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Medo da violência no Equador leva imigrantes a viver ‘nas sombras’ nos EUA

Com recorde de homicídios no país sul-americano, imigrantes dizem que ficar nos Estados Unidos é questão de sobrevivência

Internacional| Ana María Cañizares, da CNN Internacional

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Imigrantes equatorianos nos EUA enfrentam dilemas difíceis, preferindo viver com medo da imigração a retornar a um país marcado pela violência.
  • Casal de equatorianos em Washington relata que a insegurança no Equador, com altos índices de homicídios, torna o retorno arriscado.
  • Mais de 800 mil equatorianos vivem nos EUA, e muitos temem deportações e as consequências de voltar ao seu país natal.
  • Apesar das dificuldades migratórias, pais desejam um futuro melhor para seus filhos, focando na esperança e sobrevivência em meio à incerteza.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Mesmo sob risco de deportação, imigrantes preferem viver nos EUA a retornar ao Equador Seth Herald/Reuters - 27.01.2026

“Parece difícil, mas não temos outra opção”, diz à CNN um casal de equatorianos que prefere enfrentar as batidas do Serviço de Controle de Imigração e Aduanas (ICE, na sigla em inglês) nos Estados Unidos a voltar para a violência em seu país. É um complexo dilema familiar vivido por muitos equatorianos nos EUA, em meio à pressão dos operativos migratórios e das difíceis condições no Equador devido ao rápido avanço da criminalidade.

O casal, que vive nos arredores de Washington e pediu para não ser identificado por medo das operações do ICE, chegou aos Estados Unidos há seis anos. Tinham um filho pequeno para sustentar e estavam decepcionados com a falta de trabalho e a insegurança no Equador.


“Foi complicado deixar tudo o que eu tinha no meu país, minha família e meus amigos para mudar de vida. A situação ficou difícil, com um bebê nos braços e a falta de oportunidades”, comenta Ernesto (nome fictício), que realiza vários trabalhos para sustentar sua casa — motorista de aplicativo, reparador e até eletricista. Ele diz que não tem medo de trabalhar e prover para sua esposa e filho.

Durante todos esses anos, eles não conseguiram legalizar seu status nos EUA e acreditam que, sob o governo Donald Trump, será ainda mais difícil. No entanto, preferem viver à sombra das batidas migratórias porque consideram que voltar ao Equador seria ainda mais arriscado.


“Podemos ir ao Equador abrir um negócio e, se a insegurança nos atingir, perderíamos tudo o que conseguimos em um instante. Poderíamos ser vítimas de extorsão ou sequestro”, afirma o pai, mencionando a grave situação de violência em seu país, que o impede de retornar.

O casal sente falta do país e da família, mas não quer olhar para trás, pois sua principal motivação é o filho de 8 anos. Acreditam que nos EUA ele terá uma perspectiva de vida melhor, apesar das dificuldades migratórias.


“Que futuro eu poderia dar ao meu filho se voltasse ao Equador sem trabalho? Por agora, esta é a única opção que temos”, diz Ernesto, segurando a mão da esposa. Ela concorda e afirma que as coisas no Equador não melhoraram. “Quando não há segurança, nem economia estável, quando não há futuro para você, voltar não é uma opção”, diz Gabriela (nome fictício).

Ao saberem das frequentes notícias de violência no Equador, afirmam que nunca imaginaram uma deterioração tão rápida. “Isso era algo que víamos em outros países, mas ver que o nosso caiu nisso é uma dor terrível, porque lá também está nossa família, e o medo que temos aqui é também o temor do que possa acontecer com eles”, diz Gabriela.


O governo equatoriano afirma que combate a insegurança, mas em 2025 o país registrou mais de 9.000 homicídios — o ano mais violento de sua história.

Os pais do casal enviam mensagens de apoio pelo WhatsApp, pedindo que tomem cuidado e não se arrisquem em meio às batidas do ICE.

“Olá, meu filho, que Deus os abençoe, amo vocês, um abraço a todos”, mostra Ernesto, lendo uma mensagem da mãe.

Gabriela afirma que passam grande parte do tempo em casa e evitam se expor ou frequentar certos lugares, mas é difícil saber onde ocorrerão novos operativos. “Nunca imaginei viver com esse medo, essa incerteza, deixar meu filho no ônibus com lágrimas nos olhos e não saber se algo pode me acontecer”, desabafa.

