Internacional Julgamento de 'El Chapo' nos EUA não deve baixar violência no México

Julgamento de 'El Chapo' nos EUA não deve baixar violência no México

Para especialistas, guerra às drogas com participação militares deve continuar matando, mesmo após a prisão do mais famoso chefão do tráfico

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A prisão, julgamento e condenação de um criminoso procurado costumam ser vistos como vitórias da sociedade e, com sorte, como passos na direção de um processo de paz. No caso de Joaquín Archivaldo Guzmán, conhecido como 'El Chapo', o traficante mais famoso do México, o prognóstico é um pouco diferente.

Ele é responsabilizado, por literalmente, milhares de mortes ao longo de mais três décadas de crime. No entanto, uma condenação nos EUA, no julgamento que começa nesta segunda-feira (5) em Nova York, não deve diminuir a onda de violência que tomou conta do México nos últimos anos.

"Infelizmente, a violência do narcotráfico no México não apenas aumentou desde a prisão do Chapo como se diversificou. Hoje, o crime organizado sequestra e assassina imigrantes, faz extorsão, hackeia bancos e empresas financeiras", explica o pesquisador Miguel Lara, professor da Universidade Iberoamericana da Cidade do México.

Segundo Lara, os cartéis de drogas mexicanos expandiram suas operações para países como Colômbia, Argentina e Brasil, além dos EUA. "Estão até mesmo no Senegal", alerta ele.

"Estratégia falida"

A entrada dos militares no combate ao narcotráfico, em 2006, quando Felipe Calderón assumiu a presidência do México, é apontada pelo pesquisador com a grande falha estratégica do país.

"A guerra foi uma estratégia falida que começou com Calderón e que não foi freada. Não houve vontade política nem jurídica para pará-la. Quase todas as polícias estatais e municipais, e também alguns militares, são cúmplices do tráfico. Qualquer tentativa de parar a guerra é parada por dentro", explica Miguel Lara.

A prisão de um único chefe do tráfico, por maior que seja a importância de Guzmán no cenário mexicano, não interfere mais no dia-a-dia das atividades criminosas.

"Hoje, não há cabeças. São grupos grandes que fazem parte dessa guerra. E isso complica o panorama, é difícil solucionar essa situação", lamenta o mexicano.

Violência só aumenta

A jornalista canadense Dawn Paley, que é professora da Universidade Autônoma de Puebla, no México, tem opinião semelhante. Na visão dela, o problema do narcotráfico no país só aumentou depois da prisão do Chapo.

"A violência no México não está ligada às atividades de um só homem. Ao contrário, tem a ver, antes de mais nada, com o uso de militares, da Polícia Federal e dos fuzileiros navais na guerra às drogas. A chave é tirar esses soldados das ruas", analisa.

Para demonstrar, ela cita as estatísticas no país desde a prisão de El Chapo, em 2016. "A situação não melhorou. 2017 foi o ano com mais assassinatos desde o início da guerra às drogas e 2018 deve ser ainda pior", conta.

Segundo Dawn Paley, a importância dada a El Chapo é "totalmente exagerada pelas autoridades e a mídia, para criar um inimigo visível e tirar a atenção da ação do Estado no tráfico."

Ela chama a atenção para uma declaração do general mexicano José Francisco Gallardo. Ele afirmou que o novo presidente, Andrés Manuel López Obrador, deve "desmilitarizar a sociedade e o governo do México".

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