao lado pragmático da política.

Essa questão do limite eleitoral contribuiu para a costura de uma aliança opositora, a partir do início de fevereiro, quando o partido trabalhista Tnufa, de Ofer Shelah (jornalista de 61 anos e parlamentar, ex-Yesh Atid), e o prefeito de Tel Aviv, o veterano de 71 anos, Ron Huldai (de Os israelenses), desistiram por não terem expectativas de conseguirem um número suficiente de cadeiras.

A saída deles facilitou uma aliança entre vários partidos em torno de Lapid, 57 anos, um famoso jornalista que entrou para o Parlamento e chegou a ser ministro das Finanças do governo Netanyahu, em 2013-2014.

Netanyahu, por sua vez, afirmou, com base em uma pesquisa interna do Likud, que esta eleição irá finalmente definir o primeiro-ministro, mostrando-se confiante de que, com o apoio do Shas, do Judaísmo da Torá Unida, do Partido Religioso Sionista e do Yamina, cujos representantes até agora rejeitam uma aliança com o Meretz, irá conseguir formar um bloco vitorioso de direita.

Rodízio frustrado

Este tipo de situação, que envolve impasse para formar um governo, já ocorreu em uma época em que um muito menor número de partidos concorria para o Knesset. Remete, por exemplo, aos anos 80, mas tem se mostrado mais delicada, já que, diferentemente de anos anteriores, o atual primeiro-ministro não pode mais demitir ministros sem a aprovação do Knesset, o que engessa ainda mais cada governo.

Além da fragmentação, isso, possivelmente, tem impedido alianças mais duradouras, como a que ocorreu nas eleições de 1984, quando, sem vencedores, Itzhak Shamir (Likud) e o trabalhista Shimon Peres formaram o governo de União Nacional. Tal qual deveria ocorrer agora, os trabalhistas (e não o centro, como o Azul e Branco) e o Likud se revezaram nos cargos de primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores.

A situação se manteve nas eleições de 1988, quando o Likud venceu por pequena margem, mas, ainda com uma base instável, manteve a aliança, em outros moldes: Shamir foi primeiro-ministro e Peres, o ministro das Relações Exteriores.

O acordo teve fim com uma crise política pôs fim ao acordo, em 1990, quando Shamir se firmou no poder com base em direitistas e religiosos.

Este governo direitista durou até a chegada de Itzhak Rabin, trabalhista, que manteve Shimon Peres no cargo de ministro das Relações Exteriores. Foi um revezamento, neste caso, de governos eleitos, que, cada um seguindo uma linha, conseguiram manter bases parlamentares.

Nesta aliança frágil que, em 2021, culmina em uma quarta eleição, o acordo entre os dois partidos incluía um rodízio no posto de primeiro-ministro e determinava que o governo adotaria um único orçamento para 2020 e 2021.

O Likud, de Netanyahu, propôs a votação de dois orçamentos diferentes, o que foi recusado pelo Azul e Branco, no que foi considerado uma manobra direitista para evitar que, conforme o combinado, Gantz assumisse o cargo de primeiro-ministro em novembro de 2021.

Conforme as afirmações de Yohanan Plesner, diretor do Instituto de Democracia de Israel, há uma considerável chance de a direita se manter no poder, sem necessariamente a presença de Netanyahu.

Isto caso os partidos Yamina, do já citado Bennett, e o Nova Esperança, do ex-ministro da Educação e experiente político, Gideon Sa'ar, acabem conquistando um número de cadeiras maior até do que o Likud. Neste caso, eles dariam as cartas.

"Ao mesmo tempo, nas eleições de março, Netanyahu verá dois adversários sérios da direita. Naftali Bennett, o ex-chefe de gabinete de Netanyahu e ministro de seus governos, viu sua popularidade disparar, pois ele se rebatizou como um especialista da Covid focado em fazer a economia israelense andar novamente. Além disso, Gideon Sa'ar - outro ex-ministro, secretário de gabinete de Netanyahu e um dos políticos mais populares do Likud - agora formou seu próprio partido de centro-direita com a intenção declarada de derrubar Netanyahu", comenta Plesner, que participou de live do Ministério das Relações Exteriores.

A lista completa de participantes é formada pelos partidos Likud (Benjamin Netanyahu); Yesh Atid (Yair Lapid); Nova Esperança (Guideon Sa'ar); Yamina (Naftali Bennett); Lista Unificada (Ayman Odeh); Judaísmo da Torá (Moshe Gafni); Shas (Arieh Deri); Israel Nossa Casa (Avigdor Liberman); Partido Trabalhista (Merav Michaeli); Meretz (Nitzan Horowitz); Azul e Branco (Benny Gantz); Sionismo Religioso (Betzalel Smotritch); Ra’am (Mansour Abbas) e Partido Econômico (Yaaron Zelicha).

Democracia estável

Essa sequência de eleições, embora inédita, está dentro do contexto político local, baseada em um sistema eleitoral flexível o suficiente para não afetar a estabilidade democrática no país, segundo o vice-cônsul de Israel em São Paulo e Sul do Brasil, Aviel Avraham.

Segundo ele, a maior diferença desta eleição não é ela ser a quarta em um curto período, mas sim o fato de estar ocorrendo em meio a uma pandemia, que, em Israel, começa a ser controlada.

"A diferença é que estamos ainda no meio de uma pandemia. Então é um momento excepcional em qualquer país e para qualquer governo. Mas o sistema é o mesmo. A democracia é a mesma. Na pandemia, Israel tem se movido rapidamente. Temos trabalhado arduamente para vencê-la e para que cidadãos israelenses possam exercer seu direito ao voto", observa.

Avraham ressalta que tantas eleições em tão pouco tempo fazem parte do cenário político e não ameaçam a estabilidade democrática israelense.

"O sistema é forte o suficiente. É o mesmo sistema desde 1948. As eleições incluem homens, mulheres, judeus ou não judeus, todos os cidadãos israelenses. Asseguramos que todos possam votar, morando em Israel ou no exterior. Realizamos as eleições em todas as embaixadas e consulados do mundo no dia 11 de março. Eu mesmo, como diplomata, tive a oportunidade de votar no exterior pela primeira vez, aqui em São Paulo, podendo exercer meu direito cívico", completa.

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