Eles sabem que vivem um momento complicado, mas garantem que o amor, a união e a esperança os mantêm fortes em um país que — apesar da situação migratória — oferece mais segurança do que o Equador.

“Viemos para trabalhar, para progredir. Não acho que seja um crime tentar estar aqui legalmente, embora agora seja muito mais difícil tentar se regularizar ou ao menos ver alguma oportunidade, que é o que pedimos”, diz Ernesto.

O casal evita falar sobre as operações do ICE ou seus medos na frente do filho. Eles querem que o menino viva uma infância com carinho e brincadeiras, não com o trauma de uma detenção ou separação. “Sempre pedimos a Deus que, assim como saímos juntos, possamos voltar juntos e permanecer unidos como família. Não dizemos nada a ele; ele é feliz, ama a escola, ama fazer atividades. Ele entraria em pânico; evitamos esse tema com ele”, explica Gabriela.

A chancelaria equatoriana estima que mais de 800 mil equatorianos vivem nos EUA, principalmente em Nova York, Nova Jersey, Flórida, Califórnia e Connecticut.

O Instituto de Estatística e Censos do Equador — citando o Pew Research Center — relata que entre 2000 e 2021, a população equatoriana nos EUA cresceu 208%, passando de 270 mil para 830 mil pessoas, tornando essa comunidade a décima maior entre os hispânicos no país.

Segundo dados recentes da Chancelaria fornecidos à CNN, os últimos três anos registraram aumento no número de deportações dos EUA: em 2025 foram 9.534; em 2024, 13.681; e em 2023, 18.449 — o número mais alto desde 2019. A chancelaria afirma que não pode determinar quantos equatorianos sem documentos vivem no país, mas o Pew Research estima que, em 2022, havia 140 mil equatorianos “não autorizados” nos EUA.

Não são apenas os indocumentados que não querem voltar ao Equador; alguns equatorianos com documentos válidos também evitam ir, até mesmo para visitar, devido à violência.

Daisy Casares vive legalmente nos EUA há 24 anos e, ao ver notícias sobre seu país, se comove. “Está irreconhecível, parece um pesadelo. Não reconheço meu país. Doem essas imagens; parece um filme de terror”, diz à CNN, de Virginia.

Ela lembra que o país em que cresceu é muito diferente da realidade atual. “Ouço todos os dias notícias de crimes e não consigo associar com o Equador em que cresci, onde podíamos caminhar tranquilamente. Hoje é irreconhecível. É triste, porque amo meu país”, afirma.

Casares, que trabalha no setor de mudanças, diz que semanalmente recebe ligações de equatorianos deportados ou com medo de deportação, preocupados em perder seus bens após uma separação forçada. Ela tenta ajudar e aconselhar essas famílias.

“Recebo ligações de esposas que ficaram com os filhos enquanto os maridos foram deportados. Estão tristes, em pânico, sem saber o que fazer, com medo de sair de casa. Tento orientá-las, dar ideias para que continuem suas vidas no Equador e levem o que conquistaram aqui”, relata.

Ela busca levar tranquilidade e informação aos imigrantes para que, caso tenham de retornar, não o façam de mãos vazias — há maneiras legais de levar seus bens.

“Há pessoas que se aproveitam da desgraça alheia. Eles precisam ter documentos assinados, especialmente para seus filhos, para transportar bens ao Equador, carros ou economias. Há maneiras de fazer isso; procurem ajuda”, afirma Casares.

Enquanto essa empresária ajuda seus compatriotas a reconstruírem a vida após uma deportação, Ernesto e Gabriela mantêm esperança de que a política migratória americana mude: “Não acho que ninguém possa continuar vivendo assim; não acho que milhões de pessoas consigam seguir vivendo nas sombras”, diz Ernesto.

Nos dois casos, a insegurança no Equador desestimula o retorno. Alguns preferem suportar a pressão do ICE; outros, como Daisy, ajudam sua comunidade — aqueles que não tiveram outra escolha ou oportunidade. “Gosto de ajudar; sempre foi do meu caráter”, conclui.

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