Japão encara fantasma do castigo físico em escolas e equipes esportivas
Internacional|Do R7
Tóquio, 17 fev (EFE).- O recente suicídio de um jovem de 17 anos que foi agredido repetidamente por seu treinador de basquete mostrou a persistência dos castigos corporais nos colégios e equipes esportivas do Japão, apesar dos esforços do Governo para erradicar essa prática. O debate foi intensificado ainda mais depois que 15 atletas da seleção nacional feminina de judô acusaram o técnico Ryuji Sonoda de insultá-las e inclusive golpeá-las com pedaços de bambu durante a preparação para os Jogos Olímpicos de 2012, o que causou a demissão de Sonoda na semana passada. São casos que expõem a tolerância à excessiva disciplina exigida no âmbito esportivo e no mundo acadêmico. Frequentemente estes casos acontecem nos clubes esportivos dos colégios, que compõem boa parte do chamado "bukatsu", as atividades extracurriculares que são obrigatórias em muitas escolas do país. "Este é um sistema que mantém os alunos no colégio das 7h às 19h, que os transforma em viciados no trabalho, em escravos para as companhias nas quais trabalharão no futuro", denunciou à Agência Efe o diretor de um colégio do Japão que preferiu manter o anonimato. Como destacam alguns educadores, este professor ressalta que essas condutas estão enraizadas - "muitos adultos receberam castigos corporais no passado e, apesar de não gostarem, reproduzem agora essa maneira de pensar" - e explica que, embora já não sejam tão bem-vistas como há décadas, não são poucos os que ainda as toleram. O diretor do centro diz que "alguns pais ainda acham que as bofetadas fazem com que seus filhos melhorem suas habilidades ou a capacidade para trabalhar em equipe", e que esse tipo de tratamento "próprio de uma base militar" ajudará "a chegar às melhores empresas ou equipes esportivas". No último dia 23 de dezembro, a mãe do estudante de Osaka, que era capitão da equipe de basquete masculina do prestigiado instituto público de bacharelado de Sakuranomiya, encontrou o filho enforcado em seu quarto. No dia anterior, o preparador da equipe, de 47 anos, esbofeteou o menino em público, duramente e em repetidas ocasiões, com a intenção de corrigir os erros que cometeu durante uma partida amistosa contra a equipe de outro colégio. O treinador disse à junta educativa que os golpes tinham a intenção de "estimular", e que, como técnico esportivo, considerava os castigos físicos "uma forma de tirar proveito dos atletas", segundo o jornal "Yomiuri". O pior é que a própria junta averiguou em 2011 os rumores que apontavam casos de maus-tratos na equipe de basquete, mas estabeleceu que não havia evidência sobre castigo físico algum sem entrevistar os jogadores. Uma investigação posterior ao falecimento do capitão contou com testemunhos de mais de 30 alunos que afirmaram terem sido esbofeteados e pisoteados de distintas maneiras pelo treinador. Em 2007, o Ministério da Educação e Esporte notificou às juntas educativas provinciais de que o castigo físico "não deveria ser feito sob nenhuma circunstância", já que poderia encorajar os estudantes a usarem a força para resolver problemas. Apesar disso, cerca de 400 professores do primário ao ensino médio, e também de centros para alunos com necessidades especiais, ainda são repreendidos a cada ano por impor castigos corporais, segundo dados do Governo. "Sentimos muito, mas o fato é que o castigo corporal nunca deixou de ser praticado nos colégios", admitiu um porta-voz da Junta Educativa de Osaka, ao anunciar em janeiro que o jovem tinha se matado e que o preparador da equipe de basquete de sua escola costumava bater nele para "incentivar". As palavras que a mãe do estudante dirigiu ao treinador durante o funeral de seu filho, recolhidas pelo jornal "Yomiuri", mostram a tolerância que persiste no Japão em elação ao castigo físico. "Posso entender que desse uma ou duas bofetadas. Mas fica muito claro pelo aspecto de seu rosto que foi esbofeteado muitas vezes", declarou. EFE asb/ff/rsd











