Mercado da infidelidade online irrita à França conservadora
Internacional|Do R7
Carlos Abascal Peiró. Paris, 26 fev (EFE).- Sinônimo de adultério, pelo menos, no mundo da literatura, a França é palco atualmente de provocativas campanhas do popular site de encontros extraconjugais Gleeden, alheio aos embates legais de vários grupos religiosos e alimentado por uma clientela mais do que fiel. Há poucas semanas, o "Salon du Mariage", uma típica feira de exposições dedicada ao universo do matrimônio, revelava ao público um lugar escondido. Decorado com uma maçã mordida, um stand foi instalado no local com o slogan: "Ser fiel a dois homens é ser duas vezes fiel". Criado em 2009, o Gleeden foi concebido por e para mulheres com idades entre 35 e 50 anos e o sucesso do site é explicado com dados próprios: enquanto 50% dos inscritos na página eram separados, os outros 50% se empenhavam penosamente para prolongar a euforia das primeiras transas com o parceiro. A fórmula de enganar um marido com outro marido, que teria fascinado Madame Bovary, em pouco tempo transformou o Gleeden em um terremoto social em um país onde, de acordo com uma pesquisa recente, mais de 40% dos casados são infiéis e que, junto com a Itália, lidera a lista europeia dos países com os mais altos índices de infidelidade. Mas agora, depois de estudar por alguns anos uma resposta e perante o assombro do portal francês, as Associações Familiares Católicas (AFC-France) decidira, perseguir a suposta ilegalidade do fenômeno, que só na França reúne um milhão de internautas. "Procuramos reverter esse mito masculino do adultério e dar o protagonismo às mulheres. Há um mês, os franceses estavam nas ruas pedindo liberdade de expressão, e agora nos censuram?", questionou a porta-voz do Gleeden, Solène Paillet, que lembrou o respaldo legal do site e se disse surpresa pelo tempo que um protesto levou para acontecer, já que o site já está há seis anos no ar. Em Versalhes, por exemplo, os outdoors do site, que mostram uma mulher mordendo uma maçã em uma releitura sensualizada de Eva, já foram retirados por conta das reclamações de alguns moradores. Governada pelo partido União por um Movimento Popular (UMP), Versalhes é ironicamente, segundo o Gleeden, a quinta cidade mais infiel da França. Longe de banalizar a questão, o advogado dos grupos denunciantes, Henri de Beauregard, afirmou que o conflito não pertence à ordem moral, mas sim à jurídica. Segundo ele, atenta contra o código civil ao ultrapassar "o caricatural debate entre religiosos e progressistas". "Ninguém tem o direito de oferecer um contrato cujo objeto é ilícito", argumentou à Agência Efe o advogado. Criado a partir de uma legislação que suprimiu o crime de adultério em 1975 na França (no Brasil o adultério só passou a não ser mais considerando crime em 2005), o Gleeden vê na polêmica uma manobra política. Alheia a tudo isso, a autodenominada indústria da libertinagem aproveita o auge do portal para impulsionar outros sites que selecionam hotéis disponíveis no perímetro do casal ou que fornecem comprovantes falsos - de congressos imaginários a viagens inexistentes - para ter uma desculpa 'crível' para apresentar a um parceiro desconfiado. Por enquanto, a polêmica só fez aumentar a popularidade do Gleeden no cenário amoroso de uma França onde a infidelidade, disse certa vez o dramaturgo Sacha Guitry, é apenas um vínculo a mais entre os cônjuges. EFE cap/cdr/rsd (foto)















